Os multiversos são reais? Um astrofísico explica por que isso depende de como se define 'real'

  • 01/04/2026
(Foto: Reprodução)
A física possui múltiplas teorias e interpretações sobre a existência de um multiverso. Freepik A ideia de um multiverso – um conjunto hipotético de todos os universos possíveis – é algo que os fãs de ficção científica adoram explorar. Mas será que o multiverso realmente existe? Para responder à questão de se o multiverso é real, no entanto, precisamos primeiro chegar a um consenso sobre o que significa algo ser real. Como astrofísico que estuda Cosmologia – a história e a estrutura do Universo em grande escala – e a filosofia da física, já refleti sobre essa questão várias vezes ao longo da minha carreira. A definição mais imediata de “real” talvez seja que você pode ver e tocar. Meu almoço é real nesse sentido, porque posso saboreá-lo e você pode me ouvir mastigando (espero que não muito alto). Portanto, “real” poderia ser definido como algo que você pode perceber com pelo menos um dos seus cinco sentidos. VEJA TAMBÉM: Veja os vídeos que estão em alta no g1 Mas isso deixaria de fora muitas coisas que também são reais. As micro-ondas que aquecem sua comida são reais, mas você não pode percebê-las diretamente – apenas seu efeito, a comida aquecida. Portanto, algumas coisas reais você só pode “ver” indiretamente, pelas evidências que elas deixam para trás. A existência dos dinossauros é outro exemplo – você só pode ver seus fósseis. Portanto, podemos fazer duas versões da pergunta sobre se o multiverso é real. Primeira: você consegue vê-lo, ouvi-lo, tocá-lo, cheirá-lo ou prová-lo? Segunda: mesmo que não consiga, há alguma evidência de seus efeitos? Mecânica quântica do multiverso A resposta que a maioria dos pesquisadores daria à pergunta se você pode perceber o multiverso com seus cinco sentidos provavelmente é “não”. Mas há muitas coisas reais que não são reais nesse sentido, como as micro-ondas. Então, podemos ver alguma evidência indireta do multiverso, como os efeitos que ele poderia ter no mundo observável? A resposta curta é sim, mais ou menos. O multiverso é uma maneira de compreender o comportamento de coisas muito, muito pequenas, como átomos e partículas subatômicas. Os cientistas chamam as regras que regem o comportamento desses objetos minúsculos de mecânica quântica. Na mecânica quântica, nunca se sabe ao certo qual será o resultado de um experimento. Só é possível registrar a chance — ou seja, a probabilidade — de algo acontecer. É como jogar dados: você não pode ter certeza de qual número vai sair, mas pode dizer que tem chances iguais de obter um, dois, três, quatro, cinco ou seis na face dos dados. Mas se você tivesse informações suficientes sobre os dados – como sua forma e massa exatas, os padrões de ar ao redor deles e a maneira exata como os jogou –, poderia prever exatamente em qual face eles iriam cair. Pode ser necessária uma grande simulação computacional para processar estes números, mas é possível. Agora imagine dados realmente muito pequenos. Mesmo que você tivesse um computador muito poderoso, não seria capaz de prever em qual lado esses dados superpequenos iriam cair. Isso porque eles são regidos pela mecânica quântica, onde não é possível prever resultados com certeza absoluta. Você pode prever apenas a probabilidade. 4 formas de entender o conceito de multiverso, segundo a ciência Muitos mundos e o multiverso A mecânica quântica é apenas um pouco aleatória – nem tudo tem a mesma chance de acontecer. Podemos prever a chance de cada cenário ocorrer, mas não o resultado real. No caso dos dados quânticos, tudo o que poderíamos saber é que há uma chance de 1 em 6 de ele cair em qualquer face. Uma maneira pela qual os cientistas interpretaram essa estranha propriedade da mecânica quântica é que cada cenário possível realmente acontece. Mas, quando isso ocorre, cria-se outro Universo. Isso é chamado de visão dos muitos mundos da mecânica quântica. No caso do nosso dado quântico, a visão dos muitos mundos diria que há uma chance em seis de rolar cada número, pois seis universos são criados toda vez que jogamos o dado. Embora permaneçamos em um deles – digamos, o mundo em que o dado mostra o três –, outros cinco universos também são criados, nos quais o dado mostra um dos outros números. Nessa imagem da mecânica quântica, os universos se ramificam a cada cenário. É claro que não podemos realmente fabricar um dado quântico e jogá-lo – a simples interação com o dado destruiria sua natureza quântica. Isso significa que a mecânica quântica é uma evidência de que o multiverso é real? Eu diria que não. Embora seja uma maneira fascinante de imaginar a mecânica quântica, trata-se apenas de uma interpretação, não de uma evidência incontestável do multiverso. O multiverso e a Teoria das Cordas Outro aspecto relevante do multiverso é seu papel na Teoria das Cordas. A Teoria das Cordas defende que as partículas fundamentais que compõem a matéria são, elas próprias, feitas de cordas de energia vibrantes. Pense em um elástico vibrando dentro de cada partícula. A Teoria das Cordas também defende que o Universo tem mais de três dimensões. Diferentes teorias das cordas preveem números diferentes de dimensões extras. Isso significa que constantes físicas, como a velocidade da luz e a carga dos elétrons, poderiam ter valores diferentes. O mesmo vale para a quantidade de matéria no Universo. Isso sugere um panorama de possíveis universos diferentes, cada um com condições distintas – um multiverso. Até o momento, não há evidências definitivas de um multiverso com base na Teoria das Cordas. Esses universos provavelmente não se conectariam entre si; caso contrário, não seriam considerados universos separados – seriam apenas parte do nosso próprio Universo. Portanto, mesmo que existam, talvez nunca tenhamos evidências diretas de sua existência. Mas poderia haver evidências indiretas da existência de múltiplos universos. Por exemplo, a Teoria das Cordas pode ajudar os cientistas a prever os resultados de experimentos de altíssima energia em nosso próprio Universo. Ela também pode fazer previsões sobre como a matéria se comporta em escalas muito, muito pequenas. Se essas previsões se confirmarem, isso poderia ser uma evidência a favor da Teoria das Cordas. E se a Teoria das Cordas for possivelmente real em nosso Universo, isso significa indiretamente que o multiverso também pode ser real. Embora não haja nenhuma evidência definitiva em nosso próprio Universo para a Teoria das Cordas, quem sabe o que o futuro nos reserva? *Zachary Slepian é professor associado de Astronomia da Universidade da Flórida. **Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.

FONTE: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/04/01/os-multiversos-sao-reais-um-astrofisico-explica-por-que-isso-depende-de-como-se-define-real.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 5

top1
1. saudade da minha vida

gustavo lima

top2
2. uai

zé neto e cristiano

top3
3. rancorosa

henrique e juliano

top4
4. eu e voce

jorge e matheus

top5
5. solteirou

luan santana

Anunciantes