Mensagens de celular apreendido pela PF ligam governador de RR a esquema de fraude em licitações
14/04/2026
(Foto: Reprodução) Governador de RR é apontado pela PF como chefe de esquema de fraudes em licitações
Mensagens, prints e áudios extraídos de um celular apreendido pela Polícia Federal (PF) ligaram o governador de Roraima, Edilson Damião (União Brasil), a um esquema de fraudes em licitações e desvio de dinheiro público na Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinf), segundo inquérito ao qual o g1 teve acesso.
O material foi retirado do aparelho do empresário Clóvis Braz Pedra, preso em janeiro suspeito de lavagem de dinheiro. As mensagens revelam ainda a participação do ex-chefe da Casa Civil Disney Barreto Mesquita, como responsável pelo controle financeiro do grupo, mesmo sem exercer cargo oficial no governo.
Com base nos dados extraídos, a PF detalhou a divisão de tarefas na organização criminosa. Entenda o papel de cada envolvido.
Edilson Damião (chefe operacional): Utilizava a autoridade de secretário da Seinf para manipular licitações e distribuía antecipadamente as obras custeadas por emendas parlamentares aos empresários do esquema, meses antes de os editais se tornarem públicos;
Disney Barreto Mesquita (braço financeiro): Era o articulador e responsável pela lavagem do dinheiro. Mesmo sem cargo oficial no governo de Roraima, controlava o fluxo de pagamentos da pasta. Recebia milhões em recursos desviados por meio de uma rede de empresas de fachada para ocultar a origem ilícita;
Clóvis Braz Pedra ("testa de ferro"): Dono da empresa C B Pedra (Rodoplacas). A função dele era vencer formalmente as licitações para dar aparência de legalidade, repassar as obras a terceiros e distribuir os lucros e propinas.
Procurado pelo g1, o Governo do Estado informou que "não possui conhecimento sobre a suposta investigação" e ainda não houve nenhum comunicado ao governo sobre o processo.
Procurada, a defesa de Clóvis Braz disse que se o caso não "foi submetido à apreciação judicial, tratando-se, portanto, de meras ilações desprovidas de suporte probatório concreto" e se manifestará exclusivamente nos autos.
Em nota, Disney Mesquita disse que "nunca teve e não possui qualquer contrato com o Governo, rechaçando integralmente qualquer associação a irregularidades ou práticas ilícitas".
Prints e conversas
O inquérito traz o print de uma foto enviada por Edilson Damião para Clóvis Braz. A imagem mostra uma planilha de emendas parlamentares. Nela, ao lado de uma obra no município de Iracema, orçada em mais de R$ 1 milhão, o nome "Clóvis" aparece escrito à mão. Veja abaixo.
Planilha enviada pelo governador de Roraima, Edilson Damião (União Brasil), então secretário de Infraestrutura.
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A investigação apontou que Edilson enviou a planilha a Clóvis em novembro de 2024. No entanto, o edital de licitação da obra só foi publicado em fevereiro de 2025. A imagem aparece como prova material do direcionamento antecipado de licitações. Na planilha, há também outras anotações referentes a outras construtoras.
O relatório também destaca um áudio enviado por Clóvis a Damião. Na gravação, o empresário pergunta sobre o pagamento de um serviço e revela que Disney Mesquita já havia confirmado a liberação do dinheiro antes mesmo da própria Seinf.
“Oi Edilson, boa tarde, tudo bem? Edilson, me dê uma informação: vai ter empenho para a nossa empresa C B Pedra? O Sr. Disney falou comigo e disse que ia sair empenho hoje, ele acabou de me ligar, só que o senhor não passou nenhuma instrução ainda para seus subordinados. Vai ter mesmo? O senhor sabe me informar?", diz a transcrição do áudio de Clóvis.
Conversa entre governador de Roraima, Edilson Damião, então secretário de Infraestrutura e empresário de Roraima.
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Segundo a investigação, o uso do termo "nossa empresa", aponta a ligação direta entre o empresário e o então secretário e destaca a consolidação de Disney Mesquita como chefe financeiro do grupo. De acordo com o relatório, Disney antecipava e decidia sobre pagamentos da pasta, mesmo sem ocupar cargo oficial no governo.
Em nota, a Secretaria de Infraestrutura informou que todos os processos conduzidos ao longo dos anos foram realizados dentro da lei, e que as informações do inquérito referem-se a suposições e indícios ainda não comprovados.
Disse ainda que, desde a intervenção federal no governo do estado em 2018, a Seinf não foi alvo de penalizações ou investigações por órgãos de controle. Ressaltou também que, desde 2023, com a criação da Secretaria de Licitação e Contratação, os processos licitatórios do Poder Executivo passaram a ser centralizados nesse novo órgão, não sendo mais de responsabilidade direta da Seinf.
"O que rola lá não é meu"
A PF também encontrou uma conversa no WhatsApp entre Clóvis e um empreiteiro. Na mensagem, Clóvis diz: “o que rola lá não é meu, você sabe disso. Vivo das placas”, o que, segundo a investigação, mostra que a empresa de Clóvis trabalha com sinalização viária.
Os demais serviços, como obras e terraplanagem, não seriam executados pela empresa de Clóvis, que também não ficaria com o dinheiro pago por eles, segundo os indícios. Para os investigadores, as mensagens comprovam que a C B Pedra (Rodoplacas) era usada como "testa de ferro". Veja no print abaixo.
Empresário de Roraima conversa com amigo sobre esquema de desvio e fraude em licitações.
Reprodução
Investigação
As investigações começaram em janeiro de 2026, quando a PF prendeu o empresário Clóvis Braz Pedra, junto com uma assistente administrativa e um policial militar em Boa Vista, suspeitos de lavagem de dinheiro e associação criminosa.
Após as prisões, a PF apreendeu celulares dos investigados. Na análise do material, os investigadores identificaram o esquema de fraudes em licitações na Seinf, com participação de integrantes do alto escalão do governo estadual. Na época, Edilson Damião era secretário titular da pasta e vice-governador de Roraima.
Damião assumiu o governo em de março de 2026, após a renúncia de Antonio Denarium (Republicanos), que deixou o cargo para disputar o Senado. Os dois serão julgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta terça-feira (14), por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
Edilson Damião (União Brasil), apontado pela PF como chefe em esquema de fraude em licitações com os empresários Disney Barreto Mesquita e Clóvis Braz.
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