Lula busca virada no 2º turno contra Flávio Bolsonaro e tenta reverter tendência de alternância de poder nas Américas
24/10/2026
(Foto: Reprodução) Em busca de uma virada inédita contra Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) busca reverter uma tendência de alternância de poder no continente americano.
Em 2022, quando Lula venceu Jair Bolsonaro, foi a primeira vez um presidente disputou e não venceu a reeleição no Brasil. Desde então a alternância de poder se tornou uma tendência no continente.
Nas últimas 17 eleições democráticas nos países do continente americano, apenas 6 delas (35%) tiveram presidente reeleito ou que elegeu o sucessor, enquanto em 11 disputas (65%) houve alternância de poder.
Além do Brasil, a oposição ao atual governo venceu, por exemplo, na Argentina, Estados Unidos, Uruguai, Chile e Colômbia. Países como Paraguai, México e Canadá, por outro lado, deram continuidade aos governistas.
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No recorte feito apenas em países onde a reeleição é possível, a alternância de poder segue como uma tendência.
Em sete disputas, apenas três delas (43%) — República Dominicana, Equador e Canadá — acabaram com os incumbentes reeleitos. Nas outras quatro (57%) — Brasil, Argentina, Estados Unidos e Honduras — o atual governante foi derrotado.
Amâncio Jorge de Oliveira, professor titular do Instituto de Relações Internacionais da USP, avalia que há uma tendência natural de mudança, mas também enxerga uma guinada à direita, principalmente na América Latina.
"Tem duas camadas, dois movimentos. Um é de mudança, são ventos de mudança, e outros de mudança na direção da direita. Isso na América Latina isso é muito claro e em outros lugares, na própria Europa. No caso da América Latina, há que se ver qual é o efeito da guinada à direita dos Estados Unidos sobre as eleições regionais", disse o professor.
"Difícil saber se é um vínculo da casualidade mais que de contaminação, mas tem havido uma sequência de viradas de administrações de direita com bastante recorrência. O Brasil está numa encruzilhada nessa linha tendendo a seguir o caminho de demais países latino-americanos", pontuou.
Além da alternância de poder e ascensão da direita, o continente americano vê uma crise de popularidade dos governos incumbentes, como Donald Trump nos Estados Unidos — com cerca de 30% de aprovação e 66% de desaprovação — e Javier Milei na Argentina — com 38% aprovando e 58% desaprovando sua gestão.
Além disso, presidentes no início do mandato, como José Antonio Kast do Chile, e Keiko Fujimori do Peru, também estão com a aprovação em cerca de 30% em meio a crises econômicas.
Para o professor Amâncio Jorge, esses números têm relação direta principalmente com as políticas desses governos, principalmente os latino-americanos, na tentativa de conseguir um equilíbrio fiscal para suas economias.
"Nós temos na base, na origem desse problema, o fiscal. Você tem desarranjos fiscais muito violentos nesses países. A Argentina talvez seja o caso mais impressionante de um país com desarranjo fiscal, desequilíbrio fiscal, déficit fiscal. A entrada de gestões de direita combina uma situação de demanda e exigência de controle fiscal com práticas que são práticas de retiradas de direitos trabalhistas para poder facilitar esse ajuste fiscal".
"Quando você combina ajuste fiscal com retirada de direitos, você tem uma crise de legitimidade e de sustentação governamental", argumentou.
O professor destaca ainda que as redes sociais estão no centro tanto do sucesso de candidaturas alternativas aos governos incumbentes, quanto no derretimento da popularidade de governos recém eleitos.
"O impacto é mais rápido. Isso é um fenômeno de massa. A opinião de massa, ou opinião popular, era mais volátil do que a opinião de elite. Ela faz alterações e mudanças de direção de maneira muito brusca. Já as elites são mais estáveis no tempo porque tomam decisões entendendo a complexidade e com mais calma. O efeito da internet potencializa esses deslocamentos bruscos. Numa direção ou de outra".
"O mesmo efeito que leva esse governante a ser eleito também leva a perder credibilidade, porque você propaga muito mais rápido a informação. Com o agravante que tem acontecido, e o Brasil tem a prova disso, que você tem basicamente eleito influencers. Não são pessoas de carreira política. O que gera também um problema de estabilidade do sistema, estabilidade do sistema partidário", pontuou.
