Investigação da BBC revela que anúncios pagos no Facebook espalham desinformação em eleição na Sérvia
24/10/2026
(Foto: Reprodução) Anunciantes e apresentadores da Romênia foram identificados por trás de propaganda política na Sérvia
Ilustração por Jakov Ponjavić a partir de imagens do Facebook, Getty Images e BBC
O Serviço Mundial da BBC identificou dezenas de páginas no Facebook que, nas semanas anteriores à eleição parlamentar antecipada na Sérvia, publicaram anúncios políticos pagos tendo como alvo o movimento estudantil e contendo acusações sem comprovação contra opositores políticos.
Embora tivessem conteúdo político, os anúncios não informavam claramente quem os financiou, como exigem as políticas da Meta, empresa dona do Facebook.
Em 56 páginas identificadas pela BBC, foram publicados ao menos 90 anúncios nas plataformas da Meta entre meados de setembro e meados de outubro. A empresa removeu 47 anúncios dessas páginas ao longo do último mês.
Em todos os casos, os anunciantes deixaram de classificá-los como conteúdo relacionado a "questões sociais, eleitorais ou políticas".
Quando um anúncio é removido, mais informações sobre ele passam a ficar disponíveis na Biblioteca de Anúncios da Meta.
Embora a lei sérvia de financiamento de atividades políticas proíba recursos estrangeiros em propaganda política, a BBC constatou que todos esses anúncios foram pagos em moeda romena, o leu ("lei", no plural). Até 16 de outubro, os gastos somavam ao menos 29.437 lei, o equivalente a cerca de R$ 30 mil.
Segundo dados da Meta, ao menos três anúncios foram pagos por uma empresa da Romênia, país vizinho da Sérvia.
Todo anúncio pago no Facebook está vinculado a uma página. Em texto, imagem ou vídeo, eles podem alcançar públicos muito além da audiência orgânica da página.
A propaganda política é permitida nas plataformas da Meta na Sérvia, mas as regras de transparência variam conforme quem financia a campanha.
Partidos políticos precisam declarar gastos de campanha. Já os chamados "terceiros" — páginas que promovem conteúdo eleitoral sem vínculo direto com partidos — devem reportar à Agência Anticorrupção antes de gastar acima do limite legal em campanhas online.
Até agora, porém, nenhuma comunicação desse tipo foi registrada.
As eleições parlamentares da Sérvia ocorrerão neste domingo (25/10), assim como o segundo turno da eleição presidencial no Brasil — em que disputam Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A atuação da Meta também passou a ser questionada em meio à corrida eleitoral brasileira.
Nesta sexta-feira (23), o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a Meta e o X prestem esclarecimentos em 24 horas sobre suas regras para uso de inteligência artificial (IA), distribuição de conteúdos políticos, veiculação de anúncios eleitorais e remoção de publicações.
Em 20 de outubro, o Comitê de Supervisão de Conteúdo da Meta, formado por consultores externos e independentes, manifestou preocupação com "falhas recorrentes" da empresa em padrões de transparência durante a eleição.
Segundo o comitê, as falhas na moderação de conteúdo costumam se manifestar de duas formas: aplicação excessiva das regras, que suprime a manifestação política, e aplicação insuficiente das regras, que compromete a integridade eleitoral.
"A aplicação excessiva das políticas antifraude da Meta às contas de anúncios do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, representa uma falha que deveria ter sido encaminhada a uma equipe interna de especialistas responsáveis pela análise de conteúdo."
Um levantamento feito pela organização CTRL+Z e obtido pela BBC News Brasil reuniu mais de mil casos, no Instagram, de remoção de publicações, restrições a contas e queda de alcance de perfis que postaram sobre eleições no Brasil.
O relatório aponta que as denúncias atingem principalmente perfis de apoio a Lula. Mas também há relatos no levantamento, em menor quantidade, de restrições a publicações contrárias ao presidente.
Enquanto isso, a campanha de Flávio Bolsonaro tem questionado na Justiça a atuação do canal "Exército do Lula", no WhatsApp, também de propriedade da Meta. O canal é administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG).
'Perfume do Quintal da Vovó': acusações contra a oposição sob uma camada de nostalgia
A eleição parlamentar da Sérvia deste domingo é considerada a mais importante desde que o Partido Progressista Sérvio (SNS) chegou ao poder, em 2012.
A disputa é dominada pela Sérvia Unida, coalizão liderada pelo SNS, e pelo grupo Estudantes Vencerão, ligado ao movimento estudantil de oposição.
