Mais da metade das mulheres relata dor severa na colocação do DIU, aponta pesquisa da Unicamp
29/06/2026
(Foto: Reprodução) Mais da metade das mulheres relata dor severa na colocação do DIU, aponta pesquisa
A dor durante a inserção do dispositivo intrauterino (DIU) pode ser muito mais frequente do que indicam as diretrizes oficiais brasileiras. Um estudo realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) constatou que 81% das inserções do método contraceptivo foram acompanhadas de dor moderada ou intensa, percentual mais de 16 vezes superior ao estimado pelo manual técnico do Ministério da Saúde, que afirma que menos de 5% das mulheres experimentam esse nível de desconforto. A dor severa foi relatada por 54% das participantes e, a moderada, por 27%.
Publicado na revista International Journal of Gynecology & Obstetrics, o estudo analisou 7.259 inserções de DIU realizadas entre 2022 e 2024 em um serviço público de referência em Campinas (SP). Os resultados reforçam o debate sobre a necessidade de reconhecer a dor associada ao procedimento e ampliar as estratégias de manejo oferecidas às pacientes.
Os autores afirmam que os achados indicam a necessidade de atualização das diretrizes nacionais para refletir de forma mais fiel a experiência das usuárias e promover uma assistência centrada na paciente.
A dor durante a inserção do DIU pode ser parcialmente reduzida com o uso de anestésicos locais em gel, spray ou injetáveis, além de anti-inflamatórios, que têm mais eficácia de redução da dor após o procedimento.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda anestesia local e outras medidas para reduzir a dor, quando há disponibilidade de recursos, mas ressalta que a ausência dessas estratégias não deve ser barreira para o acesso e disponibilização do método.
Países como o Reino Unido oferecem estratégias de manejo de dor (como lidocaína em spray, creme ou injetável, em casos mais complexos).
Apenas o DIU de cobre é oferecido na rede pública no país
Mais da metade das mulheres relata dor severa na colocação do DIU, aponta pesquisa da Unicamp
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O DIU hormonal, que tem eficácia ligeiramente maior que a do DIU de cobre, ainda não é oferecido pelo SUS no Brasil. Apenas o de cobre é disponibilizado na rede pública e o uso de anestésicos locais durante sua inserção não é rotina nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs).
Além disso, apenas 20% das UBSs disponibilizam a colocação do dispositivo e é necessário agendamento, que pode levar meses, segundo o co-orientador do estudo, Luis Bahamondes.
Centros de referência, como a Unicamp, oferecem a colocação sem agendamento e com anestésico local e anti-inflamatórios em alguns casos. Mas o uso de anestésicos ainda é mais comum na rede particular como um todo.
Já a colocação do DIU com sedação exige internação em centro cirúrgico, o que aumenta os custos e inviabiliza o uso do método em larga escala na rede pública.
Bahamondes não aprova a internação em larga escala e defende esta estratégia apenas para casos raros: “Você acaba levando um procedimento ambulatorial e simples para o centro cirúrgico. Fazemos mais de quatro mil colocações de DIU por ano na Unicamp. Não seria possível internar essa quantidade de pessoas. Aumentaria terrivelmente os custos”, afirma. Ele acrescenta que, por ano, apenas cerca de quatro mulheres são levadas para o centro cirúrgico na instituição porque têm o colo muito fechado.
O estudo da Unicamp também ressalta que profissionais de saúde podem subestimar a intensidade da dor relatada pelas pacientes, o que pode influenciar tanto o aconselhamento quanto a oferta de medidas para reduzir o desconforto.
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Mais da metade relatou dor intensa
Mulheres mais jovens e sem partos anteriores relataram mais dor no estudo. Além disso, as que passaram por cesariana agendada tendem a sentir dor mais intensa do que as que passaram por outro tipo de parto. Uma explicação seria a possibilidade de estenose do canal vaginal por conta de cicatrizes provocadas pela cesariana.
