O que pensam eleitores independentes de MG, estado 'termômetro' de eleições no Brasil? Veja na série 'Voto Pendular', do Jornal da Globo

  • 28/08/2026
(Foto: Reprodução)
Depois de passar por São Paulo e Rio de Janeiro, a série especial Voto Pendular do Jornal da Globo sobre o eleitor brasileiro independente chega a Minas Gerais — e a escolha não é por acaso. Desde a redemocratização, nenhum presidentes eleito deixou de vencer no estado, com percentuais próximos aos resultados nacionais. Isso faz de Minas um importante termômetro do país: dentro de seu território, estão reunidas diferenças regionais, sociais e econômicas que ajudam a explicar o comportamento do eleitorado brasileiro. Minas Gerais é o quarto maior estado do país em território e tem o maior número de municípios. Faz divisa com seis estados e com o Distrito Federal, funcionando como uma espécie de entroncamento entre o Sudeste, o Centro-Oeste e o Nordeste. Minas também tem a maior malha rodoviária do país e o segundo maior eleitorado, atrás apenas de São Paulo. Por isso, as campanhas presidenciais mantêm o estado no radar. Infográfico - Voto pendular: série do JG mostra quem são os eleitores independentes em Minas Gerais. Arte/g1 O café que virou ponto de encontro da política Em Belo Horizonte, o papo de Renata Lo Prete e do cientista político Felipe Nunes, da Quaest, começa no Café Nice, no Centro da capital, tradicional ponto de encontro da política mineira e por onde passaram presidentes em campanha desde a redemocratização. Nunes descreve o local como uma espécie de "grupo de WhatsApp" da política mineira antes da era digital. "Onde se fala de política de verdade", explica. Minas Gerais é o quarto maior estado do país em território e o segundo maior colégio eleitoral do Brasil. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo Renato Moura Cadeira, dono do café, conta que a tradição vem de seu pai, que já recebia políticos no balcão. Em uma das fotos do estabelecimento, aparece o ex-presidente Juscelino Kubitschek ao lado do pai dele. Segundo Renato, os políticos de antigamente não frequentavam o café apenas para testar a popularidade. Eles iam ao local para tomar café e conversar. Ele afirma ainda que recebe políticos de diferentes partidos da mesma maneira. "É minha obrigação tratar todos iguais, todo mundo bem. Eu não tenho preferência aqui", diz. Renato Moura Cadeira, proprietário do Café Nice, conversa com Felipe Nunes e Renata Lo Prete. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo Na Feira Hippie, um mosaico de Minas dentro da capital Depois, a equipe segue para a Feira de Artes, Artesanato e Produtores de Variedades, conhecida como Feira Hippie. O espaço reúne mais de 1.500 expositores aos domingos, no Centro de Belo Horizonte. A feira é uma espécie de retrato da diversidade mineira. Ali estão expositores de diferentes regiões do estado. A influenciadora Silvia Indica conta que a história de sua família se mistura à da feira. O pai e o avô dela ajudaram a montar as primeiras barracas, quando a feira ainda funcionava na Praça da Liberdade e os produtos eram colocados sobre panos no chão. A influenciadora Silvia Indica usa as redes sociais para divulgar o trabalho de expositores. A feira é um espaço onde todos os espectros políticos de Minas se encontram. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo Durante a pandemia, Silvia criou um perfil para ajudar os expositores. Hoje, usa a internet para levar os produtos da feira para outras partes do Brasil e também para o exterior. Ao conversar com ela, Nunes enumera as regiões representadas no espaço: Norte de Minas, Sul de Minas, Triângulo Mineiro, Zona da Mata e Região Metropolitana. Renda e região explicam diferenças no voto A diversidade geográfica também aparece nas diferenças econômicas e políticas entre as regiões. Nunes explica que o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha têm forte influência cultural do Nordeste e estão entre as áreas mais pobres do estado. Já o Sul de Minas tem renda mais alta e uma influência maior