Mulher investigada em operação que prendeu Deolane recebeu Bolsa Família enquanto empresa da família movimentava R$ 20 milhões
23/05/2026
(Foto: Reprodução) Polícia prende Deolane Bezerra em São Paulo
A investigação da Polícia Civil de São Paulo e do Ministério Público, que levou à prisão da influenciadora Deolane Bezerra, apontou que uma mulher investigada por ligação com um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) recebeu Bolsa Família entre 2013 e 2017. No mesmo período, a empresa da família dela movimentou R$ 20,2 milhões, segundo a polícia.
A operação, chamada Vérnix, começou há sete anos após a apreensão de bilhetes do PCC na Penitenciária II de Presidente Venceslau, onde estão presos integrantes da alta cúpula da facção. Também foram alvo da operação Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, além de parentes dele e operadores financeiros do grupo criminoso.
Segundo a investigação, Elidiane Saldanha Lopes Lemos e o marido, Ciro Cesar Lemos, são apontados como responsáveis pela Lado a Lado Transportes, empresa identificada pela polícia como peça central do esquema de lavagem de dinheiro investigado. A transportadora está sediada, justamente, ao lado do presídio de Presidente Venceslau.
Elidiane Saldanha Lopes Lemos é investigada pelo MP por suspeita de envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro.
Montagem/g1/Reprodução
Na denúncia, o Ministério Público afirma que “os denunciados mantinham estreita relação com o Primeiro Comando da Capital, com utilização da referida empresa para o branqueamento de capitais”.
A investigação aponta ainda que a empresa apresentava movimentações incompatíveis com os dados declarados aos órgãos oficiais. Em 2018, por exemplo, a transportadora informou que não realizou qualquer atividade operacional, financeira ou patrimonial. Apesar disso, segundo a análise bancária feita pela polícia, a empresa continuou movimentando recursos milionários.
Os investigadores também identificaram um crescimento patrimonial considerado suspeito. Conforme a denúncia do MP, a empresa foi aberta em 2015 com capital social de R$ 300 mil. Depois, o valor passou para R$ 1,8 milhão e chegou a R$ 3,61 milhões em outubro de 2019.
Ainda de acordo com a polícia, a transportadora possuía, em novembro daquele ano, uma frota de 56 veículos, incluindo caminhões, semirreboques, SUV, veículos utilitários e automóveis de passeio. Desse total, 20 veículos eram novos.
Elidiane e Ciro ostentavam uma vida de luxo nas redes sociais.
Reprodução
Em maio de 2020, Elidiane deixou formalmente a sociedade da empresa, e as cotas passaram integralmente para Ciro, segundo a investigação.
O relatório também destaca que Ciro trabalhava como pedreiro e possui antecedentes criminais por tráfico de drogas, associação criminosa e lesão corporal na direção de veículo automotor. Os registros são de 1996, 1999, 2000, 2001, 2002 e 2017.
A polícia afirma ainda que o casal mantinha um padrão de vida incompatível com os rendimentos declarados no Imposto de Renda e com os vínculos empregatícios registrados no Ministério do Trabalho.
Segundo o relatório, eles realizaram viagens internacionais para os Estados Unidos — incluindo Orlando e Miami — e para a Espanha entre 2018 e 2020.
A investigação menciona ainda que Elidiane divulgava nas redes sociais serviços de micropigmentação no Paraguai. Para os investigadores, o fato chamou atenção por o país possuir fronteira seca com o Brasil, rota historicamente utilizada para entrada de drogas.
A defesa dos investigados não foi localizada até a última atualização desta reportagem.
Elidiane exibe bolsa de R$ 31 mil em seu perfil no Instagram.
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Bilhetinhos do PCC apreendidos deram origem à investigação que prendeu Deolane Bezerra
Operação Vérnix
A Operação Vérnix é uma investigação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil de São Paulo para apurar um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital.
A apuração começou em 2019, após agentes penitenciários encontrarem bilhetes manuscritos escondidos em celas e na rede de esgoto da Penitenciária II de Presidente Venceslau, onde estão presos integrantes da alta cúpula da facção. Os manuscritos continham ordens internas do PCC, contatos de integrantes do grupo e referências a movimentações financeiras.
A partir da análise do material, investigadores identificaram uma transportadora localizada próxima ao presídio que, segundo a polícia, era usada como empresa de fachada para movimentar dinheiro da facção criminosa.
Segundo a investigação, o esquema de lavagem envolve a transportadora de cargas ligada a Elidiane Saldanha Lopes Lemos e Ciro Cesar Lemos. De acordo com a polícia, a empresa repassava recursos para contas de terceiros com o objetivo de dificultar o rastreamento da origem do dinheiro. Duas dessas contas estariam em nome da influenciadora Deolane Bezerra.
O MP e a Polícia Civil afirmam que o esquema utilizava depósitos fracionados em espécie, transferências entre contas de pessoas físicas e jurídicas e circulação de recursos por empresas formalmente registradas para ocultar a origem ilícita do dinheiro.
No total, a Justiça expediu seis mandados de prisão preventiva e ordens de busca e apreensão. Os alvos da operação são Deolane Bezerra; Marco Willians Herbas Camacho, apontado pelas autoridades como líder do PCC; o irmão dele, Alejandro Camacho; os sobrinhos Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho; além de Everton de Souza, apontado como operador financeiro do grupo criminoso.
Marcola e Alejandro Camacho já estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e foram comunicados sobre as novas ordens de prisão preventiva. Até a última atualização da reportagem, os sobrinhos de Marcola eram considerados foragidos.
A Justiça também determinou o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e de R$ 357,5 milhões em bens e valores dos investigados.
O influenciador digital Giliard Vidal dos Santos, considerado filho de criação de Deolane, e um contador ligado aos investigados também foram alvo de mandados de busca e apreensão.
Operação que prendeu Deolane Bezerra partiu de bilhetes achados em cela da Penitenciária de Presidente Venceslau (SP)
Jornal Nacional/ Reprodução