'Massacre de Paraisópolis': relatório reconstrói ação da PM e aponta cerco que encurralou jovens mortos

  • 26/03/2026
(Foto: Reprodução)
Familiares das vítimas do "Massacre de Paraisópolis" fazem manifestação por justiça em frente ao Fórum Criminal Ministro Mario Guimarães, na Barra Funda, Zona Oeste de SP WAGNER VILAS/ENQUADRAR/ESTADÃO CONTEÚDO Seis anos após a ação policial que terminou com nove jovens mortos em Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, um novo relatório reconstruiu a dinâmica da operação da Polícia Militar e aponta que houve um cerco que encurralou participantes do baile funk. Conhecido como "Massacre de Paraisópolis", o caso ocorreu durante o Baile da DZ7, um dos maiores bailes funk da capital paulista. Ao todo, 12 policiais respondem pelo episódio e aguardam decisão da Justiça sobre eventual julgamento pelo Tribunal do Júri. O relatório Arquitetura do Cerco Policial, produzido pelo laboratório Agência Autônoma: Cidades, Direitos e Territórios, sediado na Universidade de Brasília (UnB), conclui que os agentes encurralaram de forma intencional os jovens na Viela do Louro, um beco estreito e sem saída. A Defensoria Pública de São Paulo, que representa parte das famílias das vítimas, solicitou nesta quarta-feira (25) a inclusão do documento no processo e reforçou o pedido para que os policiais sejam levados a júri popular por homicídio doloso (quando há intenção de matar). Segundo a Defensoria, o relatório reforça a tese de que houve uma estratégia de cercamento progressivo, marcada pelo bloqueio das rotas de saída e pela intensificação da repressão. A reconstrução do episódio, obtida pelo g1, foi feita a partir da análise de vídeos gravados por moradores e imagens de câmeras de segurança de comércios da região, que registraram a operação na madrugada de 1º de dezembro de 2019. MP-SP denuncia PMs pela morte de nove pessoas em Paraisópolis A maioria dos registros foi feita de forma anônima, por celulares, muitas vezes a partir de frestas de janelas — o que, segundo o relatório, evidencia o risco enfrentado pelas testemunhas. Procurada, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que "os inquéritos relativos ao caso, nas esferas civil e militar, foram concluídos em 2021 e 2020, respectivamente, com indiciamento de nove agentes por homicídio culposo, e encaminhados ao Poder Judiciário para as providências cabíveis". Reconstrução da operação Com cerca de 5 mil pessoas, o tradicional Baile da DZ7 acontecia em três ruas da comunidade de Paraisópolis: Rodolfo Lutze, Iratinga e Ernest Renan. Na madrugada, um grande contingente policial participou da chamada "Operação Pancadão", realizada com frequência durante a gestão do então governador João Doria. A operação durou cerca de uma hora: começou por volta das 3h40, quando viaturas fecharam as esquinas da rua Ernest Renan, e terminou por volta das 4h50, com a retirada dos policiais da área após o resgate dos corpos das vítimas. Segundo o relatório, a ação seguiu uma estratégia em quatro etapas: o fechamento das esquinas, a intensificação da repressão, a fuga da multidão para o interior da quadra e, por fim, a violência concentrada na Viela do Louro. 🔎 O relatório é composto por mapas da região onde aconteceu o Baile da DZ7, dispostos em ordem cronológica, indicando a dinâmica da operação policial. Setas vermelhas representam o deslocamento de viaturas, enquanto setas e pontos azuis indicam o movimento e a concentração de civis. Ícones verdes marcam a posição de câmeras, e há também a indicação de policiais em pontos estratégicos. Um símbolo de explosão sinaliza o uso de artefatos, como bombas de efeito moral. O g1 reuniu os principais momentos da operação com base na reconstrução do relatório: 3h43 – Início da operação: viaturas da PM chegam à esquina da rua Ernest Renan com a Herbert Spencer. Jovens começam a correr, fugindo dos agentes (veja abaixo); Reconstrução da Operação Pancadão durante o episódio que ficou conhecido como Massacre de Paraisópolis. Reprodução/Arquitetura do Cerco Policial 3h49 - Fechamentos das esquinas: viatura chega na esquina oposta, com a rua Rudolf Lotze. Multidão passa a fugir em direções opostas, sem rota clara de saída; 3h50 a 3h54 – Consolidação do cerco e escalada da repressão: mais viaturas chegam e consolidam o cerco nas duas extremidades da rua. Polícia usa bombas de efeito moral e há relatos de agressões. Jovens correm de forma desordenada, tentando escapar; Reconstrução do Massacre de Paraisópolis: cerco policial e repressão contra os jovens aumenta. Reprodução/Arquitetura do Cerco Policial 3h55 a 4h – Chegada de reforço: novo contingente policial chega com viaturas e motos. A rua começa a esvaziar rapidamente. Parte das pessoas se abriga em casas e comércios; outras fogem para vielas. 3h43 a 4h – Fuga e encurralamento: sem saída pelas esquinas, multidão é empurrada para o interior da quadra. Muitos jovens se concentram na Viela do Louro, uma passagem estreita. 4h00 a 4h07 – Violência na viela: policiais se posicionam na entrada da Viela do Louro. Há relatos de agressões, uso de bombas e bloqueio da saída. Jovens ficam encurralados (veja abaixo). A violência policial na entrada da Viela do Louro Reprodução/Arquitetura do Cerco Policial 4h08 – Pedido de resgate: polícia solicita ambulância para socorrer as vítimas. 