O pleito ocorre quase dois anos após o desabamento da marquise recém-reformada da estação ferroviária de Novi Sad, em 1º de novembro de 2024, quando 16 pessoas morreram e uma mulher ficou gravemente ferida.
A tragédia desencadeou meses de protestos em massa e bloqueios universitários, em meio a acusações de corrupção contra o governo. Até hoje, ninguém foi condenado pelo caso.
A maior parte das páginas identificadas pela BBC foi criada em 9 e 10 de setembro, exatamente quando as eleições foram convocadas.
As fotos de perfil foram geradas por IA e os nomes não tinham relação com política, como "Perfume do Quintal da Vovó" ou "Assuntos para o Café".
Essas 56 páginas foram extremamente ativas, publicando mais de 800 vídeos curtos contra candidatos do movimento Estudantes Vencerão e políticos da oposição.
Alguns vídeos acumularam milhões de visualizações, embora as páginas tivessem apenas algumas dezenas de seguidores. A promoção paga ajudou esses conteúdos a alcançar um público maior.
"Ao pagar por anúncios, você alcança uma audiência muito mais ampla do que com conteúdo orgânico", explica à BBC Sam Jeffers, fundador do grupo de monitoramento de propaganda política Who Targets Me.
Segundo ele, esse investimento também permite direcionar mensagens específicas para grupos demográficos determinados.
Um porta-voz da Meta afirmou que "anunciantes que desejam veicular conteúdos sobre questões sociais, eleições ou política precisam passar por um processo de autorização e informar quem pagou pelo anúncio".
Segundo a empresa, parte dos anúncios já havia sido removida antes do contato da BBC. Os demais foram retirados por terem sido publicados sem a autorização e a identificação exigidas.
Os vídeos frequentemente tinham como alvo lideranças do movimento estudantil, retratadas como violentas ou irresponsáveis.
Em alguns casos, candidatos eram acusados de abuso de poder ou uso indevido de dinheiro público, mas sem qualquer evidência de irregularidade apresentada.
Um vídeo visto milhões de vezes atacava a fé muçulmana da candidata de oposição Sanela Ramadanović. A maioria da população da Sérvia segue o cristianismo ortodoxo.
Ao longo de outubro, o conteúdo circulou em várias páginas acompanhado da pergunta: "Ela deveria liderar a Sérvia?". Nos comentários, havia centenas de mensagens de ódio.
Muitos dos vídeos seguiam um formato semelhante: tela dividida, com imagens na parte superior e um apresentador na aba inferior, aparentemente lendo um teleprompter.
Embora os rostos parecessem reais, as vozes e os gestos frequentemente soavam artificiais para falantes de sérvio. Em alguns casos, a pronúncia tinha tom robótico. Uma mulher apareceu em três vídeos diferentes, cada um com uma voz completamente distinta.
Outro jovem, usando microfone de lapela e gravado diante de um fundo branco, apareceu em 29 páginas diferentes. Em um vídeo de setembro, ele afirmava que o reitor da Universidade de Belgrado, Vladan Đokić, teria apresentado uma viagem particular como se fosse uma conferência e que havia sido visto no Rio de Janeiro.
O vídeo incluía uma imagem falsa, mostrando Đokić em uma praia, cercado por cédulas de dinheiro e segurando uma taça de champanhe. Acusações semelhantes já haviam sido publicadas por tabloides pró-governo no fim de agosto.
Embora tenha se tornado uma figura importante do movimento estudantil, Đokić não é candidato nas eleições parlamentares.
No fim de setembro, a Universidade de Belgrado informou que ele participou do Congresso Internacional de Arquitetura e Urbanismo em Brasília.
A Universidade de Belgrado é a maior e mais influente instituição acadêmica da Sérvia.
A sigla governista SNS não respondeu aos questionamentos da BBC sobre os anúncios.
Quem são os apresentadores?
A BBC conseguiu identificar três dos muitos apresentadores que aparecem nos vídeos. Entre eles estavam animadores infantis da região de Bucareste, capital da Romênia.
Uma mulher confirmou ser a pessoa mostrada em um dos vídeos, mas disse nunca ter autorizado o uso de sua imagem e afirmou não saber de onde o material foi obtido.
Ela acrescentou que não participa da política, especialmente de um país estrangeiro.
Outro apresentador é um vereador filiado ao partido Aliança para a União dos Romenos (AUR). A BBC tentou contatá-lo, mas não obteve resposta.
A conexão romena
Outros rastros digitais também apontam para o país vizinho da Sérvia.
Em ao menos três anúncios, a empresa romena Bmobile SRL aparecia tanto como anunciante quanto como responsável pelo pagamento.