da industrialização de São Paulo. Segundo ele, essa relação entre renda e voto aparece no comportamento eleitoral: regiões mais pobres tradicionalmente caminham mais à esquerda, enquanto as mais ricas tendem a votar mais à direita. A Zona da Mata aparece como uma região pendular. No segundo turno de 2018, a disputa foi apertada, com pequena margem para o candidato do PT. Em 2022, o partido ampliou a vantagem na região, o que ajudou a consolidar a vitória no estado. Carlos Miranda mudou de Bambuí, na região Centro-Oeste de Minas, que tem tem forte presença do agronegócio e também recebeu influência da industrialização. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo O Centro-Oeste mineiro, onde fica Bambuí, cidade de origem do feirante Carlos Miranda, é descrito por Nunes como uma região de transição econômica e política. O local tem forte presença do agronegócio e também recebeu influência da industrialização. Segundo Nunes, o Centro-Oeste mineiro votou mais à direita nos últimos anos, embora tenha se transformado em uma área de disputa no estado em 2022. Carlos deixou Bambuí em 1972 e passou a vender feijão-tropeiro em Belo Horizonte. Para ele, a preocupação de quem vive no interior não é tão diferente da de quem mora em uma cidade maior. "Eu acho que, para todo lado, a preocupação é quase igual, né? Oportunidade de serviço, de trabalho, né? Se na minha época fosse assim, talvez eu não tivesse saído de lá", afirma. Violência, oportunidade e voto 'sem curva' Seleste é uma bordadeira e decidiu que, mesmo sem ser obrigada a votar, vai às urnas em outubro. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo Na feira, a equipe do Jornal da Globo também encontrou Seleste Lopes, bordadeira que veio da Zona da Mata para Belo Horizonte. Aos 71 anos, ela diz que pretende votar. "Se eu não votar, eu estou me omitindo", afirma. Para ela, a violência é uma das principais diferenças entre a vida no interior e na capital. Seleste conta que trabalhou como agente comunitária de saúde e presenciou situações de violência em Belo Horizonte. Ela relaciona parte desses problemas à falta de oportunidades. "Eu acho que isso tudo é falta de oportunidade. Então as pessoas não têm por onde ir", diz. Na hora de escolher um candidato, ela diz seguir um conselho aprendido com o pai: "Conversa não tem que fazer curva". Seleste explica que acompanha as promessas e os debates e procura verificar se o que os candidatos dizem é coerente com suas ações. "Eu vejo muito a promessa, debate, o que eles falam, se depois não se contradizem. Aí eu decido sempre por essa razão", afirma. Jovens em busca de oportunidades A trabalhadora doméstica e o estudante são dois representantes de uma juventude que migrou para Belo Horizonte em busca de acesso a educação e trabalho. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo Na feira, a equipe também conversa com a trabalhadora doméstica Jucilene Barboza, do Norte de Minas, e o estudante Julian Rian Rezende da Silva, do Sul do estado. Os dois migraram para Belo Horizonte em busca de trabalho e melhores condições de vida. Jucilene conta que começou a trabalhar como doméstica e tentou conciliar o emprego com os estudos, mas precisou interromper a formação por dificuldades financeiras. Julian vem de uma cidade com menos de 5 mil habitantes. Segundo ele, as opções de trabalho eram basicamente uma padaria ou a roça. Por isso, decidiu se mudar para Belo Horizonte. Os dois citam educação, saúde e oportunidades entre as áreas que esperam ver priorizadas pelo poder público. Eleitores mais jovens estão preocupados com oportunidade de trabalho. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo Jucilene diz que já deixou de votar em uma eleição porque não encontrou, entre as propostas dos candidatos, algo que considerasse benéfico. Ela afirma, porém, que pretende voltar a votar. Julian também diz já ter mudado de voto algumas vezes. "Eu acho que o importante mesmo é fazer o bem pro Brasil, não importa quem estiver fazendo", afirma. Jucilene é ainda mais direta sobre a possibilidade de mudar novamente: "Eu já mudei várias vezes e vou mudar de novo". Para Nunes, a palavra "oportunidade" apareceu com força nas conversas com os jovens. Segundo ele, a preocupação está relacionada ao futuro do trabalho, à competição e aos efeitos da tecnologia e da inteligência artificial. Minas Gerais é um mosaico de eleitores, se tornando um pêndulo do eleitorado do Brasil. