Os carnavais centenários que sobreviveram à escravidão, ditaduras e pandemias

  • 14/02/2026
(Foto: Reprodução)
O Brasil ainda era um império quando o bloco Zé Pereira dos Lacaios foi fundado em 1867 na cidade de Ouro Preto (MG). Ele é considerado o mais antigo em atividade no país. No Rio de Janeiro, o Cordão da Bola Preta testemunhou o fim da Primeira Guerra Mundial e o início da gripe espanhola, em 1918. É o bloco mais antigo do Rio de Janeiro. Subindo até o agreste pernambucano, o Carnaval do Papangu, em Bezerros, reinventou a brincadeira com máscaras ao longo de 140 anos e se destaca como o maior do interior do estado. Cortejo do bloco Zé Pereira dos Lacaios em Ouro Preto José Eduardo Carvalho Monte/Divulgação As três manifestações culturais e carnavalescas sobreviveram aos períodos mais marcantes da história do Brasil nos últimos 100 anos, do fim da escravidão, passando pelas ditaduras da Era Vargas e Militar, até a pandemia de Covid-19. Neste ano, continuam desfilando alegria e tradição pelas ruas onde passam. O Zé Pereira dos Lacaios sai no sábado pelas ladeiras históricas de Ouro Preto, com seus bonecos gigantes, fraques, cartolas, lanterna, ao som marcante dos clarins e bumbos. No centro do Rio de Janeiro, o Cordão da Bola Preta manteve a tradição de abrir o sábado de carnaval pela manhã, levando milhares de foliões às ruas e emocionando a rainha do bloco, Paolla Oliveira. Paolla Oliveira se diverte no Bloco do Cordão da Bola Preta Fabrício Pioyani E JC / Agnews Já em Bezerros, os papangus mascarados ocupam o centro da cidade no domingo e na segunda de carnaval. Carnaval do Papangu, em Bezerros, atraiu vários turistas em 2024 GECOM/PMB Anonimato, improviso e fantasia no agreste pernambucano Os papangus de Bezerros são reconhecidos como patrimônio cultural imaterial de Pernambuco. A tradição se baseia no anonimato, no improviso e na fantasia. O principal elemento são as máscaras coloridas, que cumprem o papel estético e simbólico: ao esconder o rosto, o folião suspende temporariamente sua identidade social, podendo brincar livremente, sem distinção de classe, profissão ou idade. Papangu é uma das figuras mais tradicionais do Carnaval em Bezerros Douglas Souza É assim que os mascarados, vestidos com roupas largas, circulam pelas ruas interagindo com moradores e turistas. O relato mais difundido é que o grupo surgiu no início do século XX, com amigos que saíam às ruas para brincar o carnaval sem serem reconhecidos. O nome “papangu” estaria associado ao costume antigo de pedir angu para comer, nas casas onde passavam. Papangu de Bezerros com fantasia dourada Douglas Souza Os primeiros foliões confeccionavam as máscaras com coité, um fruto que, depois de seco e tratado, servia como molde para os rostos fantasiados. Mais tarde, as máscaras passaram a ser feitas de papelão e papel machê, até ganhar novas técnicas e acabamentos mais coloridos. Ao longo do tempo, o carnaval de Bezerros ganhou maior visibilidade turística, estrutura de palco e programação oficial, mas o núcleo simbólico da festa permanece na figura do mascarado anônimo que ocupa o espaço público durante os dias de folia. Mais antigo do Rio de Janeiro O Cordão da Bola Preta surgiu na região central do Rio de Janeiro como uma dissidência de outros grupos carnavalescos e adotou desde cedo um modelo aberto e popular, com repertório de marchinhas. O figurino padronizado, traje branco com bolas pretas, funciona como elemento de identidade coletiva e ajudar a afastar diferenças individuais. Cordão da Bola Preta no Centro do Rio na manhã deste sábado (14) Patrícia Teixeira / g1 Ao longo do século XX, o bloco enfrentou períodos de repressão e controle das manifestações populares, especialmente durante o Estado Novo e a ditadura militar. Ainda assim, manteve seus desfiles, consolidando-se como símbolo do carnaval tradicional de rua. O reconhecimento como patrimônio estadual reforça essa trajetória de resistência cultural. Resposta aos insultos da elite Só no bloco Zé Pereira dos Lacaios o folião vai ter, ao mesmo tempo, fraques, cartolas, bonecos gigantes, lanternas coloridas e o som marcial dos clarins. Segundo a documentação histórica, o grupo surgiu como uma resposta satírica a outro grupo carnavalesco que existia em Ouro Preto à época, chamado "Machadinhos", composto pela elite da cidade. Catitão é figura marcante no bloco Zé Pereira dos Lacaios José Eduardo Carvalho Monte/Divulgação Os membros desse chamavam os funcionários do Palácio dos Governadores de "lacaios", termo associado à submissão e servidão. Os servidores, então, assumiram o nome para si e fundaram o Club dos Lacaios Bonecos como o Catitão, a Baiana e o Benedito representam personagens que atravessaram gerações. As lanternas, originalmente usadas para iluminar o cortejo em tempos sem luz elétrica, tornaram-se símbolo do bloco. Dessa forma, o grupo se mantém ativo por quase 160 anos, preservando tradições e se adaptando a diferentes momentos históricos, marcados por crises econômicas, guerras mundiais e mudanças políticas.

FONTE: https://g1.globo.com/carnaval/2026/noticia/2026/02/14/os-carnavais-centenarios-que-sobreviveram-a-escravidao-a-ditaduras-e-pandemias.ghtml


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