Profissionais que deixaram emprego para virar motoristas em apps se equilibram entre lucro e incertezas

  • 02/05/2026
(Foto: Reprodução)
Dez anos após chegada dos aplicativos, motoristas se equilibram entre busca por lucro, despesas e falta de garantias, em Fortaleza (CE) Thiago Gadelha/SVM Dez anos após a chegada dos aplicativos de transportes como Uber e 99 em Fortaleza, profissionais que deixaram seus empregos para trabalhar como motoristas nas plataformas têm se equilibrado entre falta de garantias trabalhistas, despesas, cuidados com a segurança e busca por lucro, em uma rotina de trabalho que frequentemente ultrapassa as oito horas diárias. Dados divulgados em 2025 pela PNAD Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostraram que em 2024 o Brasil tinha 1,7 milhão de pessoas que trabalhavam por meio de plataformas digitais e aplicativos. Em comum, eles têm renda acima da média e carga horária maior. Desse total, 58,3%, isto é, 964 mil pessoas, atuavam especificamente em aplicativos de transporte. ➡️ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp “Você tem que ter uma gestão financeira muito boa, porque senão você passa muito tempo apanhando”, resume o fortalezense Felipe Albuquerque, que trabalha como motorista por aplicativo há cerca de 4 anos. 📍Esta é a primeira reportagem de uma série publicada pelo g1 que aborda os aspectos e impactos do serviço de corridas por aplicativos de transporte em Fortaleza ao longo de uma década. Profissionais que deixaram emprego para virar motoristas em apps se equilibram entre lucro e incertezas Louise Anne Dutra/SVM Felipe atuava como técnico de instalação para uma empresa de telefonia, com contratação via CLT, mas deixou o emprego devido às condições de trabalho. À época, ele vendeu uma moto e alugou um carro para começar a rodar por aplicativo. Hoje, Felipe possui carro próprio e diz ganhar duas ou três vezes mais do que recebia como técnico de instalação. Porém, faz ressalvas quanto às condições gerais de quem trabalha em app - isto é, sem cobertura de seguridade social, com altos custos de manutenção e combustível para carro. Desde que começou a rodar por app, não teve férias. Felipe Albuquerque trabalha como motorista de aplicativo há cerca de 4 anos, em Fortaleza (CE) Thiago Gadelha/SVM A opinião é semelhante à de Katiuse Sabino, que trabalhava como motorista por app há 9 anos. Formada em pedagogia, ela trabalhava como professora, mas há anos deixou a sala de aula pelo asfalto. "A gente tem a opção de trabalhar, de fazer o nosso horário certo. Hoje, o aplicativo, ele paga pouco, né? Mas se você tiver uma organização financeira, se você equilibrar as suas contas, sim. Dá pra você viver do aplicativo, sim”, afirma. “Tem motorista que não faz os cálculos da questão de ganhar por quilômetro, o horário, então, assim, você tem que ser organizado nisso. Porque senão não dá” A Uber começou a operar na capital cearense em 29 de abril de 2016, com a modalidade UberX (exclusiva de carros). No ano seguinte, começou a operar a 99 em Fortaleza, também com carros. Em 2021, a Uber iniciou o serviço de transporte por motocicletas. No ano seguinte, foi a vez da 99. Ao longo dessa década, o segmento passou por uma série de reformulações, que incluem a regularização, pela Prefeitura de Fortaleza, em 2018. Até então, o serviço funcionava irregularmente e eram comuns as apreensões de veículos por parte do poder público. A ascensão dos aplicativos também jogou luz sobre a violência urbana que fez do Ceará, nos últimos, um dos estados mais violentos do Brasil. Entre 2019 e 2025, pelo menos 52 motoristas por aplicativo foram mortos enquanto trabalhavam no estado, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública. Transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade. LEIA MAIS: De irregular a indispensável: transporte por app em Fortaleza completa 10 anos com impactos na mobilidade Profissionais que deixaram emprego para virar motoristas em apps se equilibram entre lucro e incertezas Louise Anne Dutra/SVM Em busca dos ganhos Durante a produção desta reportagem, a equipe do g1 conversou com diversos motoristas por aplicativo. Embora com visões diferentes em alguns aspectos, todos concordaram em um mesmo ponto: nos últimos anos, a categoria tem sentido uma redução nos lucros obtidos no trabalho por app. Isto, conforme os entrevistados, se deve a fatores como uma defasagem no valor da tarifa cobrada do passageiro; um aumento na proporção da taxa cobrada pelas empresas dos motoristas e um aumento nos custos de manutenção e combustível, o que faz os motoristas gastarem mais para rodar. “Os valores das corridas estão defasados, a gente não tem um reajuste. Há muito tempo, a gasolina subiu, a inflação estourou, todas as peças de manutenção de todos os carros estão caras.