'Naquele instante acabou tudo', diz avó de Laura Vitória dez anos após desaparecimento; caso foi levado à ONU
26/03/2026
(Foto: Reprodução) Caso de desaparecimento de Laura completa 10 anos sem respostas
O desaparecimento da menina Laura Vitória completou uma década sem respostas, mas agora pode ganhar um desdobramento internacional. O caso, que se tornou um dos mais emblemáticos do estado, foi levado à Organização das Nações Unidas (ONU) por uma entidade de defesa dos direitos humanos, que aponta falhas e omissões ao longo da investigação.
Mesmo após dez anos, a ausência de Laura ainda causa profunda angústia na comunidade do setor Lago Sul, em Palmas, onde ela foi vista pela última vez em janeiro de 2016.
A diarista Maria Lúcia de Oliveira resume o sentimento coletivo: “Uma família perdeu um filho, né? E não ser encontrado é muito angustiante, né? Eu gostaria muito que ela fosse encontrada, que ela tivesse uma vida feliz igual todas as crianças".
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Para a avó de Laura, Aurenita, a vida parou no momento em que a neta saiu para comprar milho e nunca mais retornou. Ela relata o desespero e o esforço inicial para localizar a menina, muitas vezes sem o apoio imediato das autoridades.
“Naquele instante acabou tudo. Eu não tive ação para nada, só que andei bastante, procurei bastante. Acho que antes da polícia chegar aqui eu já tinha andado a Aureny III todinha, rua por rua, procurando. Você passa a noite acordada, andando de um lado para o outro. Às vezes você dorme, às vezes você não dorme. Aí eu tenho que lembrar no almoço, na janta, no café da manhã, na dormida. Saber se ela está dormindo em algum lugar quente, se está trocando de roupa, se está tomando banho, comendo”.
O sentimento para ela é de abandono devido à falta de resposta, por parte das autoridades.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que as investigações de Laura Vitória estão sob a responsabilidade da Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado. A pasta justificou a falta de detalhes públicos afirmando que o caso tramita sob segredo de justiça (veja o posicionamento abaixo).
A SSP negou que desaparecimentos de crianças não sejam tratados como prioridade e afirmou que, nos últimos 30 anos, apenas três casos de desaparecimento infantil seguem em aberto no Tocantins.
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Reprodução/TV Anhanguera
Denúncias de erros processuais e omissão
A falta de respostas levou o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) a denunciar o caso à ONU, apontando possíveis equívocos técnicos e demora do Estado em reagir ao desaparecimento.
Segundo a entidade, protocolos cruciais de segurança foram negligenciados no início das buscas.
"Além dessa omissão estatal com relação ao desaparecimento da Laura, nós temos também vários equívocos. Equívocos no momento, por exemplo, de acionar portos e aeroportos antes de 24 horas e não depois de 24 horas. Além do que, o inquérito policial foi instaurado 30 dias depois do desaparecimento da Laura", comentou a secretária executiva do Cedeca, Mônica Brito.
A expectativa agora é que a pressão internacional force o Brasil a retomar a investigação com prioridade. "Nós esperamos que a ONU, através do seu grupo de trabalho, inste o Brasil para efetuar, para continuar de forma mais célere, de forma mais profunda, a investigação policial", afirma a entidade.
Apesar do tempo decorrido e das falhas apontadas, a fé e a esperança de um reencontro permanecem vivas para dona Aurenita. "Eu sei que o Senhor não vai deixar eu morrer antes de eu ver ela de novo. E eu peço a Deus todo dia. Que o que tanto me mantém viva é minha fé. A minha esperança que me mantém viva é eu ter uma resposta e ela retornar de volta".
Caso de Laura não é isolado
O desaparecimento de Laura Vitória não é um isolado. Em 2021, o sumiço da menina Safira Ferreira Lima, também em Palmas, evidenciou novamente a falta de respostas efetivas. A família de Safira compartilha do mesmo sentimento de abandono e revolta relatado pela família de Laura.
"Eu me sinto fracassada porque a autoridade nunca me deu nenhuma resposta, nunca mandou nem me chamar aqui. Eu ainda tive coragem, que ainda fui lá por conta própria. Mas quando a gente chega lá, faz de conta que não tem nada e não tem resposta nenhuma para dar para a gente. Eu, pelo menos, me sinto humilhada num lugar desse aqui".
Íntegra da nota da SSP
A Secretaria de Segurança Pública do Tocantins (SSP/TO) informa que os inquéritos sobre os desaparecimentos de Laura Vitória Oliveira da Rocha e Saphira Ferreira Lima seguem ativos.
Atualmente, os procedimentos investigativos relacionados ao caso Laura estão sob responsabilidade da Diretoria de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco). Já o caso da menina Saphira Ferreira Lima, se encontra sob responsabilidade da Delegacia Especializada de Polícia Interestadual, Capturas e Desaparecidos (Polinter - Palmas). Destaca-se que os dois casos tramitam sob segredo de Justiça e por este motivo as investigações não podem ser detalhadas publicamente para a imprensa.
A SSP/TO destaca que a insinuação contida na denúncia de que casos de desaparecimentos de crianças não sejam tratados como prioridade pela Polícia Civil ou pelo Estado do Tocantins não encontra qualquer amparo na realidade. A esmagadora maioria das crianças registradas como desaparecidas no Tocantins são localizadas rapidamente, em larga medida por causa da atenção e prioridade dada pelas autoridades a este tipo de ocorrência.
De todos os desaparecimentos de crianças registrados no estado do Tocantins nos últimos 30 anos, apenas três seguem em aberto. Os casos de Laura Vitória e Saphira são os únicos em que há indicativo de participação de terceiros no desaparecimento. O outro caso é o da pequena Ágatha Sophia Almeida Xavier, que desapareceu no rio Tocantins, em Tocantinópolis, no último dia 14 de março.
A Polícia Civil reforça o compromisso de explorar todas as linhas de investigação possíveis para a elucidação dos casos de desaparecidos em aberto.
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