PF diz que Ciro Nogueira recebia R$ 500 mil por mês de Vorcaro, além de viagens internacionais e despesas em hotel de luxo
08/05/2026
(Foto: Reprodução) PF diz que Ciro Nogueira recebia R$ 500 mil por mês de Vorcaro, além de viagens e despesas
Na investigação, a Polícia Federal afirma que havia uma troca de interesses financeiros indevidos entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro. O banqueiro teria pagado ao senador propina de R$ 500 mil por mês, além de outras vantagens econômicas - viagens internacionais, despesas em restaurante e em um hotel de luxo em Nova York. A PF diz que, em troca, o parlamentar atuava no Senado em favor dos interesses privados de Vorcaro.
A decisão do ministro André Mendonça, que autorizou a operação, reúne indícios e provas colhidas pela Polícia Federal de uma suposta conduta do senador Ciro Nogueira, do Progressistas, em favor do banqueiro Daniel Vorcaro, em troca do recebimento de vantagens econômicas indevidas.
A operação é resultado da análise do primeiro celular de Daniel Vorcaro apreendido em novembro de 2025 e também de documentos apreendidos nas fases anteriores. A Procuradoria-Geral da República afirmou que a operação desta quinta-feira (7) era necessária porque Ciro Nogueira poderia usar sua rede de influência para destruir provas e intimidar testemunhas.
Segundo a investigação, o parlamentar teria atuado em benefício de interesses privados do principal investigado na Operação Compliance Zero. O ministro André Mendonça afirmou que Ciro Nogueira é indicado como "destinatário central das vantagens indevidas e como agente público que, em tese, instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar em favor dos interesses privados de Daniel Bueno Vorcaro".
Entre as evidências, está uma emenda - apresentada por Ciro em 13 de agosto de 2024 - a uma proposta que tramitava no Congresso. A emenda proposta pelo senador ampliava a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para R$ 1 milhão por depositante. A mudança beneficiaria diretamente o Master porque Vorcaro poderia ampliar as operações de bancos com garantias do FGC.
A emenda foi rejeitada pelo relator na Comissão de Constituição e Justiça. E a Polícia Federal afirma que “o texto da emenda foi elaborado pela assessoria do Banco Master, encaminhado a Daniel Vorcaro, impresso e entregue em envelope endereçado a ‘Ciro’, no endereço residencial do senador”. Ainda segundo a PF, o conteúdo da versão entregue é “reproduzido de forma integral pelo parlamentar” na emenda apresentada ao Senado; e que Vorcaro afirmou logo após a publicação da proposta de emenda:
“Saiu exatamente como mandei”.
Vorcaro comemorou a apresentação da emenda em uma conversa com sua então namorada. A troca de mensagens foi enviada à CPI Mista do INSS. Em agosto de 2024, o banqueiro escreveu:
“Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica para o mercado financeiro. Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco. Se fosse filme não teria tantos desdobramentos loucos”.
Meses antes, também em uma troca de mensagens, ele havia chamado o senador de “um dos meus grandes amigos de vida”.
PF diz que Ciro Nogueira recebia R$ 500 mil por mês de Vorcaro, além de viagens internacionais e despesas em hotel de luxo
Jornal Nacional/ Reprodução
A emenda do Banco Master - enviada por Vorcaro a Ciro - não teria sido um episódio isolado. Segundo a investigação, em novembro de 2023, Daniel Vorcaro ordenou a retirada, da residência do senador, de envelopes que conteriam minutas de projetos de lei de interesse do particular, posteriormente levados a um escritório indicado por ele para revisão e, em seguida, entregues, já processados, a servidor vinculado ao parlamentar. De acordo com a PF, Daniel Vorcaro teve o cuidado de orientar a pessoa que iria entregar os documentos “para que o envelope utilizado não fizesse referência ao Banco Master”.
A PF enumerou uma série de vantagens a Ciro. Entre elas, o pagamento de mesadas ao senador - que variavam de R$ 300 mil a R$ 500 mil e eram repassadas por meio de empresas administradas por parentes de Ciro e de Vorcaro. Uma delas, a BRGD, a empresa com sede em Minas Gerais, tinha como diretor um tio de Daniel Vorcaro e, segundo a investigação, foi criada para ser usada nos pagamentos.
Em uma troca de mensagens, Daniel Vorcaro fala com o primo, Felipe Vorcaro, sobre a manutenção de pagamentos mensais ao “pessoal que investiu” na BRGD. Em janeiro de 2025, Felipe Vorcaro perguntou:
“Oi, pode continuar enviando o recurso para o parceiro BRGD? Estou tendo que aportar muito lá todo mês por causa do BTG”.
Daniel respondeu:
“Tem que enviar. Muito importante. Se precisar coloco algo”.
O BTG não é investigado, citado como parte ou alvo em nenhum trecho do documento.
No mesmo mês, Felipe questionou sobre aumentar os valores do pagamento:
“Oi Daniel, tudo bem? Pessoal me passou aqui sobre o aumento dos pagamentos do parceiro BRGD, mas o fluxo está indo praticamente todo para o BTG e ainda estou precisando aportar valores altos todo mês. Amanhã estarei o dia todo em São Paulo, tem algum horário que poderíamos falar?”.
Daniel afirmou:
“Estou na Venezuela. Resolve isso para mim. Eu ponho dinheiro depois para repor”.
Em 30 de junho, Daniel Vorcaro se queixou porque não foram realizados pagamentos para “Ciro”:
“Cara, eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”.
Felipe respondeu:
“Vou ver se dou um jeito aqui. Vai continuar os R$ 500 mil ou pode ser os R$ 300 mil?”.
No despacho da Polícia Federal não há resposta para essa pergunta.
A PF afirmou ainda que Vorcaro pagou viagens, jantares e diárias em hotéis de luxo para o senador. A decisão de Mendonça cita uma viagem para os Estados Unidos:
“Hospedagens no Park Hyatt New York, despesas em restaurantes de elevado padrão e outros gastos atribuídos ao parlamentar e à sua acompanhante. Há, ainda, referência à disponibilização de cartão destinado à cobertura de despesas pessoais”.
A decisão cita um trecho de conversa entre Vorcaro e um operador do banqueiro:
“Só uma pergunta rápida. É para os meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até sábado?”.
Vorcaro respondeu:
“Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths” - Saint Barths é uma ilha no Caribe.
A Polícia Federal aponta, ainda, que uma das formas de pagamento de vantagens ao senador foi a transferência de participação societária em empresas ligadas a Daniel Vorcaro com valor muito abaixo do mercado. Segundo a investigação, as ações de uma empresa valiam R$ 13 milhões, mas foram adquiridas pela empresa administrada pelo irmão de Ciro Nogueira por R$ 1 milhão.
O advogado que defende o senador disse que ele não recebia pagamentos e classificou as buscas como uma medida invasiva.
“O que foi apreendido não tenho nenhuma preocupação. Então, agora, é tentar ter acesso a tudo e fica esse registro de uma certa perplexidade de já ter uma medida invasiva com medida cautelar com base tão somente, até onde pudemos ver, evidentemente, naquilo que constava no celular de terceiros. Ele certamente não recebia nenhuma mesada e nesse valor”, diz Antônio Carlos de Almeida Castro, advogado de Ciro Nogueira.
Na decisão desta quinta-feira (7), o ministro André Mendonça proibiu Ciro Nogueira de falar com os outros investigados na Operação Compliance.
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