Moradores de 90% das cidades de MT precisam viajar para ter acesso a cinema

  • 19/09/2026
(Foto: Reprodução)
Cinema ainda é distante para moradores de 90% das cidades de MT. Ir ao cinema em Mato Grosso muitas vezes deixa de ser um programa de fim de semana para se tornar uma viagem. Com salas de exibição em apenas 15 dos 142 municípios do estado — o equivalente a cerca de 10,5% das cidades —, moradores de 127 municípios precisam se deslocar para assistir a um filme em cartaz na tela grande. Conforme levantamento feito pelo g1, os espaços comerciais estão concentrados na Baixada Cuiabana e em polos regionais, como Rondonópolis, Sinop, Tangará da Serra, Sorriso e Barra do Garças. Para quem vive fora dessas áreas, assistir a um filme no cinema pode exigir um planejamento. A necessidade de deslocamento para ter acesso ao cinema faz parte da história de Ana de Jesus, de 66 anos. A relação dela na busca pelas grandes telas começou ainda na infância, quando sessões itinerantes chegavam à comunidade rural onde vivia, no Paraná. As exibições eram raras e aconteciam em espaços improvisados, mas ficaram na memória da professora aposentada. “Para nós, aquilo ali era muito, era a diversão do ano, um acontecimento que a gente não estava acostumado a ter”, ressaltou. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp Anos depois, em julho de 1974, Ana deixou o Paraná e se mudou para Pontes e Lacerda (MT). Para ter acesso ao cinema, chegou a viajar cerca de 483 km até Cuiabá, onde assistiu pela primeira vez a uma sessão em uma sala ampla, com tela grande. Ela também foi a outras cidades, como Cáceres, em busca de sessões. Segundo Diego Baraldi, professor do curso de Cinema e Audiovisual da UFMT, a concentração das salas em poucas cidades está relacionada, entre outros fatores, aos custos para manter uma estrutura comercial de exibição. Para ele, o investimento necessário e a dificuldade de manter o negócio com a receita dos ingressos ajudam a explicar por que cinemas são menos comuns em cidades menores. "No Brasil, menos de 10% dos municípios têm salas de cinema comerciais ativas, e Mato Grosso reflete com exatidão esse abismo. O acesso à cultura e à arte é um direito assegurado pela Constituição Federal. Quando mais de 89% dos municípios do nosso estado ficam sem uma única tela, temos um problema sério de política pública e de desigualdade de acesso aos bens culturais", ressaltou. Onde estão as salas e quanto custa a sessão em MT A distribuição das salas de exibição em Mato Grosso também se reflete nos preços dos ingressos. Enquanto a região metropolitana reúne a maior infraestrutura do estado, as opções no interior apresentam valores que variam conforme a cidade, o cinema, o dia da semana e o formato da sessão. 🔎 O mapeamento contabiliza apenas salas do circuito comercial tradicional, excluindo espaços de exibição cultural, cineclubes e projetos de caráter independente. Mapeamento de cidades e redes de cinema em MT Arte: g1 Cuiabá lidera com folga a oferta e abriga quatro complexos: Cinépolis (Shopping Estação Cuiabá), Cineflix (Shopping 3 Américas), Multiplex Cine Araújo (Pantanal Shopping) e Cine Laser (Goiabeiras Shopping). Vizinha à capital, Várzea Grande conta com uma unidade do Cineflix no Várzea Grande Shopping. Juntas, as duas cidades somam mais de 20 salas comerciais. Na capital, os preços variam entre: Cinépolis: de R$ 30 a R$ 60; Cineflix: R$ 32 (sessões 2D) e R$ 38 (3D); Multiplex Cine Araújo: de R$ 44 a R$ 58, a depender do dia e formato; Cine Laser: ingressos promocionais e convencionais entre R$ 28 e R$ 46. No interior, as salas comerciais estão concentradas em polos regionais e outras cidades. Rondonópolis conta com o Cine Vip, enquanto Sinop dispõe de duas operações: o Moviecom e o Cine Center Machado. Há ainda unidades e telas comerciais em Sorriso, Tangará da Serra, Barra do Garças, Cáceres, Lucas do Rio Verde, Pontes e Lacerda, Primavera do Leste, Campo Verde, Alta Floresta, Nova Mutum e Guarantã do Norte. Fora da Baixada Cuiabana, as tarifas também oscilam: Rondonópolis: O cinevip no município varia entre R$ 12 a R$ 