Sacola com R$ 270 mil em dinheiro e mensagens revelam suspeita de propina a coronéis da PM investigados por ligação com o PCC
27/07/2026
(Foto: Reprodução) "Podemos ir para Campos do Jordão, na Colônia dos Oficiais", diz um coronel da PM a um suposto integrante do PCC.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal durante uma investigação sobre doleiros revelam uma relação entre coronéis da Polícia Militar de São Paulo e investigados por suspeita de integrar o Primeiro Comando da Capital (PCC).
LEIA TAMBÉM: Viagens, favores e suspeitas de propinas: os bastidores da relação entre coronéis da PM e integrantes do PCC
Entre as principais evidências analisadas pelo Ministério Público de São Paulo estão:
a foto de uma sacola com R$ 270 mil em dinheiro;
conversas sobre supostos pagamentos de propina;
convites para viagens; e
pedidos de favores dentro da corporação.
O material foi encontrado pela PF durante uma investigação sobre doleiros. Ao identificar possíveis vínculos entre policiais militares e suspeitos ligados à facção criminosa, a PF encaminhou as informações ao Ministério Público paulista, que aprofundou as apurações.
Uma das mensagens consideradas mais relevantes pelos investigadores foi registrada em outubro de 2023. Após uma conversa sobre dois coronéis da PM, um homem apontado pelo Ministério Público como responsável pelo transporte de dinheiro da facção pergunta: "Como chama o coronel mesmo?".
Em resposta, Cleber Azevedo dos Santos envia um áudio citando os coronéis Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho. Ele afirma que Coutinho "comanda tudo, Rota, Choque".
'Viajar, gente linda': coronel e suspeito do PCC planejavam viagem para colônia da PM, mostram mensagens
Fantástico mostra conversa entre policiais e suspeitos de integrar o PCC em que aparece sacola de dinheiro que seria propina.
Reprodução/TV Globo/Fantástico
Quarenta e quatro minutos depois, o mesmo homem envia a foto de uma sacola com dinheiro e escreve: "270. Estou voltando pro escritório e de lá já saio de novo para fazer os dois, tá?".
Para a Polícia Federal, a sequência das mensagens reforça a hipótese de que o dinheiro pudesse ser destinado aos coronéis Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho.
Indícios de influência dentro da corporação
No centro da investigação está o coronel da reserva Luiz Carlos Pereira Martins, aposentado da Polícia Militar desde 2019. Segundo o relatório do MP, ele mantinha contato frequente com Cleber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza, investigados por suspeita de envolvimento com o PCC.
Os promotores afirmam que Pereira Martins era um "grande amigo" dos dois e apontam indícios de que ele utilizava sua rede de contatos para facilitar o acesso do grupo a integrantes da corporação.
Uma das conversas analisadas ocorreu em setembro de 2020, em um grupo de mensagens chamado "Viajar Gente Linda". Nela, o coronel convida participantes para passar o feriado na colônia de férias de oficiais da PM em Campos do Jordão.
O convite é aceito por Cleber Azevedo dos Santos, que, segundo a investigação, já era alvo de apurações por suspeita de ligação com o PCC.
Dois anos depois, novas mensagens mostram conversas entre Pereira Martins e Robson Martins de Souza sobre uma reserva na colônia de férias da PM em Boraceia, no litoral paulista. Para os investigadores, os diálogos reforçam a proximidade entre os investigados e o oficial da reserva.
Em outra conversa, de 2023, Cleber envia ao coronel a foto de um oficial da PM e pergunta se ele o conhece. Pereira Martins responde que o policial era seu amigo e se oferece para fazer o contato diretamente.
"Conheço. Foi comandante do Choque, amigo meu. O que precisa? Se precisar falar com ele, chamo no particular", responde o coronel.
Para os investigadores, a mensagem reforça a suspeita de que Pereira Martins colocava sua influência dentro da corporação à disposição do grupo investigado.
Segundo o Ministério Público, Cleber Azevedo dos Santos é um dos principais operadores financeiros do esquema, mantendo contato tanto com integrantes da cúpula do PCC quanto com policiais militares. Já Robson Martins de Souza seria responsável pela articulação dos pagamentos de propina a agentes públicos. Os dois foram presos nesta semana.
Coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, é citado em investigação que apura relação de agentes com integrantes do PCC
Reprodução/TV Globo
Lavagem de dinheiro
A investigação também aponta que parte dos recursos teria origem em um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo comerciantes da região do Brás, no centro de São Paulo.
Segundo os promotores, valores obtidos com tráfico de drogas, operações com criptomoedas e golpes eram transferidos por meios digitais e, depois, sacados em espécie para dar aparência de faturamento legítimo às empresas.
De acordo com a investigação, foi desse esquema que teria saído o dinheiro usado para o pagamento de propinas a policiais militares.
As mensagens analisadas também fazem referência a uma viagem à Disney compartilhada entre integrantes do grupo e o coronel Pereira Martins, além de conversas sobre supostos pagamentos de propina a policiais civis.
Em uma troca de mensagens, Robson pergunta se há dinheiro em espécie para realizar pagamentos relacionados a delegacias identificadas apenas por números. Em outra conversa, Cleber afirma precisar de R$ 100 mil para pagar policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e cita ainda a cobrança de R$ 300 mil envolvendo uma investigação contra Robson.
O coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo e ex-comandante da Rota, também aparece nas conversas analisadas pela Polícia Federal.
Em uma delas, um investigado escreve "A mim já foi" e, dois minutos depois, envia o nome de José Augusto Coutinho. Pela proximidade das mensagens, a PF aponta a hipótese de uma ligação entre o coronel e um doleiro conhecido como Amin, que está foragido.
Além do caso atual, Coutinho já era investigado pela Corregedoria da PM em outros dois procedimentos relacionados ao PCC. Um deles apura a suspeita de que policiais tenham prestado segurança privada a uma empresa de ônibus ligada à facção criminosa. O outro investiga um suposto vazamento de informações que teria permitido a fuga de Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, apontado como uma das principais lideranças da organização fora dos presídios.
Viagens, favores e suspeitas de propinas: os bastidores da relação entre coronéis da PM e integrantes do PCC
Reprodução/TV Globo
O que dizem os investigados
A defesa de José Augusto Coutinho afirmou que as referências ao coronel nas mensagens são "meramente incidentais e indiretas", sem atribuição de qualquer conduta ilícita, e que sua inocência será demonstrada ao longo das investigações.
A defesa de Cleber Azevedo dos Santos afirmou que ele nunca atuou como operador financeiro do PCC e negou qualquer envolvimento dos policiais citados com suas empresas ou influência na resolução de problemas empresariais.
O advogado de Robson Martins de Souza não respondeu aos contatos da reportagem.
O Ministério Público informou que a investigação sobre os policiais continua em andamento e que não comentará o caso neste momento.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirmou que as corregedorias das polícias Militar e Civil já adotaram providências para apurar os fatos e que eventuais responsabilidades serão investigadas com rigor.
O coronel Luiz Carlos Pereira Martins não respondeu aos contatos da reportagem. Entre as mensagens analisadas pelos investigadores está uma foto publicada em um grupo de aniversário da esposa dele, em que aparece ao lado de Cleber Azevedo dos Santos. A imagem é acompanhada da frase: "Como sempre, para os amigos tudo; para os inimigos, o rigor da lei".
Em mensagem, coronel convida participantes para uma estadia na colônia de férias de oficiais da PM
Reprodução/TV Globo
GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico
Ouça os podcasts do Fantástico
ISSO É FANTÁSTICO
O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.