Juiz de Fora está entre as cidades com maior população em áreas de risco; entenda os motivos
27/02/2026
(Foto: Reprodução) A casa da Ana Paula, no Parque Burnier, fica numa rua próxima à área onde 12 casas desabaram. A comerciante relata que o bairro da região Leste de Juiz de Fora cresceu de forma desordenada. Ela afirmou que nunca pagou o IPTU:
"Foi tudo irregular. O pessoal foi ganhando lote porque não tinha para onde ir. Foi ganhando um pedacinho, um pedacinho, todo mundo foi construindo de acordo com o que deu. Nunca veio prefeitura aqui".
Juiz de Fora está entre as cidades brasileiras com maior população em áreas de risco de deslizamentos, enchentes e enxurradas, de acordo com o Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden). O relevo da cidade e a forma de ocupação, com a enorme concentração de casas em morros e na beira de encostas, estão entre os motivos dessa tragédia no entendimento de especialistas.
"São áreas sensíveis, né? Áreas frágeis. É a inclinação, né? Ela tem uma influência muito forte nesse movimento de massa, nesse escorregamento, deslizamento".
Juiz de Fora tem construções em encostas, por isso está entre as cidades com maior população em áreas de risco
Reprodução/TV Globo
As mortes em Juiz de Fora ocorreram numa mesma faixa da cidade, num raio de 10 quilômetros. O Parque Burnier é a área mais atingida e que teve o maior número de vítimas. A encosta deslizou arrastando casas. O vizinho é o Costa Carvalho, também cercado de morro na região central; a lama desceu sobre as moradias.
No bairro Paineiras, mais distante, já na Zona Norte da cidade, fica o Cerâmica. Outra área com muitas encostas. Depois vem o Santa Rita, no mesmo conjunto de relevo acidentado, e mais abaixo fica a Vila Ideal, mais um bairro que surgiu entre morros instáveis.
A 110 quilômetros de Juiz de Fora está Ubá. A cidade fica num vale estreito; o Rio Ubá transbordou e a maioria das vítimas morreu afogada. A coordenadora do Laboratório de Climatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, Cássia Ferreira, relata outra característica dessas moradias: não há estrutura de contenção nas encostas.
Locais de mortes em Juiz de Fora por causa da chuva
Reprodução/TV Globo
"Uma construção para fazer uma encosta, na hora que ele faz o corte do terreno lá atrás, ele tem que obedecer um talude, né? Não pode fazer ele na vertical. A água servida da casa não pode cair na encosta porque senão ela vai já gerando um processo erosivo. Esse solo que ele retira para construção não pode ser jogado na encosta".
O coordenador-geral do Centro de Estudos das Cidades do Insper, Tomás Alvim, avalia que o planejamento para reconstrução das cidades devastadas vai ter que levar em conta os atuais desafios climáticos e que o poder público precisa oferecer alternativas para que esses moradores não voltem a viver em áreas de risco.
"A gente tem hoje é que adequar também os nossos padrões construtivos e os próprios padrões de urbanização, né, de zoneamento. A partir dessa nova realidade, essas regiões não são mais habitáveis. Essas regiões não são factíveis de se produzir habitação e esses novos padrões estatísticos têm que ser analisados para uma tomada de decisão que seja baseada em ciência, em evidência, e que possa de fato produzir soluções mais permanentes, mais resilientes, né, mais sustentáveis, mas também mais inclusivas".
A Prefeitura de Juiz de Fora declarou que está finalizando o diagnóstico dos planos regionais de estruturação urbana para frear o máximo a expansão desordenada e que vai ampliar o controle municipal. A prefeitura afirmou ainda que as diversas áreas da cidade recebem visita constante de equipes de fiscalização e de posturas.