[...] Eu digo que hoje o motorista ganha menos do que ganhava em 2019, em 2020”, afirma Felipe Albuquerque. A percepção é a mesma compartilhada pelo presidente da Associação de Motoristas por Aplicativo do Ceará (AMAP-CE), Evans Souza. Antes da chegada dos apps, ele era editor de vídeo, mas passou a trabalhar como motorista ainda em 2016. “Quando o motorista começou [10 anos atrás], a média salarial dele era em torno de 12 mil reais, quando começou o boom dos aplicativos aqui em Fortaleza. Hoje, essa média, eu acho que ela caiu quase 50%. Então, assim, para o motorista dizer que roda e é sobrevivente, ele tem uma média de 6 mil reais. Entre 5 e 6 mil reais. Então, assim, caiu drasticamente em torno de 50%”, aponta Evans. Evans Souza trabalha por app desde 2016 e atualmente é presidente da Associação de Motoristas por Aplicativo do Ceará (AMAP-CE) Fabiane de Paula/SVM Uma pesquisa divulgada em 2025 pela fintech GigU, voltada para auxiliar motoristas por app em questões financeiras e outros aspectos, apontou que o faturamento mensal dos motoristas por aplicativo em Fortaleza era, em média, de cerca de R$ 6.428,57, com 55 horas semanais de trabalho, ou 8 horas por dia, todos os dias da semana. Contudo, cerca de 54% do valor seria gasto em gasolina e manutenção. O lucro final ficaria em torno de R$ 2,9 mil. A título de comparação, dados da PNAD contínua, do IBGE, apontaram que os trabalhadores do Ceará tinham uma renda média mensal de R$ 2.071 em 2024. Para Evans, a chegada dos aplicativos há cerca de dez anos ajudou a “trazer mais dignidade para muitas pessoas que não tinham oportunidade de um trabalho digno”, mas hoje a categoria busca melhorias para um cenário que considera injusto e cada vez menos vantajoso. “O valor que o passageiro paga não é o valor repassado para o motorista. Quando começou o aplicativo, 10 anos atrás, a corrida mínima era R$ 6,75. Hoje, a corrida mínima é R$ 5,80. Você nota essa diferença”, explica. “Hoje, o aplicativo pode ficar entre 30% e 60% do valor de uma corrida. A gente analisa que o valor justo seria entre 20% a 25%”, diz o presidente da associação. Profissionais que deixaram emprego para virar motoristas em apps se equilibram entre lucro e incertezas Louise Anne Dutra/SVM Entre riscos e cuidados Quando começou a trabalhar por app, a pedagoga Katiuse Sabino costumava rodar diariamente. Hoje, ela faz o possível para trabalhar apenas de quinta a domingo, “porque hoje em dia é o que dá mais”. Ela também tenta trabalhar no máximo oito horas por dia. Para isso, é preciso um planejamento maior. Katiuse Sabino trabalha como motorista de app desde 2017. Antes, era professora Thiago Gadelha/SVM “Eu tento fazer um fundinho de reserva para poder eu folgar uma vez na semana ou duas vezes, ou então para quando o carro der problema, eu ter um dinheirinho ali reservado”, conta. “A gente tem um custo [alto], a gente compra pneu, faz a manutenção preventiva, tem a troca de óleo, tem tudo isso. E você ainda tem as suas despesas de casa, né?” Ao colocar as contas na ponta do lápis, Katiuse ainda prefere trabalhar como motorista de aplicativo do que como professora. O marido dela também trabalha como motorista, mas prefere circular no período noturno. Até outubro de 2024, ela também rodava de noite, porém um incidente mudou tudo: após entrar no carro, um passageiro tirou as calças, passou a se masturbar no banco traseiro e falar obscenidades para a pedagoga. Mesmo nervosa, ela conseguiu acionar o grupo de motoristas do qual faz parte e uma viatura da Polícia Militar que, por sorte, passava próximo. O homem foi preso em flagrante e hoje é réu na Justiça por crime de importunação sexual. Katiuse passou meses sem trabalhar por app, e quando voltou passou a pegar apenas passageiras mulheres. Para a motorista, a situação reviveu os temores que a acompanhavam desde que começou a trabalhar por app, em março de 2017: a segurança. Ao longo de uma década de serviço, tanto ela quanto o presidente da Associação de Motoristas, Evans Souza, testemunharam colegas morrerem trabalhando ou deixando de trabalhar por temer pela sua integridade. Entre 2019 e 2025, o Ceará registrou 52 mortes de motoristas por aplicativo. Os dados são da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), órgão vinculado à Secretaria de Segurança