Por que uma guerra limitada com EUA pode ser melhor para Irã do que a paz
01/08/2026
(Foto: Reprodução) Mísseis
Anadolu via Getty Images
À primeira vista, o ataque-surpresa iraniano lançando mísseis contra uma base americana na Jordânia parece difícil de explicar.
O evento pôs fim à frágil interrupção do combate direto entre os Estados Unidos e o Irã, levando Washington a também retomar seus ataques.
Foi um episódio incomum. Se a prioridade de Teerã fosse o cessar-fogo, seria difícil explicar este ataque. Mas, se os líderes iranianos considerarem que um confronto controlado poderá oferecer maiores vantagens estratégicas, a decisão passa a ser mais compreensível.
Uma possível explicação é que Teerã acredita que, apesar dos riscos, a guerra limitada serve melhor aos seus interesses.
Atualmente, nenhum dos lados parece pronto para uma guerra total.
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Washington demonstrou pouca disposição para enfrentar um conflito regional muito maior, que pudesse ameaçar a infraestrutura energética da região, atrair novos países, aumentar os preços do petróleo e exercer ainda mais pressão sobre os recursos militares americanos.
Teerã também pode tentar evitar a guerra total porque suas defesas aéreas enfraquecidas, sua infraestrutura industrial vulnerável e sua economia restrita pelas sanções tornam a reconstrução cada vez mais cara e difícil.
O Irã pode ter concluído que este panorama abre espaço para uma estratégia baseada não na vitória militar, mas na manutenção das pressões.
Um cessar-fogo prolongado nas condições atuais, na verdade, poderia deixar Teerã em uma posição enfraquecida.
O bloqueio naval dos portos iranianos pelos Estados Unidos continuaria, as sanções permaneceriam e o Irã ainda seria excluído, em grande parte, dos mercados internacionais de energia.
Além disso, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Catar e outros países exportadores de petróleo e gás da região poderiam retomar gradualmente suas exportações normais, enquanto o Irã seguiria economicamente isolado.
Mas um conflito limitado poderia alterar este cenário para Teerã.
Mesmo pagando um alto preço militar e econômico, a interrupção do Estreito de Ormuz e a pressão gerada pelos houthis em Bab al-Mandab, no Mar Vermelho, continuam a prejudicar a navegação global e os mercados de energia, além de aumentar os custos de seguro.
A incerteza, mesmo que limitada, obriga governos, donos de navios e importadores a dar atenção às exigências iranianas.
Talvez Teerã ainda acredite na sua influência. E também parece tentar reformular as discussões diplomáticas.
Em vez de aceitar a liberdade irrestrita de navegação, o Irã sinalizou repetidamente que o tráfego marítimo deve operar com base em normas aceitas ou administradas pelo país.
Se esta interpretação estiver correta, o objetivo de Teerã pode ser fazer com que a eventual reabertura do Estreito de Ormuz no futuro reflita a influência iraniana, sem retornar à mesma situação existente antes da guerra. E a manutenção de um conflito limitado permitiria ao Irã seguir pressionando para atingir este objetivo.
Do ponto de vista de Teerã, manter a crise em andamento, sem atingir o nível de uma guerra total, pode ser preferível a aceitar um cessar-fogo que mantenha as sanções, o bloqueio e o isolamento econômico sem grandes alterações.
Pode também haver cálculos domésticos. Afinal, o Irã continua enfrentando taxas de inflação muito altas, desemprego, dificuldades econômicas e insatisfação popular.
Em períodos de conflitos externos, muitos governos têm mais facilidade para suprimir a oposição interna, justificar medidas de segurança mais rigorosas e reunir apoio em torno da defesa nacional.
Estas medidas não eliminam os problemas econômicos, mas podem reduzir a pressão política a curto prazo.
O conflito com os Estados Unidos não elimina os problemas domésticos enfrentados pelo Irã, mas pode reduzir a pressão política imediata
Getty Images via BBC
Nada disso significa que esta estratégia não traga custos significativos.
O Irã continua sendo alvo de repetidos ataques militares, sem falar nas incertezas econômicas e na falta de garantia de que o equilíbrio atual poderá ser sustentado.
Este é o principal paradoxo enfrentado por Teerã.
Um conflito controlado, atualmente, pode oferecer mais influência do que uma paz imperfeita. Mas os conflitos controlados têm o costume de sair do controle.
O Irã talvez acredite que pode calibrar a escalada cuidadosamente para manter a pressão sobre os Estados Unidos, os mercados de energia global e a diplomacia da região, evitando entrar em uma guerra total. Mas este cálculo também traz riscos consideráveis.
Além da possibilidade de uma guerra muito mais ampla, um conflito prolongado sem um final claro em vista pode fortalecer gradualmente o apoio internacional a uma resposta mais dura.
Já existem sinais de que o conflito está se ampliando. A Arábia Saudita, que tentou inicialmente evitar seu envolvimento direto, já atacou grupos xiitas aliados ao Irã no Iraque e realizou ações militares contra os houthis.
Se os prejuízos ao comércio global e aos mercados de energia se mantiverem, outros países que, até agora, tentaram permanecer à margem do conflito podem se tornar mais dispostos a apoiar o aumento da pressão sobre o Irã.
Alguns governos também poderão concluir que é preferível arcar com os custos de uma resposta mais dura a viver com crises repetidas que afetam a navegação internacional e o fornecimento de energia.
Não se sabe ao certo se estas possibilidades se mostrarão corretas, incluindo o envolvimento ativo de novos países no conflito. Muito poderá depender da capacidade de Teerã de manter ações calibradas, sem despertar reações que alterem fundamentalmente os cálculos políticos e militares dos Estados Unidos.
O próximo ataque inesperado poderá determinar o rumo que o conflito irá tomar.