Os americanos derrotados na guerra civil que imigraram para o Brasil para recriar Sul escravagista

  • 08/01/2026
(Foto: Reprodução)
Ilustração antiga da Batalha de Fort Donelson, em 1862, durante a guerra civil na qual o Sul acabou derrotado Getty Images No romance norte-americano A noiva nortista do fazendeiro (The planter's northern bride), o proprietário de terras do título, Russell Moreland, recusa-se a comer quando um de seus homens escravizados é convidado à mesa de uma estalagem da Nova Inglaterra. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Convencido de que seu Sul natal, onde predomina o trabalho cativo, constitui uma civilização superior à do Norte abolicionista, Moreland entrega-se a uma reflexão sobre os dois sistemas. "(...) e então ele (Moreland) voltou seus pensamentos para casa (o Sul), para os filhos escravizados da África e, tomando-as como uma classe, como uma raça distinta de seres, chegou à irresistível conclusão de que eram a mais feliz raça subserviente que se encontrara na face do globo", diz a narradora — os itálicos aqui foram mantidos como no original. Nesse caso, o devaneio de Moreland nada mais faz do que refletir a opinião da autora, proprietária de escravizados como seu personagem. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Caroline Lee Hentz (1800-1856) concebeu seu romance, publicado em 1854, como uma resposta literária ao mundialmente aclamado A cabana do Pai Tomás (1852), de Harriet Beecher Stowe. Embora no século 20 uma nova geração de leitores negros tenha criticado o romance de Stowe por retratar os escravizados de forma passiva e subserviente, a obra foi considerada em sua época uma denúncia eloquente da escravidão e um grande impulso à causa abolicionista. O livro de Hentz não obteve o mesmo sucesso de A cabana do Pai Tomás. Ao morrer, em 1856, a autora de A noiva nortista do fazendeiro não poderia imaginar que seu idolatrado Velho Sul também deixaria de existir em pouco mais de uma década. A emancipação dos escravos, que se seguiu à derrota do Exército Confederado na Guerra de Secessão (1861-1865), foi proclamada ao mundo há pouco mais de 160 anos, em 18 de dezembro de 1865, com a aprovação da 13ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Os Estados confederados ficavam ao Sul do país e apoiavam a manutenção da escravidão. Na Guerra Civil, foram derrotados pelo Norte abolicionista. Entre os senhores brancos que não deram o braço a torcer ao novo estado de coisas e buscaram formas de reviver o paraíso perdido do Sul escravista, estava uma das filhas da escritora. Julia Louisa Lee Hentz Keyes (1829-1877), como muitos outros norte-americanos do Sul, preferiu emigrar depois da derrota confederada a conviver com as consequências do fim da escravidão. O destino escolhido foi um país onde o trabalho escravo sobreviveria até 1888 com amparo na lei: o Brasil. "A âncora foi lançada e nosso paraíso alcançado", escreveu Keyes em seu diário quando o vapor Marmion, procedente de New Orleans e a serviço do Império do Brasil, chegou à Baía de Guanabara às 20h do dia 16 de maio de 1867. "Quando pudemos ver a montanha do Pão de Açúcar, as nuvens se dissiparam e a lua cheia surgiu. O entusiasmo era então desculpável, com corações repletos de gratidão." O maior êxodo da história dos EUA Calcula-se que, depois da guerra, milhares de norte-americanos tenham deixado os Estados da antiga Confederação: Carolina do Sul; Mississipi; Flórida; Alabama; Geórgia; Texas; Louisiana; Virginia; Arkansas; Carolina do Norte; e Tennessee. O êxodo confederado, sem paralelo na história dos Estados Unidos, teve destinos variados, do Canadá ao Sudão, das Bahamas ao Império Otomano. Muitos desses países não receberam mais do que alguns indivíduos com base em qualificações específicas — o ex-general confederado William Wing Loring (1818-1886), por exemplo, tornou-se um dos comandantes do exército egípcio. Não foi o caso da América Latina e do Canadá, para onde se dirigiram cerca de 8 mil a 10 mil sulistas — de longe, o maior contingente a deixar o território norte-americano. Desse total, o Brasil abrigou cerca de 3 mil pessoas, conforme levantamento da pesquisadora Betty Antunes de Oliveira (1919-2011), historiadora da religião e da migração americana no Brasil. O Brasil tornou-se, assim, o