Justiça de SP barra despejo de clube de futebol de várzea do Campo de Marte
11/05/2026
(Foto: Reprodução) Grupo se apresenta no Samba do Cruz, na Zona Norte de São Paulo
Divulgação/G.E.R Cruz da Esperança
Uma decisão judicial da última sexta-feira (8) garantiu fôlego ao Grêmio Esportivo Cruz da Esperança na disputa que trava com a Prefeitura de São Paulo pelo uso de sua sede, localizada no Campo de Marte, na Zona Norte da cidade. Ameaçado de despejo, o clube de futebol de várzea conseguiu uma liminar que suspende os planos de desocupação do terreno pela administração municipal.
Pela decisão da 11ª Vara de Fazenda Pública, a prefeitura fica proibida de promover demolições, cercamentos, restrições de acesso ou qualquer ato que interrompa as atividades esportivas e culturais desenvolvidas pelo Cruz da Esperança – interrompendo a contagem regressiva iniciada em 26 de março, quando a Justiça paulista deu prazo de 60 dias para desocupação total da área.
Ao analisar o pedido do clube, a juíza Renata Yuri Tukahara Koga considerou que não há, até o momento, documentação suficiente para comprovar que a área ocupada pela agremiação está efetivamente incluída nas intervenções previstas para o futuro Parque Campo de Marte – o complexo de lazer será implementado pela iniciativa privada, que no ano passado assinou um contrato de concessão de 35 anos com a prefeitura.
Time de futebol de várzea corre risco de despejo após concessão do Campo de Marte
A magistrada também levou em conta documentos e relatos que indicam ocupação histórica da área pelo Cruz da Esperança, fundado em 1958 por taxistas negros. O entendimento preliminar é de que o espaço extrapola o uso esportivo e funciona como ponto de convivência comunitária, com relevância social e cultural, especialmente para a população afrodescendente da região.
O Ministério Público de São Paulo se manifestou a favor da liminar, por considerar que uma eventual retirada antes da definição clara dos limites do terreno poderia causar danos irreversíveis.
Para derrubar a liminar, o município terá que apresentar estudos técnicos mostrando exatamente quais áreas serão afetadas pelas obras do parque e demonstrar que o clube teve chance de se manifestar e se defender antes de qualquer intervenção. A administração municipal foi questionada, mas não respondeu, até a publicação desta reportagem, se recorrerá da decisão.
A concessionária Campo de Marte também foi procurada, mas ainda não se manifestou. Em ocasião anterior, porém, disse que manteve diálogo com todos que se dispuseram a conversar e que o novo parque será projetado para receber "tanto os que já frequentaram a área, quanto os que passarão a frequentá-la após a inauguração".
Segundo a prefeitura, o espaço precisa estar totalmente desocupado para ser repassado à concessionária responsável pelo projeto, que prevê investimento de cerca de R$ 202 milhões pelo direito de exploração comercial da área por 35 anos. O Consórcio Cântaro é formado pelo mesmo grupo empresarial da Allegra Pacaembu, que administra o estádio municipal.
Fim das atividades culturais
Muro da sede do clube de futebol de várzea Cruz da Esperança
Reprodução/TV Globo
O clube vem alertando, nos últimos meses, que a saída colocaria em risco não apenas o futebol, mas também atividades culturais realizadas no local, como o tradicional Samba do Cruz, que acontece aos fins de semana e ajuda a sustentar financeiramente a agremiação.
A concessionária chegou a propor um acordo para que o Cruz da Esperança saísse voluntariamente, mas o modelo garantia apenas o uso do campo de futebol, colocando em risco a principal fonte de renda do clube.
Para Antônio de Jesus Marcos, presidente do Cruz da Esperança, a decisão traz alívio momentâneo e tempo para que outros recursos na Justiça avancem. "É uma luta que a gente ganhou o primeiro round, vamos ver se a gente continua na luta ganhando os próximos", disse ele ao g1.
Concessão do Parque Municipal Campo de Marte
Reduto do futebol de várzea
O Campo de Marte foi um dos principais redutos do futebol de várzea da cidade, abrigando seis campos de futebol amador e as sedes de seus clubes desde a década de 1970. As atividades eram mantidas com autorização da Aeronáutica, que detinha a posse do terreno ao lado do aeroporto de mesmo nome. Desde o início do ano, porém, um dos times já foi removido e outros quatro aceitaram acordos para desocupação voluntária, com a promessa de uso futuro do espaço.
Em 2022, um acordo entre a Prefeitura de São Paulo e a União resolveu um impasse judicial que se arrastava desde a década de 1950 e transferiu parte do terreno ao município, abrindo caminho para a concessão.
Pelo acerto, firmado após décadas de litígio, a gestão municipal teve uma dívida de R$ 25 bilhões com o governo federal extinta, enquanto a Aeronáutica manteve a maior parte da área do aeroporto e a prefeitura passou a ter a posse de cerca de 400 mil metros quadrados
Diante da ameaça de despejo, o Cruz da Esperança lançou um abaixo-assinado pedindo o reconhecimento como patrimônio cultural da cidade. Até esta segunda-feira (11), o documento tinha 26 mil assinaturas virtuais.
Campo de futebol de várzea no antigo reduto do Campo de Marte, que será transformado em parque
Reprodução/TV Globo