Presidente da Ucrânia visita países do Golfo e fecha acordos de cooperação de defesa militar
29/03/2026
(Foto: Reprodução) Presidente da Ucrânia visita países do Golfo e fecha acordos de cooperação de defesa militar
Reprodução/Jornal Nacional
A guerra no Oriente Médio levou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a visitar a região do Golfo. Em dois dias, ele fechou acordos de cooperação em defesa militar com Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita, além de se encontrar com militares ucranianos que estão levando tecnologia de drones aos países da região.
Os acordos evidenciam como os dois conflitos — na Ucrânia e no Oriente Médio — estão interligados. Após quatro anos de bombardeios russos, a Ucrânia desenvolveu tecnologias para neutralizar ataques com drones, que agora despertam interesse no Golfo.
Em cenários recentes, ataques com enxames de drones, como os utilizados pelo Irã, têm sido respondidos com sistemas avançados de defesa aérea. Países aliados recorrem a mísseis de alto custo, como os sistemas Patriot e THAAD, que podem custar milhões de dólares por unidade. Já os drones usados nesses ataques têm custo estimado em cerca de US$ 50 mil.
A disparidade de custos levanta preocupações sobre sustentabilidade. Os Estados Unidos produzem cerca de 65 mísseis Patriot por mês, mas, apenas nos primeiros dias de confronto, mais de 800 teriam sido utilizados. Ao mesmo tempo, a produção de drones de baixo custo segue em ritmo elevado.
Segundo Orysia Lutsevych, especialista em segurança internacional da Chatham House, os dois conflitos estão conectados de duas formas: pelo impacto no preço do petróleo, que pode beneficiar a Rússia, e pela corrida tecnológica militar.
Na prática, a prioridade dos Estados Unidos e de seus aliados tem sido o Oriente Médio, o que afeta diretamente a Ucrânia. Cada míssil utilizado na região deixa de estar disponível para a defesa ucraniana contra ataques russos. O próprio Zelensky já alertou que os estoques estão no limite.
A resposta, no entanto, pode vir da própria Ucrânia. O país desenvolveu drones interceptadores — chamados de “drones-caçadores” — projetados para destruir drones inimigos no ar. Equipados com explosivos, eles podem atingir velocidades de até 300 km/h e operar em um raio de aproximadamente 40 quilômetros.
Esses equipamentos custam cerca de US$ 2 mil cada, tornando-se uma alternativa muito mais barata em comparação com os mísseis tradicionais. Engenheiros envolvidos no projeto destacam a eficiência da tecnologia, desenvolvida inicialmente para neutralizar drones iranianos utilizados pela Rússia no campo de batalha ucraniano.
A experiência acumulada transformou o front ucraniano em um laboratório de inovação militar, agora exportada para o Golfo. Segundo Zelensky, a Ucrânia já produz cerca de 2 mil desses drones por dia e enviou mais de 200 especialistas para treinar forças armadas da região.
Como resumiu a analista Orysia Lutsevych: “A Ucrânia, com toda a sua capacidade de engenharia, indústria e inovação, pode ser um ativo, e já é. O maior trunfo da Ucrânia hoje são esses engenheiros que sabem operar drones e sistemas antidrones na guerra moderna”.
O cenário cria um paradoxo. Se, por um lado, a guerra no Oriente Médio reduz a atenção e os recursos destinados à Ucrânia, por outro abre espaço para que Kiev se torne fornecedora estratégica de tecnologia militar.
Nesse contexto, o conflito no Golfo pode representar para Zelensky uma fonte adicional de recursos e influência — e um caminho para recolocar a guerra contra a Rússia no centro das atenções internacionais.