Porcos clonados para transplantes: entenda como será criação de plantel para uso de órgãos em humanos

  • 06/06/2026
(Foto: Reprodução)
Porcos clonados: saiba como será criação de plantel para uso de órgãos em humanos O projeto que estuda o transplante de órgãos de suínos em humanos avança para uma nova fase: realizar modificações genéticas nos animais e iniciar a reprodução natural. O objetivo é formar um plantel capaz de fornecer órgãos para o SUS, que atualmente tem 48,9 mil pessoas na lista de espera por um transplante. Segundo Ernesto Goulart, geneticista da Universidade de São Paulo (USP) que coordena o estudo, com a continuidade dos investimentos públicos e o sucesso das etapas, os pesquisadores estimam que os primeiros testes clínicos possam ocorrer por volta de 2030, dependendo dos resultados das próximas etapas e das aprovações regulatórias. 🔎 A técnica de xenotransplante deu um passo importante no Brasil após o nascimento do primeiro porco clonado no país. O animal nasceu no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios em Piracicaba (SP). 📲 Siga o g1 Piracicaba no Instagram Agora, a estratégia é reduzir a dependência das clonagens, um procedimento de alto custo, e utilizá-las apenas quando for necessário introduzir novas edições genéticas. A reprodução natural entre os animais será a base para expandir o grupo de doadores de forma sustentável. "Não necessariamente tenho que reclonar esse animal e cada clone ser o doador de órgãos. Eu posso produzir alguns pares de clones, alguns casais, machos e fêmeas, e através de cruzamento natural, estabelecer esse plantel", disse. A ideia é utilizar o órgão suíno como um "transplante ponte", para manter um paciente vivo até que um órgão humano compatível apareça, especialmente em casos urgentes, como hepatite fulminante — entenda os próximos passos do projeto. ⚠️ Vale destacar que os xenotransplantes realizados até o momento são poucos e os resultados continuam sendo avaliados, com desafios importantes a serem superados, especialmente relacionados às respostas imunológicas e aos riscos infecciosos. Os primeiros casais Para dar início à reprodução natural, os pesquisadores planejam produzir um plantel inicial composto por alguns casais de porcos clonados. A ideia é gerar pares de machos e fêmeas que já possuam a genética editada para, a partir de cruzamentos, estabelecer a linhagem definitiva de doadores. O início dos cruzamentos depende do nascimento e da maturidade sexual desses primeiros casais. O cronograma atual prevê os seguintes passos: Nascimento dos clones modificados: a meta é produzir o primeiro clone com dez alterações genéticas necessárias até o final de 2026. Já há gestações de clones em andamento, incluindo a porca em Piracicaba que espera pelo menos três filhotes. Maturidade: a linhagem de porcos escolhida foi selecionada por atingir o peso ideal para o transplante (compatível com um humano de 80 kg) em sete meses. Início dos cruzamentos: a formação do plantel por meio da reprodução natural deve começar logo após os primeiros casais atingirem a maturidade. Atualização genética: novas clonagens só ocorrerão no futuro caso haja a necessidade de alterar outros genes para melhorar a compatibilidade. Para abrigar esse plantel, foram inaugurados dois laboratórios: um na USP, em São Paulo, com capacidade para dez animais, e outro também na capital, com nível 2 de biossegurança para garantir que os suínos sejam criados livres de patógenos. Por que a reprodução natural? A opção por priorizar a reprodução natural em vez da clonagem tem principalmente um motivo econômico: segundo Ernesto, o procedimento custa milhões de reais. Com isso, a duplicação genética ficará restrita a momentos estratégicos, como quando for necessário inativar ou inserir um novo gene no plantel, acompanhando os avanços da ciência. Clonagem O nascimento do primeiro porco clonado no Brasil em março de 2026 resultou de quase seis anos de pesquisa. Segundo o pesquisador, o sucesso validou o domínio de uma técnica considerada extremamente difícil. O que é a clonagem? É um processo biotecnológico que consiste na produção de um novo indivíduo geneticamente idêntico àquele que forneceu a amostra biológica original. Assim como ocorre em irmãos gêmeos univitelinos, o DNA dos indivíduos será igual. Diferente da reprodução convencional, que une óvulo e espermatozoide, o clone é gerado a partir de uma célula somática (como uma célula da pele), resultando em um ser com a mesma sequência de DNA do doador. O processo de clonagem suína envolve três etapas principais: Remoção do núcleo de uma célula germinativa feminina (óvulo) Transferência do núcleo da célula somática do doador para esse óvulo "vazio" Implante dos embriões resultantes em uma matriz receptora (porca) para que a gestação ocorra Segundo Ernesto, o domínio dessa tecnologia é estratégico para o Brasil, pois garante a soberania nacional e evita a dependência de importações caríssimas dos Estados Unidos ou da China, permitindo o atendimento da população via SUS. Edição genética do porco Primeiro porco clonado no Brasil nasceu em Piracicaba André Luís Rosa/EPTV Para que um órgão de porco seja compatível com o corpo humano, ele precisa passar por uma complexa edição genética. O processo ocorre em células da pele do animal antes mesmo da clonagem. Inativação de 3 genes: são "desligados" três