4h15 a 4h35 – Movimentação policial: agentes circulam pela área após o ocorrido. 4h35 a 4h50 – Retirada dos corpos: corpos dos nove jovens são retirados da Viela do Louro. Jovens encurralados pela polícia na Viela do Louro, segundo a simulação. Reprodução/Arquitetura do Cerco Policial Conclusão do relatório Segundo o pesquisador e professor Paulo Tavares, coordenador da Agência Autônoma, a análise espacial-temporal mostra que a ação policial foi orquestrada e coordenada, o que contraria a versão de dispersão apresentada pela PM. "A maneira pela qual a operação policial ocorreu mostra que houve uma intencionalidade e racionalidade no processo de cerco e de encurralamento [...] Não foi um efeito colateral de uma operação de dispersão", afirma o pesquisador. Existe uma relação direta entre a morte por asfixia, como diz o laudo, por asfixia mecânica, e um processo de encurralamento. Então, nesse sentido, se não houvesse um processo de cercamento e de encurralamento da multidão, seguramente não haveria ocorrido essas mortes por asfixia. LEIA MAIS: Repressão ao baile funk: ao menos 16 pessoas foram mortas e 6 adolescentes perderam a visão em 'operações pancadão' em SP, diz pesquisa 'Massacre de Paraisópolis': Batalhão da PM responsável por ação que deixou 9 mortos é o mais letal da cidade de São Paulo nos últimos 10 anos, aponta relatório Espaço urbano A configuração urbana de Paraisópolis também teve influência na ação policial durante o baile. Segundo o pesquisador, a Rua Ernest Renan é estreita e concentrava grande número de pessoas, o que dificultou a dispersão. Já a Viela do Louro, onde parte dos jovens ficou encurralada, fica em um ponto mais baixo da rua, formando uma espécie de descida, o que contribuiu para o acúmulo de pessoas no local e a morte de nove pessoas. Tavares ainda destaca que o território de Paraisópolis já era conhecida pelas forças policiais, por isso esse conhecimento prévio poderia ter levado a uma estratégia diferente de atuação. "Não é a primeira nem a última operação que aconteceu ali. Como é um contexto urbano conhecido, claramente a polícia poderia ter agido de outra maneira se fosse o caso de realizar realmente uma operação de dispersão", afirma. PMs respondem por homicídio Jovens mortos em Paraisópolis Arte/TV Globo O inquérito da Polícia Civil concluiu que os 12 policiais investigados cometerem homicídio e lesão corporal culposos (sem intenção de matar ou ferir). São eles: tenente Aline Ferreira Inácio subtenente Leandro Nonato sargento João Carlos Messias Miron cabo Paulo Roberto do Nascimento Severo Luís Henrique dos Santos Quero (ex-cabo da PM; foi expulso da corporação por outros motivos não informados) cabo Gabriel Luís de Oliveira soldado Anderson da Silva Guilherme soldado Marcelo Viana de Andrade soldado Mateus Augusto Teixeira soldado Rodrigo Almeida Silva Lima soldado José Joaquim Sampaio soldado Marcos Vinicius Silva Costa Contudo, na avaliação do Ministério Público, os agentes devem responder por homicídio por dolo eventual (por terem assumido o risco de matá-las quando as encurralaram no beco) e por lesão corporal na mesma modalidade eventual. Por isso, devem ser julgado pelo Tribunal do Júri, segundo o órgão. A expectativa das partes é que a Justiça decida até julho se pronuncia ou não os réus para irem a júri popular. Os policiais respondem ao processo em liberdade. PMs alegam mortes acidentais Protesto de moradores nesta quarta-feira (1), no Centro de São Paulo, em lembrança aos dois anos da morte de 9 jovens de Paraisópolis. ALLISON SALES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO As defesas dos PMs dão outra versão para a ocorrência policial que deixou mortos e feridos em Paraisópolis. De maneira geral, os policiais alegaram que perseguiam dois suspeitos de roubo que estavam numa moto. A dupla teria entrado no baile funk e atirado na direção das viaturas. Isso provocou pânico entre os frequentadores, que correram para a Viela do Louro onde teriam tropeçado uns sobre os outros. Segundo os policiais, houve resistência dos frequentadores, que teriam agredido os agentes com paus, pedras e garrafadas. Os policiais disseram que, por segurança, foi preciso usar cassetetes, balas de borracha, bombas de gás e de efeito moral para dispersar a multidão que participava do evento. Em suas defesas, os PMs disseram ainda que as vítimas morreram acidentalmente ao serem pisoteadas após um tumulto provocado pelos bandidos. Quem são os 9 mortos Os 12 réus são acusados de participar dos assassinatos de nove pessoas; veja quem são as vítimas e como morreram: Mateus dos Santos Costa, 23 anos, morreu por traumatismo Gustavo Xavier,14 anos, morreu por asfixia Marcos Paulo Oliveira, 16 anos, morreu por asfixia Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos, morreu por asfixia Eduardo Silva, 21 anos, morreu por asfixia Denys Henrique Quirino, 16 anos, morreu por asfixia Dennys Guilherme dos Santos, 16 anos, morreu por asfixia Luara Victoria de Oliveira, 18 anos, morreu por asfixia Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos, morreu por asfixia

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/03/26/massacre-de-paraisopolis-relatorio-reconstroi-acao-da-pm-e-aponta-cerco-que-encurralou-jovens-mortos.ghtml


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