A pesquisa da Unicamp avaliou a dor imediatamente após a inserção do DIU por meio de uma escala visual analógica que varia de 0 a 10 pontos. Entenda melhor o nível de dor avaliada pelas participantes:
Nenhuma dor: 3%. Dessas, 72% tiveram parto vaginal e, 42%, cesariana.
Dor leve (nota 1 a 3): 15%. Dessas, 61% tiveram ao menos um parto vaginal e, 40%, tiveram ao menos uma cesariana.
Dor moderada (nota 4 a 6): 27%. Dessas, 62% tiveram ao menos um parto vaginal e, 41% tiveram ao menos uma cesariana.
Dor severa (nota 7 a 10): 54%. Dessas, 48% já tinham passado por ao menos um parto vaginal e 36% tinham passado por ao menos uma cesariana.
Na prática, isso significa que 81% das inserções foram classificadas como moderadamente ou severamente dolorosas.
Apesar de a taxa de dor severa durante a colocação do dispositivo ser alta, as taxas de aceitação do DIU (tanto o de cobre quanto o hormonal) são altas, quando ofertados sem custo para a usuária. Isso ocorre principalmente pelo fato de o método ser de longa duração e ter alta eficácia.
Segundo os pesquisadores, os resultados contrastam com o que é descrito nas diretrizes brasileiras, que apresentam a inserção do DIU como um procedimento simples e associam a dor moderada ou intensa a uma pequena parcela das pacientes.
Longa durabilidade é uma das vantagens do método
Atualmente, há três tipos de DIU no mercado. Entenda a durabilidade de cada um:
DIU de cobre: dura 12 anos.
DIU Mirena: dura 8 anos e faz a mulher parar de menstruar. Contém o hormônio levonorgestrel, um tipo de progestagênio (versão sintética da progesterona) – que é liberado gradualmente dentro do útero - e não contém estrogênio, que pode aumentar o risco de trombose em mulheres com predisposição à condição.
DIU Kyleena: dura 5 anos e também contém levonorgestrel, em menor quantidade.
Entre as mulheres que usam DIU no mundo, cerca de 40% usam o de cobre e 60%, o Mirena. O uso do Kyleena ainda é muito baixo, destaca Bahamondes.
Alta eficácia e baixa adesão
Os autores destacam que o DIU é considerado um dos métodos contraceptivos mais seguros e eficazes disponíveis. Tanto o de cobre quanto o hormonal têm eficácia superior a 99% na prevenção da gravidez.
Confira a taxa de falha de cada tipo de dispositivo:
DIU hormonal (Mirena ou Kyleena) 2 para cada mil.
DIU de cobre: 1 para cada cem.
Segundo Bahamondes, essas taxas são similares às da laqueadura. O médico destaca que, quando a mulher não planeja engravidar pelos próximos 2 ou 3 anos, o método já pode ser considerado.
Veja outras vantagens do DIU:
Não depende do uso correto diário, como a pílula, o que evita falha por uso incorreto.
É reversível; ao retirar o DIU, a fertilidade retorna rapidamente.
Não afeta a capacidade futura de engravidar.
Pode ser usado por mulheres que nunca tiveram filhos.
Pouca manutenção: após a inserção, basta realizar acompanhamento médico periódico, sem necessidade de intervenções frequentes.
Longa duração (de 5 a 12 anos, dependendo do tipo).
Apesar das vantagens e da alta aceitação, a adesão a esse tipo de método contraceptivo ainda está entre as mais baixas do país.
Veja como os diferentes métodos contraceptivos são usados:
DIU: 4% a 5%
Pílula: 40%
Laqueadura: 25%
Contraceptivos injetáveis: 10%
Implante hormonal: menos de 1%
Dor é uma das barreiras para o uso do método
A autora do estudo, Ana Luiza Savi, destaca que a dor durante a inserção não deve ser vista como o único motivo para a baixa utilização do método no Brasil. Segundo ela, a adesão ao DIU é influenciada por uma combinação de fatores. Entre eles estão:
Dificuldades de acesso ao procedimento;
Carência de profissionais treinados;
Ausência de oferta do DIU hormonal na rede pública;
Alto custo da inserção em serviços privados;
Desinformação e mitos sobre quem pode utilizar o método;
Medo da dor e de possíveis efeitos adversos.
