Mulheres sem véu e de minissaia: como era o Irã antes da Revolução Islâmica e por que a ideia de uma 'monarquia liberal' é contestada
03/03/2026
(Foto: Reprodução) Monarquia iraniana também foi violenta
Quase cinquenta anos após a Revolução Islâmica, o príncipe da antiga monarquia afirmou que está disposto a liderar uma transição no Irã, algo visto como improvável por especialistas. O debate reacende comparações entre o regime do xá e a atual república islâmica.
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O governo monarquista passou a ser lembrado por alguns como mais liberal principalmente pela abertura ao Ocidente e pelos costumes mais flexíveis nas grandes cidades, onde mulheres podiam circular sem véu e usar roupas como minissaia (veja no vídeo acima) — um contraste com a rígida polícia de costumes do regime atual, que mata mulheres que não seguem a vestimenta adequada.
Essa imagem, porém, convivia com outra realidade: a de uma monarquia absolutista violenta com maioria da população pobre.
"Esse mesmo governo do xá, que tem essa imagem liberal, essa imagem de ter sido um governo tolerante, é governo que tinha a polícia política, que tinha prisões, que tinha torturas, que tinha centros de tortura em que pessoas desapareciam", contou o historiador Filipe Figueiredo ao Fantástico.
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Reprodução / Fantástico
Os Pahlavi
A dinastia Pahlavi tomou o poder num golpe militar há 100 anos. O primeiro monarca, avô do candidato ao trono, ficou no comando até a Segunda Guerra Mundial.
Numa posição geográfica estratégica — entre a União Soviética e o Império Britânico —, o Irã foi ocupado por ambos, então aliados.
Os britânicos tinham um interesse adicional: o acesso ao petróleo iraniano, ameaçado em 1951.
"Os iranianos elegem um líder social-democrático que vai buscar a nacionalização do petróleo como meio de garantir o desenvolvimento do país, como meio de garantir divisas para o desenvolvimento e industrialização do Irã", diz o historiador.
Dois anos depois, apoiado pelos ingleses, o xá dá um golpe e depõe o primeiro-ministro.
"Como consequência desse golpe, nós vamos ter uma concentração de poderes na mão da monarquia, na mão do xá".
A crise atual do regime fez ressurgir a figura de Reza Pahlavi, filho de Mohamed Reza Pahlevi, o último xá do Irã e último líder antes da Revolução de 1979, que depôs o monarca.
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Mas quem quer a volta da monarquia?
O principal apoio vem de fora, dos iranianos que foram exilados com a família real.
"Essa comunidade da diáspora é uma grande apoiadora da família da dinastia Pahlavi. Já dentro do Irã, a situação é mais multifacetada. O apoio a ele já não é tão grande assim", explica Figueiredo.
O analista Paulo Hilu diz que a monarquia teria apoio de alguns setores, como os comerciantes, e se favorece da falta de memória. A maior parte da população nasceu e cresceu depois da revolução que depôs o xá em 1979.
"Na verdade, o príncipe não é nenhuma alternativa, ele representa justamente esse descrédito geral das figuras políticas dentro do Irã. Tendo dito isso, ele voltar sobre bombas americanas israelenses e tanques americanos israelenses, obviamente, não vai garantir com ele nenhuma legitimidade", comenta o coordenador do núcleo de estudos do Oriente Médio na Universidade Federal Fluminense (UFF).
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