Os três foram publicados logo após a convocação das eleições e posteriormente removidos pela Meta por não terem sido identificados como conteúdo político.
A descoberta foi divulgada inicialmente pelo fórum de cibersegurança Bezbedan Balkan.
Um dos anúncios repetia a acusação sobre a viagem do reitor Vladan Đokić ao Brasil.
A BBC procurou a Bmobile, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.
Os anúncios foram veiculados pela página do Facebook Južna pruga ("Ferrovia do Sul"), que continua ativa.
Em vez de publicar "fotos antigas e histórias de infância", como sugeria sua descrição, a página divulgou mais de 20 vídeos atacando diferentes candidatos da oposição.
Alguns tiveram milhões de visualizações, apesar de a página ter cerca de 100 seguidores. Segundo a Biblioteca de Anúncios da Meta, a administração da página está localizada na Romênia e na França. Os responsáveis pela página também não responderam às mensagens da BBC.
Embora todos os vídeos posteriormente removidos tenham sido pagos em moeda romena, isso por si só não comprova a localização do anunciante, pois em anúncios não políticos a escolha da moeda pode ser feita livremente pelo anunciante.
Segundo Nemanja Nenadić, diretor da Transparência Sérvia, cidadãos e empresas estrangeiras são proibidos de financiar propaganda política no país.
Se os anúncios realmente foram pagos do exterior, isso indicaria o envolvimento de pessoa física ou jurídica estrangeira, afirmou ele à BBC.
Registros empresariais da Romênia mostram que a Bmobile pertence a Andrei Bușe. A empresa foi fundada em 2005 na cidade de Craiova, no sul do país, e atua na área de marketing digital.
Os registros apontam que ela permaneceu ativa durante 2024 e 2025.
Nas eleições presidenciais romenas de 2025, um de seus clientes foi o ex-primeiro-ministro Victor Ponta, candidato independente, segundo a organização de pesquisa em políticas públicas Expert Forum.
Dados de financiamento de campanha obtidos pela entidade indicam que a Bmobile recebeu cerca de € 960 mil, ou R$ 5,3 milhões, para administrar a campanha digital de Ponta.
Ponta tornou-se conselheiro honorário do presidente sérvio Aleksandar Vučić em 2016 e obteve cidadania sérvia em 2018.
Segundo a imprensa local, sua visita mais recente a Belgrado ocorreu em 2025, quando se encontrou com Donald Trump Jr., filho do presidente americano.
O papel dos 'terceiros' nas campanhas eleitorais
Desde 2026, páginas que promovem conteúdo eleitoral na Sérvia sem vínculo direto com partidos precisam se registrar junto à Agência Anticorrupção caso pretendam gastar mais do que um quarto do salário médio mensal do país (cerca de € 300 euros, ou R$ 1,6 mil).
A BBC identificou ao menos quatro páginas que ultrapassaram esse limite. Todos os anúncios foram pagos em leu romeno, e os gastos só se tornaram públicos após a remoção dos conteúdos pela Meta.
Após analisar diversos exemplos, Nemanja Nenadić afirmou "não haver dúvidas". "É exatamente isso que a Lei de Financiamento de Atividades Políticas, após as alterações aprovadas em junho de 2026, define como campanha de terceiros."
A Agência Anticorrupção informou à BBC que não recebeu nenhum pedido de registro de terceiros relacionado à atual campanha eleitoral.
Caso sejam abertas investigações, as punições poderão variar conforme o envolvimento seja considerado individual ou associado a um partido político.
Nenadić defende que a agência atue de forma proativa para reunir provas sobre campanhas não registradas.
O órgão confirmou ter recebido duas denúncias de possíveis irregularidades relacionadas a campanhas de terceiros e informou que abriu uma investigação. Os dois casos envolvem propaganda digital, mas mais detalhes não foram divulgados.
Entre 16 de setembro e 15 de outubro, os partidos políticos gastaram mais de € 268 mil, o equivalente a cerca de R$ 1,4 milhão, nas plataformas da Meta.
Segundo a empresa, o Partido Progressista Sérvio (SNS) desembolsou ao menos € 105 mil euros (R$ 580 mil), enquanto o grupo Estudantes Vencerão gastou mais de € 122 mil euros (R$ 680 mil).
Também há páginas de ambos os lados do espectro político que identificaram seus anúncios como conteúdo eleitoral, mas não se registraram oficialmente como terceiro
*Com reportagem adicional de Mariana Alvim, da BBC News Brasil em São Paulo