genes suínos responsáveis por produzir moléculas que causam a rejeição hiperaguda, ou seja, o ataque imediato do sistema imunológico humano ao novo órgão. Inserção de 7 genes: são inseridos sete genes humanos para "ensinar" o corpo do receptor a aceitar o órgão, modulando a resposta imune e evitando a formação de coágulos. "Nós inativamos três genes dos suínos e inserimos sete genes humanos, com diferentes funções, com diferentes propósitos, mas com o objetivo geral de aumentar o reconhecimento ou evitar a rejeição desse enxerto", explicou Ernesto. Como estão os animais clonados? O clone de porco, batizado como Boreal no instituto de Piracicaba, nasceu em março de 2026 está saudável e crescendo normalmente. A outra gestação de clones também está em andamento e a expectativa é que novos nascimentos ocorram em junho. De acordo com o pesquisador, esse tipo de gestação costuma ser mais delicada do que a natural, mas até o momento, vem evoluindo bem e sem complicações A escolha do porco: o quanto somos semelhantes? 🐷 Apesar de não ser o animal mais parecido fisicamente com os seres humanos e estar distante na cadeia evolutiva se comparado a primatas, atualmente, o porco é considerado a espécie mais promissora para o xenotransplante. Biólogo geneticista da USP e um dos autores da pesquisa que clonou o porquinho Boreal, Luciano Brito disse que a escolha pela espécie ocorre por semelhanças anatômicas e fisiológicas com os seres humanos, além da facilidade de manejo. "O suíno tem vantagens no peso e nas medidas dos órgãos, uma semelhança bastante grande, anatômica e fisiológica dos órgãos. O suíno é uma espécie que reproduz muito bem e, em razão de ser já domesticado há muito tempo, é fácil de criar. É um animal dócil e fácil de criar em laboratório", explicou o pesquisador. As principais semelhanças apontadas são: os órgãos dos suínos são muito parecidos com os de seres humanos, com semelhanças em termos de pesos e medidas; o funcionamento dos órgãos também é bastante próximo ao dos humanos; os órgãos atingem o tamanho ideal para o transplante em menos tempo. Porcos e seres humanos: histórico de transplantes Médico brasileiro lidera primeiro transplante de rim suíno geneticamente modificado Arte/g1 De acordo com Simone Raimundo, pesquisadora do Instituto de Zootecnia (IZ) da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), que atua no estudo, a ciência já utiliza o porco na saúde humana, no uso de válvulas cardíacas em cirurgias e na extração de insulina do pâncreas suíno para tratar diabéticos, por exemplo. Além disso, a pesquisadora afirmou que a pele do suíno também é usada em alguns casos de queimadura grave. No caso de transplantes de órgãos, o primeiro registro ocorreu em 2021, quando uma equipe de Nova York transplantou um rim suíno em uma pessoa com morte cerebral. Os médicos, com a autorização da família, mantiveram o corpo do paciente funcionando para avaliar como o órgão se comportava. Na ocasião, os pesquisadores constataram que o rim produziu "uma quantidade de urina esperada" para um rim humano transplantado e não houve evidências da rejeição intensa e quase imediata já vista em rins suínos não modificados e transplantados para primatas não humanos. Em janeiro de 2022, a mesma equipe de médicos realizou o primeiro transplante do mundo de um coração de porco geneticamente modificado para um ser humano. O paciente, David Bennett, que já estava debilitado, sobreviveu por dois meses. O suíno também foi o escolhido para um xenotransplante de coração em 2023, quando um veterano da marinha dos Estados Unidos (EUA) que sofria de insuficiência cardíaca passou pela cirurgia na Universidade de Medicina de Maryland. Já em 2024, com a participação de um médico brasileiro, um paciente recebeu o rim de um porco geneticamente modificado em uma cirurgia realizada em Boston. A cirurgia foi considerada um marco para a medicina. Esperança na fila de transplantes Esses resultados são fruto de pesquisas iniciadas na década de 1960 e comandadas pelo médico e professor Silvano Raia, que afirmou que existem muito mais receptores do que doadores no país. "Muitos pacientes morrem enquanto não tem um órgão disponível para eles”, lamenta Simone. Depois dos estudos clínicos em seres humanos, as conclusões da pesquisa serão avaliadas por órgãos reguladores, e só após essa etapa o xenotransplante poderá ser implementado em hospitais particulares e na rede pública do Brasil. De acordo com a zootecnista Simone, o intervalo entre a clonagem do primeiro porco e o aceite governamental pode ultrapassar sete anos. Mesmo sendo um cenário distante, a professora tem a esperança que, futuramente, o xenotransplante impeça que as pessoas tenham quadros de saúde agravados pela falta de um órgão humano compatível. "Eu espero num futuro próximo à gente ter órgãos para quando a pessoa começar um processo de decadência ou falência de um órgão, antes que ela chegue ao limite, para ela ter a possibilidade de usar o órgão de um suíno e depois decidir o que vai fazer. Que a gente não espera essa pessoa adoecer", contou Simone. Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Piracicaba.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2026/06/06/porcos-clonados-para-transplantes-entenda-como-sera-criacao-de-plantel-para-uso-de-orgaos-em-humanos.ghtml


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