'Malhação do Judas', jejum e até furto de galinhas: conheça tradições da Semana Santa no Piauí
03/04/2026
(Foto: Reprodução) Feriado na Semana Santa: comércio aposta em turistas e aumento em vendas no litoral
A Semana Santa no Piauí reúne tradições que misturam fé, cultura e convivência comunitária. Entre elas estão a malhação de Judas, o jejum, a abstinência de carne vermelha e até o furto de galinhas, praticado em comunidades de diferentes cidades do estado. O g1 ouviu piauienses que mantêm esses costumes, transmitidos de geração em geração e marcados pela união familiar e pela devoção religiosa.
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‘Rito de passagem silencioso’
Criada no catolicismo, a funcionária pública Maria do Carmo Morais Santos Filha aprendeu ainda na infância muitos dos costumes religiosos, vividos em casa, no interior do Piauí. Durante a Quaresma, o jejum e a abstinência de carne vermelha, especialmente na Quinta-feira Santa e na Sexta-feira Santa, eram seguidos com devoção.
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🔎 Para a Igreja Católica, a carne vermelha simboliza riqueza, e a abstinência é uma forma de recordar os sacrifícios de Jesus Cristo.
“Saímos do interior de União em 1978, um casal e seus nove filhos, levando conosco mais do que pertences: carregávamos a saudade da roça e o desejo profundo de manter vivas as nossas tradições”, disse Maria do Carmo.
“Em Teresina, a vida foi se moldando, mas nunca nos afastamos daquilo que nos formou. A fé católica sempre foi um dos nossos alicerces”, contou a funcionária pública.
Segundo Maria do Carmo, o tradicional consumo de galinha na madrugada do Sábado Santo acontecia em torno de uma fogueira, no quintal da casa.
“O crepitar da lenha, o brilho das chamas iluminando os rostos e as conversas se desenrolando, leves e cheias de afeto”, declarou.
“Quando o sábado amanhecia por completo, era o cheiro do cozidão de bode que tomava conta do quintal e chamava todos para perto. Ao redor da churrasqueira, risos se misturavam às histórias antigas e às novidades da vida”, relembrou a funcionária pública.
'Malhação do Judas', jejum e até furto de galinhas: conheça tradições da Semana Santa no Piauí
Arquivo Pessoal
Uma capela construída em frente à casa se tornou o principal ponto de encontro da família com o sagrado. O espaço também recebe vizinhos e moradores da região, especialmente durante a Via-Sacra.
“Os mais novos cresceram vendo, aprendendo e com o tempo, também passaram a participar, como um rito de passagem silencioso entre gerações”, disse Maria do Carmo.
“A família se expandiu: chegaram noras, genros, netos e bisnetos. Tias, primos e amigos vinham de perto e de longe, e chegávamos a ser entre 40 e 60 pessoas. Não importava o aperto, sempre dávamos um jeito. O essencial nunca foi o espaço, mas a presença, o acolhimento e a alegria de estarmos juntos”, completou ela.
'Malhação do Judas', jejum e até furto de galinhas: conheça tradições da Semana Santa no Piauí
Arquivo Pessoal
Os costumes seguem vivos e, há mais de 40 anos, Maria do Carmo retorna à casa onde cresceu durante a Semana Santa.
“Hoje somos menos. Entre 25 e 30 pessoas ocupam o mesmo espaço que já abrigou tantos outros. Ainda assim, algo permanece intacto: o espírito de união, a força da tradição e o calor de uma família que aprendeu, desde cedo, que estar junto é o que realmente importa”, concluiu.
‘Todo ano a gente espera essa data’
'Malhação do Judas', jejum e até furto de galinhas: conheça tradições da Semana Santa no Piauí
Montagem g1
No povoado São José, em Caxingó, Maria José Sousa Ramos celebra a Semana Santa ao lado da família e de amigos próximos. Entre eles está a técnica de enfermagem Tânia Raquel, ouvida pelo g1.
Segundo ela, uma tradição curiosa acontece na madrugada da Sexta-feira Santa para o Sábado Santo: o furto de galinhas.
🔎 A prática consiste em pegar galinhas de vizinhos como forma de brincadeira. A crença popular é que, por marcar a morte de Cristo, o ato não seria testemunhado.
“A gente se reúne desde quinta-feira e faz brincadeiras, joga baralho. Na sexta, a gente fica sempre envolvido fazendo bolos e espera passar meia-noite para os meninos roubarem galinhas.A gente faz e come na madrugada mesmo”, contou a técnica de enfermagem.
Por acontecer entre moradores da mesma comunidade, a brincadeira não gera registros policiais.
A tradicional malhação de Judas também faz parte da programação anual do grupo.
🔎 Na tradição, um boneco que representa Judas Iscariotes, personagem bíblico que traiu Jesus, é simbolicamente punido.
“No sábado, a gente faz o Judas, faz um testamento também. Quando dá mais ou menos nove horas da noite, a gente toca fogo nele. É muito divertido. As crianças fazem parte da brincadeira toda, vão atrás de coisas pra gente fazer o Judas, todo mundo fica envolvido na experiência”, explicou.
“A gente fica tentando colocar um nome no Judas e fica cuidando porque o pessoal das cidadezinhas do lado, dos outros interiores do lado, quer roubar o Judas da gente. Todo ano a gente espera essa data para brincar, para manter essa tradição”, completou Tânia.
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O g1 conversou com piauienses sobre as tradições que pemanecem vivas no estado e o impacto da religiosidade nas famílias.
Arquivo Pessoal
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