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo 'Mosaico mineiro' e o pêndulo da Região Metropolitana Depois de conversar com moradores de diferentes partes do estado, Nunes resume a diversidade encontrada pela equipe como um "mosaico mineiro". O Triângulo Mineiro tem forte influência do Centro-Oeste. O Sul de Minas se relaciona mais com o Sul do Brasil, especialmente com São Paulo. A Zona da Mata recebe influência do litoral e do Rio de Janeiro. Já o Norte de Minas e o Jequitinhonha têm uma conexão maior com a cultura nordestina. A Região Metropolitana de Belo Horizonte aparece como ponto de encontro dessas influências. É para lá que muitos mineiros vão estudar e buscar oportunidades. Para Nunes, esse comportamento também ajuda a explicar o voto mineiro. Segundo ele, nos últimos 30 anos os eleitores do estado mudaram de opinião entre um lado e outro, principalmente na Região Metropolitana. "Esse pêndulo que Minas se transformou em Belo Horizonte, o pêndulo é ainda mais sensível", afirma o cientista político. Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte é uma cidade que sofreu com a queda da industrialização do Brasil. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo Contagem: o pêndulo dentro do pêndulo Em um segundo momento, parte da gravação leva Renata e Nunes a Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Terceira maior cidade do estado, o município tem características industriais fortes. Nunes, que nasceu na cidade, explica que Contagem também sente os efeitos do processo de desindustrialização observado no país. Ao mesmo tempo, cresce o setor de serviços, incluindo atividades informais e o trabalho de motoristas de aplicativo. É nesse cenário que aparece o motorista de aplicativo Cristiano Dutra. Ele trabalhou por quase dez anos em duas multinacionais de bebidas, mas foi demitido depois da pandemia, em um período de redução de serviços e investimentos. Setor de serviços cresceu na região e Cristiano, depois de ficar sem trabalho, se tornou motorista de aplicativo. Reprodução/TV Globo/Jornal da Globo Sem outra alternativa imediata de renda, passou a dirigir por aplicativo. "Me restou o aplicativo, porque ele oferecia uma alternativa imediata para renda", conta. Cristiano diz que, circulando pela cidade, percebe a necessidade de novos investimentos para que o país volte a gerar empregos e permita a recolocação de trabalhadores no mercado. O trabalho também colocou Cristiano em contato diário com diferentes perfis de moradores. "A gente costuma dizer que o motorista de aplicativo é terapeuta para o passageiro. Então, ele comenta de tudo. E comenta, obviamente, política também", afirma. Para Nunes, Contagem ajuda a explicar um comportamento eleitoral presente em parte da Região Metropolitana: o eleitor pode votar de maneira diferente nas disputas municipais e presidenciais. Segundo ele, Contagem tem votado mais à esquerda nas eleições municipais e mais à direita nas disputas para presidente. Esse comportamento, afirma, ajuda a mostrar um eleitor menos partidário e mais pragmático, preocupado com questões do cotidiano, como educação, saúde, segurança e investimentos. Cristiano se identifica com esse perfil. "Eu sou um eleitor que consulta as propostas, vê o que os candidatos têm a oferecer, não interessa o partido ou de que lado a pessoa está. Precisa trazer uma proposta que convença de verdade", afirma.

FONTE: https://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2026/08/27/o-que-pensam-eleitores-independentes-de-mg-estado-termometro-de-eleicoes-no-brasil-veja-na-serie-voto-pendular-do-jornal-da-globo.ghtml


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