principal destino nacional dos antigos confederados fora dos Estados Unidos. Professor da Universidade Federal do Tocantins, Célio Antonio Alcantara da Silva reforça o papel do Brasil como destino desses imigrantes. "De todos os lugares de exílio, o Brasil abrigou a maior comunidade de ex-confederados que permaneceu no novo país, não participou da Reconstrução [período entre 1865 e 1877 no qual o governo dos Estados Unidos buscou reconstruir os Estados do Sul depois da Guerra de Secessão e reintegrá-los política e socialmente à União] e não voltou aos Estados Unidos", observa Silva, doutor em História Econômica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em entrevista à BBC News Brasil. Hoje, a herança cultural dos migrantes do Velho Sul aparece em municípios como Santa Bárbara d'Oeste e Americana (SP), onde ruas homenageiam pioneiros, a bandeira da Confederação era exibida com orgulho até recentemente (a exibição em eventos públicos foi proibida em Santa Bárbara em 2022) e o frango frito é prato típico. Até mesmo uma Festa Confederada em Santa Bárbara D'Oeste despontou durante anos como a maior comemoração de imigrantes norte-americanos no mundo, até deixar de ser realizada em 2019, sob pressão do movimento negro, sendo rebatizada de "Festa dos Americanos". Santa Bárbara D'Oeste realizava Festa Confederada até 2019, descontinuada sob pressão do movimento negro local Divulgação/Prefeitura de Santa Bárbara d'Oeste Muitas dessas homenagens e referências culturais são frequentemente acusadas de racismo, prática negada por descendentes dos imigrantes americanos (leia mais abaixo). Por muito tempo, a maioria dos historiadores dos Estados Unidos e do Brasil apresentaram explicações variadas para a migração, mas enfatizando que a escravidão no Brasil não estava entre suas causas. Entre os norte-americanos, enfatizava-se o caos social e econômico do pós-guerra, e entre os brasileiros, a política migratória do Império voltada à atração de mão-de-obra branca. O fato de o Brasil ser o único país independente das Américas a conferir status legal à escravidão depois de 1865 foi colocando em segundo plano, entre outros argumentos, com base na existência do mesmo sistema em Cuba. Colônia espanhola até 1898, a ilha caribenha não exerceu sedução comparável à brasileira. "O sistema sulista de plantation [agricultura extensiva voltada à exportação] exigia escravos e terra", diz Silva. "Alguns confederados chegaram a se estabelecer em Cuba, mas a disponibilidade de terras devolutas [áreas sem propriedade privada e ao mesmo tempo sem uso pelo Estado] na ilha era pequena depois de três séculos de colonização espanhola." No Brasil, por outro lado, havia uma ampla fronteira agrícola que poderia ser explorada por meio do braço escravizado — reproduzindo o sistema de produção da plantation que esses imigrantes conheciam e planejavam replicar por aqui. Interesse pelo Brasil era anterior à Guerra de Secessão Em 1865, Brasil e Estados Unidos tinham extensão territorial similar: cerca de 8 milhões de quilômetros quadrados. Enquanto a área do Brasil permanecera praticamente a mesma desde a Independência, em 1822, os Estados Unidos tinham dobrado de tamanho nas quatro décadas anteriores à Guerra de Secessão. O ganho norte-americano deu-se basicamente à custa da invasão e anexação de 55% do território do México entre 1845 e 1853, além da compra de outras porções pertencentes a potências europeias. Os EUA se tornaram independentes em 1776. Em termos populacionais, porém, havia em 1865 três norte-americanos para cada brasileiro – atualmente, a razão é de 1,6 norte-americano para cada brasileiro. O Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país) estimado dos Estados Unidos era de US$ 10 bilhões a US$ 12 bilhões, e o do Brasil, US$ 1,5 bilhão a US$ 2 bilhões. As diferenças atenuavam-se quando se comparava o país sul-americano com o sul dos Estados Unidos. O Brasil era muito maior que os 11 Estados que haviam composto a Confederação (8 milhões de quilômetros quadrados ante 2 milhões). As populações, por outro lado, eram equivalentes (11 milhões de sulistas dos EUA, 9 milhões de brasileiros), assim como o PIB per capita (US$ 60-90 no Sul, US$ 35-US$ 45 no Brasil). O perfil daqueles que migraram para o Brasil era muito variado, incluindo