Irã já teve cultura liberal e mulheres de minissaia, mas com maioria pobre e sob monarquia violenta; veja imagens
02/03/2026
(Foto: Reprodução) Irã antes da Revolução de 1979: um país aberto ao ocidente, mas sob uma monarquia absolutista violenta
Reprodução / Fantástico
Imagens do Irã antes da Revolução de 1979 apresentam um país moderno, com jeito ocidental, mulheres de minissaia nas grandes cidades — um contraste com a polícia de costumes de hoje, que hoje espanca e mata mulheres que se recusem a usar o véu.
Mas era também uma monarquia absolutista violenta com maioria da população pobre.
"Esse mesmo governo do xá, que tem essa imagem liberal, essa imagem de ter sido um governo tolerante, é governo que tinha a polícia política, que tinha prisões, que tinha torturas, que tinha centros de tortura em que pessoas desapareciam", destaca Figueiredo.
A dinastia Pahlavi tomou o poder num golpe militar há 100 anos. O primeiro monarca, avô do candidato ao trono, ficou no comando até a Segunda Guerra Mundial.
Numa posição geográfica estratégica — entre a União Soviética e o Império Britânico —, o Irã foi ocupado por ambos, então aliados.
Os britânicos tinham um interesse adicional: o acesso ao petróleo iraniano, ameaçado em 1951.
"Os iranianos elegem um líder social-democrático que vai buscar a nacionalização do petróleo como meio de garantir o desenvolvimento do país, como meio de garantir divisas para o desenvolvimento e industrialização do Irã", diz o historiador.
Dois anos depois, apoiado pelos ingleses, o xá dá um golpe e depõe o primeiro-ministro.
"Como consequência desse golpe, nós vamos ter uma concentração de poderes na mão da monarquia, na mão do xá".
A crise atual do regime fez ressurgir a figura de Reza Pahlavi, filho de Mohamed Reza Pahlevi, o último xá do Irã e último líder antes da Revolução de 1979. Veja vídeo abaixo do Fantástico:
Quem pode liderar o Irã agora? Herdeiro da antiga monarquia quer comandar transição de poder no país
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A Revolução Islâmica
Na noite deste sábado, as cenas de pessoas comemorando a morte do aiatolá Khamenei lembraram as celebrações de 1979, quando a revolução depôs o xá Reza Pahlevi. Lá estavam unidas a esquerda, os democratas e os religiosos.
No primeiro ano da revolução, o poder ainda era fragmentado, como ficou evidente quando um grupo de estudantes tomou a embaixada americana e fez dezenas de reféns.
"A república islâmica, embora tenha sido declarada em 1979, só é efetivamente consolidada em 1982", esclarece Paulo Hilu.
É quando o religioso xiita, aiatolá Khomeini, vira o líder supremo: uma espécie de chefe de estado, com poder sobre as forças armadas.
O presidente é eleito, mas só pode concorrer quem tem a aprovação do clérigo.
"O presidente governa. Ele decide os ministérios, qual vai ser a política, a política pública de saúde. Só que o presidente não controla as Forças Armadas, que é um elemento fundamental do poder. É importante entender que o estado iraniano é organizado de uma maneira em que o poder é extremamente fragmentado em diversas estruturas políticas", diz Hilu.
O Irã de Khamenei
Com a morte do aiatolá Khomeini em 1989, assumiu o aiatolá Ali Khamenei, morto nos ataques deste sábado por inimigos que Khamenei alimentou em quase 50 anos ao se opor à hegemonia americana e israelense na região. Ao mesmo tempo, ele criava inimigos internos com a repressão violenta.
"A repressão política existia, porém, a grande diferença para o regime pós-1979 e especialmente para o Irã pós-guerra com o Iraque, pós-1988, certamente, é a violência de gênero", aponta Figueiredo.
Violência voltada especialmente às mulheres. A morte da jovem curda Mahsa Amini, em 2022, espancada por se recusar a usar o véu, levou a uma série de protestos no país.
A repressão aos manifestantes, com milhares de pessoas mortas, pode explicar as comemorações à morte de Khamenei.
Mas quais são as chances desse país, com tantas etnias e religiões e quase 100 milhões de habitantes, sair dessa guerra sem cair em outra ditadura?
"Existem pessoas que batalham para isso. Você tem grandes pensadores políticos, você tem grandes atores políticos, você tem pessoas que atuaram, inclusive, dentro da própria estrutura da república islâmica, que tentaram efetivamente levar a uma direção mais democrática. Então, sim, existe um setor da sociedade que é secular, secularizado, existe um pluralismo de formas de entender o que é religião. Então, sim, existem todas as condições, mas isso é possível se houver uma transição real a um regime realmente inclusivo e democrático", comenta Hilu.
Volta do xá?
Quase cinquenta anos depois da revolução dos aiatolás, o príncipe da antiga monarquia anunciou que se dispõe a liderar uma transição. Um cenário improvável, na opinião dos especialistas.
Entre a memória do regime do xá, a repressão da república islâmica e uma sociedade marcada por divisões e protestos, o país se vê diante da mesma encruzilhada de 1979.
Mal começaram os bombardeios neste sábado (28), e um homem, de postura solene, gravou uma mensagem em persa ao povo do Irã:
"A ajuda que o presidente dos estados unidos da américa prometeu ao bravo povo iraniano acaba de chegar", disse Reza Pahlavi.
Reza Pahlavi é filho de Mohamed Reza Pahlevi, o último xá do Irã. Em persa, o xá é o rei dos reis.
"Eu espero estar ao seu lado o mais breve possível para que, juntos, possamos retomar o Irã e reconstruí-lo".
O autointitulado príncipe do Irã, exilado aos 18 anos com o próprio pai, que havia sido deposto pela revolução, tem se apresentado como a salvação de um país em crise.
"Eles me convocaram. Eu vou voltar ao Irã e garantir uma transição estável", apontou o Pahlavi.
Mas quem está querendo a volta da monarquia? O principal apoio vem de fora, dos iranianos que foram exilados com a família real.
"Essa comunidade da diáspora é uma grande apoiadora da família da dinastia Pahlavi. Já dentro do Irã, a situação é mais multifacetada. O apoio a ele já não é tão grande assim", explica o historiador especialista em política internacional Filipe Figueiredo.
O analista Paulo Hilu diz que a monarquia teria apoio de alguns setores, como os comerciantes, e se favorece da falta de memória. A maior parte da população nasceu e cresceu depois da revolução que depôs o xá em 1979.
"Na verdade, o príncipe não é nenhuma alternativa, ele representa justamente esse descrédito geral das figuras políticas dentro do Irã. Tendo dito isso, ele voltar sobre bombas americanas israelenses e tanques americanos israelenses, obviamente, não vai garantir com ele nenhuma legitimidade", comenta o coordenador do núcleo de estudos do Oriente Médio na Universidade Federal Fluminense (UFF).
O que se espera para o futuro do Irã?
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