'Nunca cogitamos não lançar': o relato de um cientista que ajudou a fabricar a bomba atômica que devastou Nagasaki

  • 16/08/2026
(Foto: Reprodução)
Após visitar as cidades japonesas devastadas, o físico nuclear Philip Morrison prestou depoimento em uma audiência especial e descreveu a morte e a destruição causadas pela bomba Getty Images/via BBC "Não foi por falta de preocupação com a humanidade. Foi justamente por preocupação com a humanidade. Talvez esse tenha sido o pecado." Trinta anos depois de participar do bombardeio atômico de Nagasaki, em 9 de agosto de 1945, o físico americano Philip Morrison falou abertamente à BBC sobre as decisões tomadas nos dias e semanas que antecederam a explosão nuclear sem precedentes. Morrison teve um papel fundamental no Projeto Manhattan, o programa ultrassecreto dos Aliados para desenvolver as primeiras armas nucleares, trabalhando no laboratório de Los Alamos. O laboratório era dirigido por seu antigo professor, J. Robert Oppenheimer. Presente no teste Trinity, da primeira bomba atômica, em 16 de julho de 1945, Morrison transportou o núcleo de plutônio no colo, dentro de um carro, até o Novo México. Depois, viajou para a pequena ilha de Tinian, ao sul de Saipan, um território dos Estados Unidos no Oceano Pacífico, para ajudar a montar a bomba de plutônio "Fat Man", usada em Nagasaki. Ele supervisionou o carregamento da bomba em um avião B-29 em 9 de agosto, apenas três dias depois do bombardeio de Hiroshima. Foi em Tinian que as forças americanas construíram o que Morrison descreveu como "o maior aeroporto do mundo". "Uma grande elevação de coral foi parcialmente nivelada para preencher uma planície irregular e construir seis pistas de pouso, cada uma com quase três quilômetros de extensão", afirmou em um depoimento a um comitê do Senado dos Estados Unidos em dezembro de 1945. A bomba atômica "Fat Man", que mais tarde seria lançada em Nagasaki, no Japão, em 1945 Getty Images/via BBC A escala da destruição O momento da explosão visto do céu (à esquerda), e a devastação, vista a partir de um arco da Catedral Católica de Urakami Getty Images/via BBC Morrison também revelou, em seu depoimento, a dimensão dos preparativos para os bombardeios das cidades japonesas. "No porto, todos os dias chegavam navios-tanque carregados com milhares de toneladas de gasolina para os aviões. Pelas grandes pistas, corriam enormes aviões. A cada 15 segundos, um [avião] B-29 decolava. Isso seguiu assim por uma hora e meia. Mil aeronaves B-29, repetidamente, incendiavam muitos quilômetros quadrados de uma cidade em um único ataque." Em contraste, relatou ele, "a bomba atômica era outra coisa". "Não havia navios carregados com bombas incendiárias. Em vez de vários especialistas em armamentos e depósitos de bombas, havia cerca de 25 pessoas de Los Alamos, algumas cabanas Quonset [estruturas pré-fabricadas de aço] transformadas em laboratórios de testes e um prédio cercado por barricadas. O ataque decolou depois da meia-noite. O campo estava deserto... e um avião percorreu a pista rugindo, decolou e tomou o rumo das cidades inimigas", disse. Embora as estimativas variem, acredita-se que 40 mil pessoas tenham morrido na explosão inicial em Nagasaki, enquanto mais de 100 mil mortes foram diretamente atribuídas ao bombardeio nos cinco anos seguintes. Em Hiroshima, pelo menos 80 mil pessoas morreram instantaneamente, e o número acumulado de mortos chegou a aproximadamente 140 mil em decorrência de queimaduras graves, ferimentos e doença aguda causada pela radiação. Mais tarde, Morrison avaliou a devastação catastrófica nas duas cidades japonesas como parte da equipe científica oficial responsável por avaliar os danos, e se lembrou de um momento específico em Hiroshima. "Um funcionário japonês estava de pé nos escombros e nos disse: 'Tudo isso causado por uma única bomba; é insuportável'", contou. "Um avião, com uma única bomba, havia destruído muitos quilômetros quadrados de uma cidade, destruindo-os de forma ainda mais completa e com ainda menos possibilidade de resistência ou fuga do que o ataque de mil aviões." Ainda assim, Morrison esperava que a bomba atômica não precisasse ser usada em combate. Ele liderou um grupo de jovens físicos de Los Alamos que defendia uma demonstração pública da bomba antes de qualquer uso contra o Japão. Morrison, que tinha 30 anos quando supervisionou a montagem da "Fat Man" em Tinian, queria "convidar uma delegação internacional para o deserto", contou à BBC, em 1975, ao jornalista Melvyn Bragg. "Mas, nas circunstâncias de uma guerra, isso era uma ilusão." Um impulso imparável O físico descreveu a sensação de que aquele era um impulso impossível de deter. Mesmo quando ficou claro que os nazistas seriam