do Ceará. Em 2019, ocorreu 1 homicídio de motorista por app; em 2020, foram 12. De 2021 a 2023, foram 5, 5 e 8, respectivamente. Em 2024, o número voltou a subir e foram registradas 12 mortes de motoristas por app. Em 2025 foram 9. De janeiro a março de 2026, nenhuma. Ao longo dos anos, porém, os motoristas reconhecem que os aplicativos melhoraram os mecanismos de segurança. Entre as melhorias, eles destacam a possibilidade de gravar as corridas e a possibilidade de motoristas mulheres conduzirem apenas passageiras mulheres. "Acho que melhorou um pouco. Quando eu me sinto desconfortável, eu aperto esse botão [de gravar a corrida] e eu também tenho uma câmera para me resguardar", conta Felipe Albuquerque. Protesto realizado por motoristas de aplicativos em 2023, em Fortaleza, contra valor cobrado pelas plataformas e pedindo mais segurança Davi Rocha/Pera Photo Press/Estadão Conteúdo Profissionais que deixaram emprego para virar motoristas em apps se equilibram entre lucro e incertezas Louise Anne Dutra/SVM No limbo jurídico Do ponto de vista legal, os motoristas por aplicativo atuam dentro de uma zona cinzenta. Eles não possuem um contrato de trabalho com as plataformas, como Uber e 99, portanto não são funcionários. Logo, não têm direito a FGTS, 13º ou seguro-desemprego. Mais de 71% dos trabalhadores por aplicativo também não possuem um MEI ou um CNPJ, conforme o IBGE, e portanto estão mais próximos da categoria de informais. Eles não contribuem, por exemplo, para a seguridade social. O que significa que também não estão contribuindo para a própria aposentadoria nem têm recursos para solicitar pensão ao INSS em caso de doença ou acidente. “Atualmente eles estão no limbo, nem pode-se afirmar que são empregados, nem pode-se afirmar que são autônomos”, resume o advogado Rafael Sales, pesquisador da área de relações trabalhistas, em especial de trabalhadores por aplicativo. Motoristas por aplicativo vivem limbo jurídico: não são contratados nem são autônomos Fabiane de Paula/SVM A situação muitas vezes é chamada por pesquisadores “uberização”, termo cunhado para falar da peculiar relação de trabalho que existe entre as plataformas digitais e os trabalhadores que dependem delas. Entusiastas sugerem que as condições dos apps garantem maior autonomia ao trabalhador, que define suas horas de trabalho e depende apenas de si para ganhar mais do que ganharia em um emprego formal. Críticos, porém, apontam que a relação das plataformas com os trabalhadores tem uma série de características que caracterizam um vínculo de emprego, como o fato do app controlar quanto o motorista recebe no final e ter um poder de decisão sobre quem entra e quantas horas trabalha, tal como acontece em contratações formais. "Quando eu digo que não há vínculo de emprego, eu tiro toda a proteção da legislação trabalhista e do artigo sétimo da Constituição. E o que é que sobra? Apenas a remuneração", assevera. “E o fato é: quem tem um aluguel para pagar, quem tem colégio de filho, quem tem alimentação, você não escolhe, em termos práticos, essas pessoas hoje trabalham todos os dias. E, às vezes, mais de 10 horas. Então, esse discurso, trabalha quando quer, é meio vago, hoje em dia se constatar a realidade". O pesquisador reconhece que a relação app x motorista tem peculiaridades e, talvez, precise de um olhar distinto da legislação. Apesar disso, ele aponta que não há resolução à vista para a questão: a discussão sobre regulação do setor está parada no Congresso Nacional, no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no Supremo Tribunal Federal (STF). “De fato, é um modelo de negócio diferente, é disruptivo, é algo que não tinha acontecido ainda num passado recente. Daí a necessidade, talvez, de haver uma regulamentação específica própria. Talvez um meio termo entre o que estabelece a CLT e um trabalho autônomo, mas não se pode falar em autonomia nesse caso. Eu tendo a defender que é um vínculo de emprego hoje, mas talvez para uma questão de acomodação de mercado seja mais interessante haver uma regulamentação específica”, analisa. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará:

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/05/02/profissionais-que-deixaram-emprego-para-virar-motoristas-em-apps-se-equilibram-entre-lucro-e-incertezas.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 5

top1
1. saudade da minha vida

gustavo lima

top2
2. uai

zé neto e cristiano

top3
3. rancorosa

henrique e juliano

top4
4. eu e voce

jorge e matheus

top5
5. solteirou

luan santana

Anunciantes