de operários especializados a profissionais liberais. Mas, entre os líderes, havia predomínio de pessoas da elite econômica, política e militar do Sul. "Uma parcela substancial de migrantes detinha, de fato, escravizados antes da Guerra Civil, conforme o censo de 1860", afirma Silva. "O que a análise da trajetória pregressa dessas pessoas permite dizer é que muitas delas tinham vínculos com o sistema de plantagem do Velho Sul escravagista no pré-guerra." Ilustração do livro A noiva nortista do fazendeiro, de Caroline Lee Hentz Reprodução Como resultado do impasse Norte-Sul em torno da escravidão, a elite sulista tinha flertado muito tempo antes do início da Guerra Civil americana com projetos de expansão em direção às Américas Central e do Sul e ao Caribe. Na década de 1850, o oceanógrafo e militar Matthew Fontaine Maury, da Virginia, esboçou um plano para transferir a população escravizada do Sul para a Amazônia brasileira a fim de aliviar a pressão sobre os plantadores norte-americanos. "Vejo no território escravo do Amazonas a válvula de escape dos Estados do Sul", escreveu em correspondência privada em 1851. A ideia esbarrou na oposição do Império do Brasil. Porém, nos últimos meses da Guerra de Secessão, o aumento de interesse pelo Brasil renasceu nos Estados Unidos sob a forma de notícias e artigos de jornais, expedições exploratórias e cartas à legação brasileira em Nova York. Depois de viajar ao Brasil, Maury e outros simpatizantes da migração voltaram desiludidos aos Estados Unidos. Acreditavam em uma iminente abolição no país sul-americano, desaprovavam o que parecia a seus olhos a ausência de hierarquia racial e deploravam o atraso econômico do Brasil. Essa decepção ficou evidente em um editorial do jornal Louisville Daily Journal, de Louisville, Kentucky, publicado em 27 de novembro de 1865. "Os sulistas que pretendem imigrar estão conscientes de que o gabinete do Imperador é majoritariamente composto por negros? Eles sabem que, às vezes, não há um único homem de puro sangue branco no gabinete do Imperador? Estão eles cientes de que os juízes que presidem as cortes, diante das quais eles devem se apresentar em processos civis e criminais, são na maioria das vezes, quando não sempre, juízes negros?", indagava o texto. "Caso estes fatos sejam verdadeiros, e nós acreditamos que são, eles são conhecidos por poucos ou por nenhum daqueles que consideram imigrar para o Brasil em consequência de sua ligação com a instituição da escravidão." O Kentucky era um Estado fortemente polarizado entre abolicionistas e escravistas, embora não tenha aderido à Confederação. As afirmações do jornal são falsas: nenhum governo brasileiro, muito menos os gabinetes do Império, jamais teve maioria de negros no primeiro escalão. Da mesma forma, passados quase dois séculos, a participação de pretos e pardos na magistratura brasileira é de apenas 14,3%, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) referentes a 2024. O editorial do jornal reflete, porém, um fato notável: para a maioria da opinião pública norte-americana da época, a miscigenação no Brasil era vista com reprovação, quando não com escândalo. Diferentes colônias no Brasil Alguns grupos, entretanto, continuaram apostando no Brasil mesmo sem discordar do diagnóstico do jornal, como mostra um trecho do diário de Julia Keyes em Linhares (ES), em 1867. "As mulheres não podiam andar, mesmo para visitar um vizinho próximo, sem uma escrava ao seu lado, e era frequentemente difícil dizer quem era a senhora, sendo suas compleições as mesmas", descreveu a memorialista. Para Julia Keyes, as características físicas semelhantes de senhora e escrava eram um traço evidente da miscigenação reinante no país. Algumas colônias, como as de Santa Bárbara d'Oeste (SP) e Santarém (PA), foram fundadas e custeadas pelos próprios imigrantes. Outras, como Linhares (ES) e Príncipe Dom Pedro (PR), estabeleceram-se em terras devolutas cedidas pelo Império mediante contrato, com obrigação por parte dos colonos de ressarcir o Tesouro em prazos de até cinco anos. "O Império somente passou a trabalhar ativamente para atrair migrantes dos Estados Unidos depois que o interesse de muitos particulares já tinha se manifestado", afirma Silva. Segundo o historiador, nota-se um padrão entre os