Moradora de área próxima a vazamento de gás tóxico em Manaus diz que população no entorno nunca recebeu orientações sobre acidentes
19/07/2026
(Foto: Reprodução) Mais de 400 pessoas vão para hospital após vazamento de gás em Manaus
Uma moradora que vive a cerca de um quilômetro da Unidade 4 da Innova, no Distrito Industrial de Manaus, onde ocorreu o vazamento de monômero de estireno na última quarta-feira (15), afirmou ao g1 que a população que vive no entorno da fábrica nunca recebeu qualquer orientação sobre como agir em caso de acidentes químicos envolvendo a indústria.
O vazamento foi registrado às 17h36 de quarta-feira (15), após uma elevação anormal da temperatura do monômero de estireno armazenado em um tanque da Unidade 4 da Innova. Neste domingo (19), equipes do Corpo de Bombeiros do Amazonas (CBMAM) seguem resfriando o tanque de armazenamento de monômero de estireno.
A doméstica Rosivete Ferreira, de 63 anos, contou que só descobriu que havia risco de um incidente desse tipo depois do vazamento. Ela relatou que começou a apresentar sintomas horas após a ocorrência, entre eles náusea, dor de cabeça, irritação nos olhos, aperto na garganta e falta de ar.
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Questionada pela reportagem se já havia recebido informações sobre procedimentos de segurança ou orientações para moradores da região em caso de emergência química, Rosivete respondeu: “Eu nem sabia que isso podia acontecer.”
Ela informou que, para tentar diminuir a exposição, manteve portas e janelas fechadas durante parte do dia.
“Eu senti náuseas, muito enjoo, um aperto na garganta e dor de cabeça. Meu olho ficou parecendo que estava cheio de pimenta, ardendo demais. Quando eu abria a casa ainda sentia aquele cheiro. Preferi ficar com tudo fechado até meio-dia. Depois comecei a ligar os ar-condicionados e foi passando. Até a noite eu ainda tinha sintomas”, relatou.
O g1 questionou a Innova sobre quais ações de orientação quanto a incidentes químicos foram direcionadas aos moradores da área próxima à fábrica antes e após o vazamento. A reportagem também perguntou se o Plano de Atendimento a Emergências (PAE), que, segundo a empresa, foi acionado logo após o incidente, prevê procedimentos específicos de comunicação e orientação à população que vive no entorno da unidade. Até a última atualização desta reportagem, não houve retorno.
A reportagem procurou o Governo do Amazonas para saber quais órgãos estaduais são responsáveis por acompanhar ou fiscalizar as medidas de orientação destinadas às comunidades localizadas próximas a indústrias que trabalham com produtos químicos perigosos.
A Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) também foi questionada se acompanha ou cobra das empresas instaladas no Polo Industrial a adoção dessas medidas de prevenção e comunicação. Os dois órgãos ainda não haviam se manifestado.
Bombeiros e agentes de saúde se mobilizam para conter vazamento de gás que já dura 3 dias no Distrito Industrial de Manaus
Jornal Nacional/ Reprodução
Sintomas após vazamento
Além de Rosivete, outros moradores e trabalhadores das proximidades da Innova relataram ao g1 terem apresentado sintomas após o vazamento. Entre eles está o ajudante de caminhão Luiz Ferreira, que trabalha em uma empresa vizinha à fábrica.
Ele afirmou que colegas de trabalho passaram mal durante o expediente, mas as atividades da empresa não foram interrompidas.
“O pessoal começou a correr para o banheiro. Quando cheguei em casa também passei mal. Tive dor de cabeça e diarreia”, contou.
Os relatos descrevem sintomas compatíveis com os efeitos da exposição ao monômero de estireno apontados pela chefe do Departamento de Química da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Karime Bentes. Segundo a especialista, a substância é tóxica e a inalação pode provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, além de dores de cabeça, tontura e náuseas.
A pesquisadora explicou ainda que o estireno é armazenado na forma líquida, mas evapora rapidamente e, ao se tornar gás, pode se espalhar por grandes distâncias. Ela também alertou que, dependendo da concentração da substância na atmosfera, a chuva pode reagir com o produto e formar compostos nocivos e estireno líquido, aumentando o risco de contaminação ambiental.
O incidente
O vazamento de monômero de estireno foi registrado às 17h36 de quarta-feira, na Unidade IV da Innova. O forte odor do produto químico foi percebido em bairros próximos ao Distrito Industrial e levou à evacuação imediata de um shopping localizado nas proximidades da empresa.
O monômero de estireno é utilizado na fabricação de plásticos, borrachas sintéticas e poliestireno expandido (isopor). Segundo especialistas, a exposição ao produto por inalação pode causar irritação nos olhos, nariz e garganta, além de dor de cabeça, tontura e náusea.
Desde a ocorrência, equipes do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM) atuam no resfriamento do tanque para controlar a temperatura e evitar novos riscos. A principal hipótese investigada pela corporação é de uma reação espontânea no interior da estrutura.