Lula e FFlávio Bolsonaro na Globo — Foto: Lula (à esq) e Flávio Bolsonaro (à dir) disputam o 2º turno
Divulgação
Veja abaixo o cenário nos países do continente americano:
Brasil 2022 - Alternância de poder
Em 2022, Lula voltou ao poder após vencer em uma disputa marcada por uma polarização histórica, uma verdadeira guerra nas redes sociais e episódios de violência.
O petista venceu com 50,90% (60,3 milhões de votos), contra 49,10% (58,2 milhões de votos) de Jair Bolsonaro, que se tornou o primeiro presidente a não seguir no cargo desde 1998, quando a possibilidade de reeleição foi instituída.
Paraguai 2023 - Continuidade
Santiago Peña, do Partido Colorado, venceu a eleição presidencial paraguaia com 42,7% dos votos, derrotando Efraín Alegre, da coalizão de oposição Concertación Nacional, que recebeu aproximadamente 27,5%.
A vitória garantiu a continuidade do partido do então presidente Mario Abdo Benítez.
Guatemala 2023 - Alternância de poder
Em 2023, Bernardo Arévalo, do Movimento Semilla, venceu o segundo turno presidencial com aproximadamente 60,9% dos votos, derrotando Sandra Torres, da Unidade Nacional da Esperança, que recebeu cerca de 39,1%.
A vitória surpreendeu o cenário político guatemalteco, pois Arévalo havia começado a campanha sem figurar entre os principais favoritos.
Argentina 2023 - Alternância de poder
Javier Milei, da coalizão La Libertad Avanza, venceu o segundo turno presidencial com 55,7% dos votos, derrotando Sergio Massa, ministro da Economia do governo peronista de Alberto Fernández, que recebeu 44,3%.
A campanha ocorreu em meio a uma grave crise econômica, com inflação superior a 140% ao ano, desvalorização do peso, dificuldades de acesso a dólares e aumento da pobreza.
Panamá 2024 - Alternância de poder
José Raúl Mulino venceu a eleição presidencial panamenha de 2024 com aproximadamente 34,3% dos votos. O Panamá utiliza o sistema de turno único, no qual o candidato mais votado conquista a Presidência, independentemente de alcançar maioria absoluta.
Mulino derrotou candidatos como Ricardo Lombana e Martín Torrijos, enquanto o candidato governista José Gabriel Carrizo terminou apenas na sexta posição.
República Dominicana 2024 – Continuidade por reeleição
O presidente Luis Abinader, do Partido Revolucionário Moderno (PRM), foi reeleito em 2024 com aproximadamente 57,4% dos votos, derrotando o ex-presidente Leonel Fernández, da Força do Povo, e Abel Martínez, do Partido da Libertação Dominicana.
Como ultrapassou a maioria necessária, Abinader garantiu um segundo mandato já no primeiro turno.
México 2024 – Continuidade
Claudia Sheinbaum, candidata do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) e de partidos aliados, venceu a eleição presidencial mexicana com aproximadamente 59,8% dos votos. Ela derrotou Xóchitl Gálvez, candidata de uma coalizão formada por PAN, PRI e PRD, tornando-se a primeira mulher eleita presidente do México.
Sheinbaum havia sido chefe de governo da Cidade do México e era uma das principais aliadas do presidente Andrés Manuel López Obrador.
Estados Unidos 2024 - Alternância de poder
Donald Trump, do Partido Republicano, venceu a eleição presidencial americana de 2024, derrotando a vice-presidente Kamala Harris, candidata do Partido Democrata. Trump conquistou 312 votos no Colégio Eleitoral, contra 226 de Harris.
No voto popular, obteve aproximadamente 49,8%, contra 48,3% da adversária. A vitória marcou seu retorno à Casa Branca depois da derrota para Joe Biden em 2020.
Uruguai 2024 - Alternância de poder
Yamandú Orsi, da coalizão de centro-esquerda Frente Ampla, venceu o segundo turno presidencial com 49,77% dos votos, derrotando Álvaro Delgado, do Partido Nacional, que recebeu 45,94%.
