Julio Casares renuncia à presidência do São Paulo em dia de operação no Morumbis e após processo de impeachment
21/01/2026
(Foto: Reprodução) Polícia faz operação contra venda ilegal de camarotes no Morumbis, estádio do time do São Paulo
Julio Casares renunciou à presidência do São Paulo Futebol Clube nesta quarta-feira (21), cinco dias após o Conselho Deliberativo do time aprovar a abertura do processo de impeachment. Ele havia sido afastado do cargo com a decisão do conselho.
Em carta aberta publicada em suas redes sociais, Casares afirmou que a renúncia “não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações” e disse que a decisão foi tomada pela “necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas”.
Mais cedo, a polícia realizou uma operação contra a venda ilegal de camarotes no estádio do Morumbi — um dos episódios que motivaram o pedido de impeachment do agora ex-presidente (veja abaixo).
Confira a íntegra da carta:
"Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.
Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institucional legítimo.
O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.
Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes.
Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilosa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube — fatos que o tempo e a história haverão de registrar.
Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal.
Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.
Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um ambiente já contaminado por narrativas previamente construídas.
Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.
A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.
Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.
Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.
Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.
Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.
Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clube, aos quais manifesto meu respeito e confiança.
Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição.
Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.
Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.
Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.
Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei.
Júlio Casares"
Operação contra venda ilegal de camarotes
O Morumbis, estádio do São Paulo, virou uma "gigantesca máquina de caça-níqueis" que favoreceu algumas pessoas e não o clube de futebol, segundo um dos promotores à frente da operação do Ministério Público e da Polícia Civil contra a venda ilegal de camarotes, realizada nesta quarta-feira (21).
Foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão. Entre os alvos estavam Douglas Schwartzmann, diretor-adjunto de futebol de base do São Paulo, e Mara Casares, ex-esposa de Julio Casares, presidente afastado do clube, e que atuava como diretora feminina, cultural e de eventos. Outro alvo era Rita Adriana, a pessoa acusada de negociar ilegalmente os camarotes.
As evidências que foram trazidas hoje mostram com segurança para a polícia e o Ministério Público que a arena Morumbi, em razão de shows seguidos foi transformada, na verdade, em uma gigantesca máquina de caça-níqueis que favoreceram pessoas especificamente e não o clube, que é vítima de tudo o que está acontecendo.
Por meio de nota, o São Paulo Futebol Clube disse que "é vítima neste caso e vai contribuir com as autoridades na investigação".
Em dezembro do ano passado, o ge divulgou áudios em que Douglas fala sobre a divisão de lucros do esquema. “Teve negócio aí que você ganhou dinheiro, eu ganhei, todo mundo ganhou, mas foi feito tudo na confiança”, diz ele em um dos trechos.
Ele e Mara pediram licença dos cargos. Os advogados negam as acusações e afirmam que os áudios foram retirados de contexto.
Morumbis, estádio do São Paulo
Marcos Ribolli
Adriana não foi encontrada no endereço alvo da operação. Segundo os filhos dela presentes no local, ela mora em outro imóvel. No local, porém, a polícia encontrou anotações que vão ajudar na investigação.
Douglas também não foi encontrado em casa, pois ele está em viagem ao exterior. As equipes foram atendidas pelos filhos do investigado.
Na residência de Mara Casares, ela estava no local, onde foram apreendidos cerca de R$ 20 mil em espécie, além de farta documentação e uma CPU.
Parte interna do estádio do Morumbis, na Zona Sul de São Paulo.
Rubens Chiri/Divulgação/SPFC
Impeachment de Casares
O São Paulo Futebol Clube atravessa uma das maiores crises políticas e institucionais de sua história recente. O clube é alvo de investigações da Polícia Civil, enfrenta sucessivos escândalos internos e teve o presidente Julio Casares afastado do cargo em uma votação de impeachment no Conselho Deliberativo.
Paralelamente ao processo político interno, a Polícia Civil de São Paulo abriu um inquérito para apurar possíveis crimes envolvendo a gestão do clube. Casares poderá responder por associação criminosa, furto qualificado e apropriação indébita. O SPFC é considerado vítima.
Julio Casares, presidente do São Paulo Futebol Clube.
Reprodução/TV Globo/Fantástico
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Segundo a investigação, entre 2021 e 2025 foram realizados saques em dinheiro vivo que somam cerca de R$ 11 milhões das contas do clube. Inicialmente, os valores eram retirados por funcionários do São Paulo. Depois, passaram a ser sacados por uma empresa de transporte de valores.
O destino do dinheiro ainda é desconhecido.
Ainda de acordo com a polícia, nesse mesmo período, houve depósitos na conta pessoal de Julio Casares que totalizam cerca de R$ 1,5 milhão.
O advogado do presidente, Bruno Borragini, negou qualquer relação entre os saques do clube e os depósitos na conta de Casares.
“Não há uma relação de vinculação, nem direta nem indireta, entre os saques do São Paulo e as entradas em espécie na conta do Julio”, afirmou ao Fantástico.
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Divulgação/São Paulo Futebol Clube
A defesa também argumenta que Casares, antes de assumir a presidência, atuava como publicitário e recebia parte de sua remuneração em dinheiro vivo, o que explicaria os depósitos.
O advogado do clube, Pedro Iokoi, justificou os saques em espécie alegando que algumas despesas do futebol exigem pagamento em dinheiro, como arbitragem e premiações aos jogadores.
Na semana passada, o São Paulo contratou peritos para reunir notas fiscais e tentar comprovar a destinação dos valores.
A crise institucional se soma a uma temporada sem títulos e marcada por outros episódios polêmicos. Em 2025, ao menos dois atletas receberam aplicações de canetas emagrecedoras adquiridas de um vendedor sem autorização da Anvisa.
O responsável, o nutrólogo Eduardo Rauen, teve o contrato rescindido após enviar uma carta ao departamento jurídico do clube, comunicando sua decisão de se desligar.