Savi destaca ainda que o DIU pode ser utilizado como contracepção de emergência até cinco dias após a relação sexual desprotegida, mas esta informação é pouco conhecida pela população. Além disso, o dispositivo ainda é pouco usado no pós-parto imediato.
A pesquisadora acrescenta que a adoção do método na rede pública no Brasil ainda pode ser considerada inicial. No país, a maior parte da população depende do SUS (74%) para acessar serviços de saúde, incluindo contracepção, e a portaria que estabeleceu o DIU com cobre na oferta do sistema foi publicada apenas no final de 2017. Além disso, os serviços de planejamento familiar foram bastante impactados pela pandemia de COVID-19, acrescenta Savi.
Especialista critica necessidade de agendamento e defende inserção por enfermeiros
Bahamondes defende que o dispositivo intrauterino seja oferecido também na versão hormonal, em uma quantidade maior de UBSs de referência pelo país e sem necessidade de agendamento prévio.
Ele reforça que uma única unidade por região nas capitais, por exemplo, já tornaria o processo menos demorado. Para isso, mais profissionais precisariam ser treinados, incluindo enfermeiros.
“Enfermeiro pode colocar DIU, mas o Conselho Federal de Medicina (CFM) é contra por uma reserva de mercado. Médicos são treinados para ver doentes. Na Suécia, Chile, Peru e em países da África, enfermeiros colocam DIU. Muitos estudos mostram que a colocação por enfermeiros e médicos tem taxas de segurança iguais”, afirma.
O especialista defende também uma cartilha distribuída nos centros onde a colocação é disponibilizada, informando sobre a possibilidade de uso de anti-inflamatórios antes do procedimento, além de anestésicos em gel e spray.
Na prática, muitas mulheres acabam optando por outros métodos devido à demora ou acabam engravidando antes do agendamento, que pode levar cerca de quatro meses.
Vale destacar que, no Brasil, cerca de 55% das gestações não são planejadas. O dado é do estudo nacional “Nascer no Brasil”, coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz, que entrevistou quase 24 mil mulheres em todo o país.
Apenas 6% receberam algum medicamento antes da inserção
Embora a dor tenha sido frequente, o uso de medicamentos antes do procedimento no estudo da Unicamp foi pouco comum. Dos mais de 7 mil procedimentos analisados, apenas 429 inserções — o equivalente a 6,1% do total — contaram com algum tipo de medicação administrada previamente.
Os medicamentos mais utilizados foram:
Antiespasmódicos;
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs);
Analgésicos.
O uso de opioides foi praticamente inexistente.
O estudo destaca que não havia um protocolo padronizado para controle da dor no serviço analisado. A decisão sobre prescrever ou não medicamentos era feita pelos profissionais responsáveis, geralmente entre 15 e 60 minutos antes da inserção.
A maioria das inserções avaliadas teve finalidade contraceptiva, e os DIUs hormonais representaram quase 88% dos procedimentos incluídos na pesquisa.
Diretrizes internacionais passaram a reconhecer a dor da inserção
Os pesquisadores observam que a discussão sobre a dor associada ao DIU tem ganhado destaque nos últimos anos.
Em 2025, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) publicou orientações recomendando que médicos considerem estratégias para minimizar a dor durante procedimentos ginecológicos realizados em consultório, incluindo a inserção de DIUs.
A OMS também atualizou suas recomendações contraceptivas para incluir a oferta rotineira de medicamentos capazes de facilitar o procedimento.
No Brasil, porém, o manual técnico do Ministério da Saúde sobre o DIU de cobre, publicado em 2018, continua afirmando que nenhuma intervenção demonstrou reduzir de forma comprovada a dor da inserção.
Pesquisadores defendem atualização das recomendações brasileiras
Para os autores do estudo da Unicamp, os resultados mostram que a experiência de dor durante a inserção do DIU precisa ser reconhecida de forma mais explícita pelas políticas públicas e pelos protocolos clínicos.