Delgado era o candidato apoiado pelo presidente Luis Lacalle Pou, que não podia disputar a reeleição imediata. A eleição marcou o retorno da Frente Ampla ao governo depois de cinco anos na oposição.
Equador 2025 – Continuidade por reeleição
Daniel Noboa venceu o segundo turno presidencial equatoriano de 2025 com aproximadamente 55,6% dos votos, derrotando Luisa González, candidata do movimento Revolução Cidadã, associado ao ex-presidente Rafael Correa. González recebeu cerca de 44,4%.
O resultado garantiu a Noboa um mandato completo de quatro anos, depois de ter sido eleito em 2023 para completar o período presidencial interrompido pela dissolução antecipada da Assembleia Nacional durante o governo de Guillermo Lasso.
Canadá 2025 – Continuidade
O Partido Liberal, liderado pelo primeiro-ministro Mark Carney, venceu as eleições parlamentares canadenses de abril de 2025, derrotando o Partido Conservador, comandado por Pierre Poilievre.
Os liberais conquistaram 169 das 343 cadeiras da Câmara dos Comuns, permanecendo no governo, mas sem atingir a maioria absoluta de 172 assentos.
O Canadá utiliza o sistema parlamentarista, no qual os eleitores escolhem os deputados e o primeiro-ministro depende da confiança parlamentar. Carney havia assumido o governo em março de 2025, após a renúncia de Justin Trudeau, que estava no poder desde 2015.
Bolívia 2025 - Alternância de poder
Rodrigo Paz, senador do Partido Democrata Cristão, venceu o segundo turno presidencial boliviano com 54,5% dos votos, derrotando o ex-presidente Jorge Quiroga, que recebeu 45,5%. O resultado encerrou quase duas décadas de predomínio do Movimento ao Socialismo (MAS), partido associado aos governos de Evo Morales e Luis Arce.
Honduras 2025 - Alternância de poder
Nasry Asfura, do conservador Partido Nacional, venceu a eleição presidencial hondurenha em 2025 com aproximadamente 40,3% dos votos, derrotando Salvador Nasralla, do Partido Liberal, que recebeu cerca de 39,5%.
A candidata governista Rixi Moncada, do partido Libre, ficou na terceira posição. A vitória de Asfura encerrou o governo de Xiomara Castro, eleita em 2021.
Chile 2025 - Alternância de poder
José Antonio Kast, do Partido Republicano, venceu o segundo turno presidencial chileno de 2025 com aproximadamente 58% dos votos, derrotando Jeannette Jara, candidata do Partido Comunista apoiada pela coalizão governista do presidente Gabriel Boric.
Jara recebeu cerca de 42% dos votos. A vitória marcou o retorno da direita à Presidência chilena.
Costa Rica 2026 – Continuidade
Laura Fernández, do Partido Pueblo Soberano, venceu a eleição presidencial costarriquenha no primeiro turno, com aproximadamente 48% dos votos, derrotando Álvaro Ramos, do Partido Libertação Nacional.
A Constituição exige pelo menos 40% dos votos válidos para a vitória em primeiro turno. Fernández havia sido ministra do Planejamento e da Presidência e recebeu apoio direto do presidente Rodrigo Chaves.
Peru 2026 - Alternância de poder
Keiko Fujimori venceu o segundo turno presidencial peruano com 50,13% dos votos, derrotando Roberto Sánchez, que recebeu 49,86%.
A diferença foi de aproximadamente 50 mil votos, em um universo de cerca de 18 milhões.
A vitória foi confirmada oficialmente em 3 de julho, depois de semanas de análise de votos contestados, protestos e acusações de fraude. Filha do ex-presidente e ditador Alberto Fujimori, Keiko conquistou a Presidência em sua quarta candidatura, depois de derrotas em 2011, 2016 e 2021.
Colômbia 2026 - Alternância de poder
Abelardo de la Espriella venceu o segundo turno presidencial colombiano, derrotando o senador Iván Cepeda, candidato de esquerda associado ao governo de Gustavo Petro.
Na apuração preliminar, De la Espriella recebeu 49,66% dos votos, contra 48,70% de Cepeda, uma diferença de aproximadamente 250 mil votos.
A disputa ocorreu ao final do primeiro governo de esquerda da história recente colombiana.