derrotados, ele diz, "a guerra ainda estava acontecendo. Estávamos avançando rumo a uma batalha gigantesca no Pacífico. Teria sido impossível parar." Na visão de Morrison, o único fator que poderia ter mudado isso era o presidente americano Franklin D. Roosevelt, que morreu em abril de 1945. "A única chance de modificar fortemente a posição americana, eu diria, teria sido a sobrevivência de Roosevelt [...], que morreu em meio ao desenvolvimento da bomba, antes de sabermos se elas funcionariam, e antes de ser decidido como usá-las", afirmou Morrison. "Ele era a única pessoa, penso eu, com prestígio e força suficientes dentro do governo para fazer esse terrível impulso retroceder", disse. Quando Harry S. Truman se tornou presidente, ele sequer tinha conhecimento do projeto, descobrindo sua existência apenas nas horas seguintes à posse. Pouco mais de três meses depois, seria ele quem daria a ordem para os bombardeios. "É verdade que ele tomou uma decisão, mas acho justo dizer que ele também foi tomado por ela", argumentou Morrison. "Teria sido realmente uma atitude muito ousada da parte dele mudar tudo depois de tantos anos e interromper o projeto; essa possibilidade praticamente desapareceu com a morte de Roosevelt." Segundo Morrison, a mesma força implacável esteve presente na decisão de lançar as duas bombas uma após a outra. "Não se considerava uma primeira e uma segunda bomba. As ordens dadas aos comandantes eram: 'Lance a bomba um e, em seguida, lance a bomba dois assim que puder'. Seria preciso um homem de grande autoridade em Washington para analisar os efeitos devastadores da primeira bomba e dizer: 'Bom, vamos esperar um pouco antes de lançar a segunda'. Isso exigiria uma reflexão em alto nível, a capacidade de acionar as complexas conexões e fazer chegar as ordens certas aos generais certos", disse. Foi dessa forma que os dois bombardeios aconteceram, e mais ataques foram planejados, revelou Morrison. "A decisão original era que continuaríamos lançando essas bombas durante um ano, se necessário. Pediram que eu elaborasse um plano para isso", contou a Bragg. "Eu tinha um plano, um esboço, um cronograma, um homem para me substituir e os preparativos necessários para ir e voltar." O fim do mundo Não é certo se ele teria conseguido continuar fazendo isso depois que ele e os outros cientistas de Los Alamos testemunharam as consequências dos primeiros ataques. "Intelectualmente, conhecíamos muito bem os efeitos das bombas, tanto os de curto prazo quanto os temidos efeitos de longo prazo. Mas isso era apenas por meio da literatura e da análise de números", contou a Bragg. "E a diferença entre ver números e ver a realidade viva, a realidade de quem estava morrendo... É uma diferença enorme para qualquer um, para o mundo inteiro. Então acho que nós sabíamos, mas ainda não tínhamos sentido." Ele se lembrou da reação na base instalada em uma ilha do Pacífico na noite do bombardeio de Hiroshima. "Houve uma grande festa naquela noite, mas a maioria dos cientistas não foi. Os integrantes da Força Aérea, os soldados, beberam. Eles sabiam que a guerra estava chegando ao fim. Parecia, ou pelo dava a sensação, de ser uma vitória tremenda." Morrison, porém, recordou que os cientistas "ficaram sentados, abatidos, e com outra coisa em mente: o fim do mundo". Mas, na preparação para os bombardeios, Morrison não se sentiu compelido a abandonar o Projeto Manhattan. "Apesar da oposição determinada e persistente a isso, não vejo como poderia ter feito diferente. Em nenhum momento pensei em parar." Questionado se os Aliados teriam lançado uma bomba atômica sobre Berlim caso ela estivesse pronta antes da derrota dos nazistas, ele respondeu: "Ah, absolutamente, num piscar de olhos. Nós temíamos principalmente os alemães, e eles eram nossos inimigos", disse Morrison. Depois da guerra, Morrison tornou-se professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e passou a fazer campanha contra a proliferação nuclear, ficando na vanguarda do movimento contra a "terceira bomba". "É desnecessário dizer que, como a maioria dos cientistas que participaram do projeto, estou completamente convencido de que não se pode permitir que outra guerra aconteça", afirmou em seu depoimento ao Senado americano em 1945. E ele acreditava que os Aliados deveriam ter feito uma coisa em particular. "Acredito firmemente que deveria ter sido feito um aviso", disse. "Olhando para trás, não há justificativa para não ter dado um aviso apropriado e adequado."

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/08/16/nunca-cogitamos-nao-lancar-o-relato-de-um-cientista-que-ajudou-a-fabricar-a-bomba-atomica-que-devastou-nagasaki.ghtml


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