Segundo eles, atualizar as diretrizes nacionais, oferecer informações mais realistas sobre o procedimento e ampliar as opções de manejo da dor podem melhorar a experiência das pacientes e reduzir barreiras ao uso do método contraceptivo.
Na avaliação dos pesquisadores, aprimorar o controle da dor durante a inserção pode contribuir para aumentar a aceitação do DIU e incentivar mais pessoas a considerar o método como opção contraceptiva.
O que diz o Ministério da Saúde
O Ministério não respondeu ao g1 quais estudos ou evidências científicas embasaram a estimativa presente no manual técnico de 2018 de que menos de 5% das pacientes experimentam dor moderada ou intensa - apenas que seguiu recomendações da OMS à época.
Em nota ao portal, a pasta afirmou que orienta os profissionais do SUS a adotarem um cuidado centrado na paciente, com manejo da dor durante a inserção do DIU, uso de analgésicos e anti-inflamatórios quando indicado e interrupção do procedimento em caso de reação vasovagal.
O Ministério também destaca que acompanha pesquisas para atualizar as políticas públicas conforme novas evidências sobre a dor associada ao procedimento e informa que o SUS ampliou a oferta de métodos contraceptivos, incluindo o implante subdérmico de etonogestrel.
Quando o DIU de cobre não é indicado
De acordo com o Ministério da Saúde, a presença de qualquer uma das condições a seguir contraindica a inserção do DIU:
Gestação;
Prolapso uterino total;
Câncer do colo do útero e câncer de endométrio;
Imunodepressão grave pelo HIV (AIDS nos estágios clínicos 3 e 4);
Trombocitopenia severa e outros distúrbios graves da coagulação;
Período compreendido entre 48 horas e 1 mês pós-parto;
Sangramento uterino anormal de origem desconhecida;
Doença trofoblástica gestacional em tratamento;
Distorções da cavidade uterina congênitas (malformações uterinas) ou adquiridas (miomas, pólipos, estenose do colo uterino) quando estas impedem a introdução ou a permanência do DIU no interior da cavidade uterina;
Identificação ao exame físico de sinais sugestivos de cervicite, doença inflamatória pélvica aguda, endometrite crônica ou tuberculose pélvica. A inserção do DIU pode ser realizada imediatamente após o término do tratamento dessas afecções;
Alergia ao cobre;
Durante o pós-parto / pós aborto imediato é contraindicada a inserção do DIU na:
Presença de febre durante o trabalho de parto ou rotura de membranas amnióticas há mais de 24 horas;
Ocorrência de hipotonia / atonia uterina ou retenção placentária;
Vigência de abortamento infectado.
Desvantagens do DIU
Apesar da alta aceitação do DIU, até mesmo por mulheres que sentem dor intensa durante a colocação, o método também possui desvantagens.
Segundo o Ministério da Saúde, as desvantagens do DIU de cobre são:
Aumento do fluxo menstrual, observado principalmente nos três primeiros meses de uso. Um moderado aumento pode permanecer por períodos mais prolongados para algumas mulheres, cessando imediatamente com a retirada.
Aumento ou aparecimento transitório de cólicas menstruais – especialmente nos primeiros meses.
Possibilidade de expulsão, sendo mais comum no primeiro ano.
Possibilidade de perfuração uterina durante a inserção, evento extremamente raro.
Possibilidade de dor ou cólica durante a introdução do dispositivo
Já entre as desvantagens do DIU hormonal, estão:
Sangramento irregular nos primeiros meses
Efeitos hormonais: como libera o hormônio levonorgestrel, algumas mulheres podem apresentar acne; dor de cabeça; sensibilidade mamária; alterações de humor e oleosidade da pele.
Possibilidade de dor ou cólica durante a introdução do dispositivo
Possibilidade de expulsão: em uma pequena porcentagem dos casos, o DIU pode deslocar-se ou ser parcialmente expulso
Possibilidade de perfuração uterina durante a inserção, evento extremamente raro.