22. Sinop: no Moviecom, a entrada inteira varia de R$ 22 a R$ 32; já no Cine Center Machado, os valores para filmes 2D vão de R$ 32 a R$ 44, conforme o tempo de duração da obra; Nova Mutum: no Cine 163, as entradas inteiras (2D) também variam de R$ 32 a R$ 44 pela minutagem do filme; Rede Cine Xin (Cáceres e outras cidades): a inteira sai a R$ 27,36 na sala convencional e chega a R$ 36,48 no espaço VIP. Além da distância até a sala mais próxima, o custo da sessão também pesa no orçamento de quem precisa se deslocar entre cidades. Nesses casos, o gasto com ingresso se soma às despesas de alimentação e combustível. A concentração das salas de cinema em poucas cidades também está ligada ao alto custo para manter uma estrutura comercial de exibição. Segundo Diego, abrir uma sala exige investimento em espaço, equipamentos de projeção e sistema de som, além de depender da receita com a venda de ingressos. “A infraestrutura que é o local, a própria sala, o edifício. Tudo isso envolve muito dinheiro, eu diria. É um negócio caro, por isso que talvez não tenham tantas iniciativas assim.” Em Nova Mutum, a 242 km de Cuiabá, a relação com o cinema também passou por uma transformação nos últimos anos. Em 2025, a empresária Francielli Vila e o marido, João Soares, deram início ao projeto do Cine 163, que começou nas dependências da Faculdade Famutum. Hoje, o espaço conta com três salas, todas com projeção a laser: uma com capacidade para 120 pessoas e outras duas para 90 espectadores cada. Para Francielli, administradora do cinema, o espaço é considerado o primeiro cinema da história de Nova Mutum. A experiência de levar o cinema para uma cidade do interior também exigiu adaptações em relação ao funcionamento das grandes redes, principalmente na compreensão dos hábitos e das necessidades do público local. “A gente começou a entender que o que funciona para um cinema de shopping, para uma grande rede, não necessariamente funciona para o interior. A gente teve que aprender muito", explicou. Essa adaptação também aparece em iniciativas voltadas a diferentes públicos. Em agosto de 2026, o Cine 163 realizou a primeira sessão azul — iniciativa adaptada para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e hipersensibilidade sensorial —, com o filme Minions e Monstros. A proposta é realizar novas sessões, inicialmente com a meta de uma por mês, e ampliar a frequência conforme a aceitação do público. Cinema para a família Assim como os moradores de Nova Mutum, os de Pontes e Lacerda também passaram a ter uma sala de cinema mais perto de casa. A cidade voltou a contar com uma sala de exibição, permitindo que moradores tenham acesso às sessões sem precisar viajar para outras cidades. Para Ana, o cinema também se tornou uma experiência compartilhada com as filhas, entre elas a caçula, Luana Jesus, estudante de Letras, de 25 anos. Para Luana, os filmes passaram a representar também uma oportunidade de estar com a mãe. “Pra mim, tornou-se uma diversão, um momento que eu posso ter junto com minha mãe, só eu e ela. A gente assistindo filme, nos cinemas, juntas”, contou. Ana de Jesus e a filha, Luana, durante visita a um shopping em Cuiabá; na ocasião, as duas aproveitaram para ir ao cinema. Reprodução Com a sala de exibição em Pontes e Lacerda, mãe e filha passaram a ter a possibilidade de manter esse momento de convivência mais perto de casa, sem precisar fazer o mesmo deslocamento para assistir a um filme. Com a sala de exibição em Pontes e Lacerda, mãe e filha passaram a ter a possibilidade de manter esse momento de convivência mais perto de casa. A mudança também marca a trajetória de Ana, que saiu das sessões em casarões de madeira, com piso batido, na infância, para acompanhar as transformações tecnológicas do cinema, incluindo as experiências em 3D. Salas de cinema estão presentes em pouco mais de 10% das cidades de MT. Giovanna Baiocco/g1 MT

FONTE: https://g1.globo.com/mt/mato-grosso/noticia/2026/09/19/moradores-de-90percent-das-cidades-de-mt-precisam-viajar-para-ter-acesso-a-cinema.ghtml


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