dois gêneros de colônias. Enquanto as organizadas de forma autônoma viveram uma relativa prosperidade por gerações e terminaram por "abrasileirar-se", como em Santa Bárbara d'Oeste, as que dependiam do Império malograram. A diferença, para Silva, esteve na capacidade de cada comunidade de imigrantes se integrar ao sistema de produção e circulação mercantil no Brasil. Essa integração era mais difícil no caso de regiões mais isoladas e desprovidas de infraestrutura e comunicação com os grandes centros, que foram justamente as escolhidas pelo Império para alojar os migrantes. Sonho de recriação do Sul americano não aconteceu Gravura mostra escravizados em plantação de café no Brasil; embora país fosse escravocrata até 1888, condições específicas daqui incomodaram imigrantes americanos Getty Images Nos dois casos, provou-se uma miragem a hipótese de parte dos líderes norte-americanos da migração de que seria viável recriar o Velho Sul em solo brasileiro. "É possível afirmar que muitos confederados foram movidos por uma forma de autoilusão ideológica e cultural, alicerçada em uma leitura distorcida da realidade social brasileira", afirma Victor Nakanishi, professor adjunto do Instituto de Estudos da Religião de Oyasato, Universidade de Tenri, no Japão, à BBC News Brasil. "Ao chegarem ao Brasil, depararam-se com uma sociedade cuja estrutura racial e social diferia significativamente do modelo segregacionista do Sul norte-americano." O pesquisador explica que, embora a escravidão fosse comum ao Brasil e ao Sul dos Estados Unidos antes de 1865, por aqui as relações sociais eram "mais ambíguas" e havia maior miscigenação. Já nos EUA, havia uma "rígida separação racial institucionalizada". "Muitos passaram a perceber que o Brasil não correspondia ao ideal imaginado de continuidade do Velho Sul, mas configurava-se como uma realidade social própria, marcada por lógicas distintas de convivência racial e organização social", afirma Nakanishi. Apesar das dificuldades, algumas colônias, como a de Santa Bárbara d'Oeste, sobreviveram às crises econômicas e políticas da segunda metade do século 19. Nem mesmo a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, provocou um retorno em massa aos Estados Unidos, embora tenha tido impacto sobre os líderes da comunidade — como expressou o ex-senador do Alabama Willliam Huntchison Norris em carta de 25 de maio de 1888. Célio Antonio Alcantara da Silva destaca que Norris, um dos idealizadores da migração confederada para o Brasil, foi um dos "poucos indivíduos a testemunhar a abolição da escravidão em dois países". "Este é o período mais sombrio de minha vida. Tenho quase 88 anos de idade e não sou capaz de realizar nenhum trabalho e pelas leis do Brasil todos os negros (sic) são livres e não tenho nenhum trabalho para fazer ou manter minha fazenda", escreveu o ex-senador ao irmão. A partir da terceira geração, no início do século 20 e sob os efeitos da Lei Áurea (que determinou a abolição), os descendentes de migrantes de Santa Bárbara d'Oeste e região passam pelo que Silva chama de processo de "caipirização": formam casamentos fora da comunidade, buscam ofícios como empregados rurais em regiões próximas ou nas áreas urbanas, fixam-se em outras cidades e tornam-se, enfim, brasileiros. Para muitos descendentes, a relação com o passado escravista do Sul americano e a segregação que se manteve por um século depois do fim da Guerra de Secessão ainda é incômoda. Questionado pela BBC News Brasil sobre como avalia as visões dos migrantes sobre a escravidão, o presidente da Fraternidade Descendência Americana, de Santa Bárbara d'Oeste, afirmou por e-mail que "imputar um crime a uma etnia apenas por conta da sua origem ou cor da pele também é uma forma de racismo" — referindo-se aos norte-americanos brancos que migraram para o Brasil. "Não temos nem nunca tivemos nenhuma ligação com racismo ou escravatura. Se souber de algum ato racista desta entidade por favor nos denuncie para que possamos levar ao conhecimento do Ministério Público pois racismo é crime", afirmou Rogério Seawright.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/08/os-americanos-derrotados-na-guerra-civil-que-imigraram-para-o-brasil-para-recriar-sul-escravagista.ghtml


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