'Guerra não é videogame': embaixador do Brasil no Irã relata explosões, tremor de paredes e mortes no conflito

  • 16/04/2026
(Foto: Reprodução)
André Veras Guimarães, embaixador do Brasil em Teerã Geraldo Magela/Agência Senado "Guerra não é videogame." Assim o embaixador do Brasil em Teerã, André Veras Guimarães, 59 anos, sintetiza o que viu, ouviu e sentiu durante as primeiras semanas da Guerra do Irã, quando bombardeios cotidianos dos Estados Unidos e Israel destruíram alvos na capital e no resto do país. Morador do último andar de um prédio residencial, Veras perdeu as contas das vezes em que, ao longo desse período, despertou de madrugada com estrondos e tremor de paredes e assistiu, pela janela, à explosão de prédios. "Ninguém consegue passar incólume por uma situação dessas. Eu vejo aqui tudo acontecendo", afirma o diplomata, por telefone, à BBC News Brasil durante entrevista na última terça-feira (14/4), quando o conflito completou 46 dias. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Em meio a negociações de paz, escalada de tensão entre EUA e Irã se intensifica, e Trump manda mais tropas para o Oriente Médio Veja os vídeos que estão em alta no g1 Ele lembra que, pela estimativa mais recente do governo do Irã, a guerra já causou a morte de mais de 3,5 mil iranianos em investidas que nada têm de precisas ou cirúrgicas, apesar de "toda a tecnologia existente, de satélites a detectores de calor". "Uma autoridade iraniana morta em um bombardeio leva consigo mais 15 pessoas, outros tantos feridos e muitas estruturas destruídas", afirma o embaixador. Veras cita o exemplo da Escola Primária Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, para assinalar que, por vezes, os alvos atingidos são pouco ilustres, e o número de vítimas, mais elevado. No primeiro dia da guerra, a instituição foi destruída por um míssil americano, deixando 175 mortos, a maioria meninas. Questionado sobre o incidente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse: "Eu não sei nada sobre isso". Veras critica a definição de "dano colateral", frequentemente invocada em referência a ataques a alvos civis, como uma maneira de "suavizar o impacto e humanizar a guerra". "Dano colateral é a destruição de prédios que não eram os alvos [militares]. Dano colateral são os feridos, os mortos. Dano colateral é o hospital atingido porque o prédio ao lado foi atacado. São os ataques a universidades, casas de professores, cientistas", desabafa. E acrescenta: "É muito importante que a gente pense na normalização de certos atos e no apoio a certas medidas que não queremos [que aconteçam] no nosso próprio país". Um levantamento do jornal The New York Times identificou danos a 22 escolas e 17 instituições de saúde desde o início do conflito. A verificação foi feita com base em imagens de satélite de alta resolução e na checagem de vídeos da mídia estatal e de redes sociais como o X. Mas os estragos podem ser ainda maiores. A Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano, principal organização humanitária do Irã, afirmou em 2 de abril que ao menos 763 escolas e 316 unidades de saúde foram danificadas ou destruídas desde o início do conflito. No primeiro dia dos ataques, uma escola foi atingida por um míssil americano, deixando dezenas de crianças mortas Reuters A rotina de bombardeios interrompeu-se no dia 7 de abril, quando Estados Unidos e Irã anunciaram um cessar-fogo de duas semanas, condicionado à abertura do Estreito de Ormuz. "Até aquele momento [7 de abril], os ataques eram diários e podiam acontecer a qualquer momento, de dia ou à noite", descreve. Os alvos mais cobiçados foram estruturas relacionadas ao Estado iraniano, diz Veras. "Podiam ser instalações da Guarda Revolucionária [estrutura paramilitar do regime iraniano] ou delegacias de polícia." Embora Teerã esteja em relativa calma desde o início da trégua, a expectativa entre a população, segundo Veras, é de que as hostilidades recomecem após o fracasso da rodada de negociações entre os dois lados ocorrida em Islamabad, Paquistão, no último fim de semana. A atmosfera local é descrita pelo embaixador como de "apreensão, expectativa e medo sobre o que possa ser agora objeto desses ataques [dos Estados Unidos e de Israel]". Dias antes da trégua, Trump havia ameaçado reiteradamente destruir pontes e usinas elétricas do Irã e, na véspera, escreveu em sua rede social Truth Social: "Uma civilização inteira morrerá hoje à noite". O embaixador observa que, quando um chefe de Estado utiliza esse tipo de linguagem, a população visada crê que "[está sob ameaça de ser vítima de] crime de guerra ou genocídio". "É claro que a gente prefere pensar que isso [a ameaça de Trump] seja muito mais um elemento de pressão sobre o regime [iraniano]. Quando vem de um país que dispõe de armas nucleares e num sistema internacional em que as próprias autoridades americanas dizem que as regras não valem mais, que a regra é a do mais forte, isso [a ameaça] causa muita apreensão." Se a retórica de Trump ao anunciar a guerra despertou esperanças de mudança de regime na parcela da população, assinala Veras, a promessa de aniquilação teve o efeito oposto. "Há um sentimento de decepção e um choque muito grande, porque [a declaração de Trump] desconsidera uma história de 4 mil anos da civilização persa-iraniana", comenta. "Essa segunda ameaça [de Trump] só vem confirmar que não eram verdadeiras as razões identificadas no início [da guerra] e que há objetivos outros que não foram ainda professados." Segundo o embaixador, são hoje frequentes as manifestações populares pró-governo no país durante a noite. "No Irã há aqueles que defendem [o governo], aqueles que são contra, aqueles que não emitem sua opinião, mas nós temos os que defendem o Estado tal qual é, definido por uma constituição, por instituições e mecanismos", descreve. "As divergências que existem [no Irã] são ultrapassadas pelas ameaças externas, especialmente as que põem em risco a própria existência do Estado. A reação natural é o país se juntar na sua [própria] defesa." O anúncio pelos Estados Unidos de um suposto bloqueio a portos do Irã no Golfo Pérsico no início da semana não produziu, segundo Veras, nenhum impacto visível na vida cotidiana. A sociedade iraniana viveu sob sanções econômicas diretas e indiretas dos Estados Unidos pela maior parte da história recente, o que, na avaliação do embaixador, fez com que ela se tornasse resiliente e autossuficiente em diversos segmentos. "Desde o dia 28 de fevereiro, os iranianos agem com altivez e força [diante da guerra]. Os supermercados em nenhum momento ficaram desabastecidos. Em nenhum momento faltou energia e, quando aconteceu em alguma região específica, foi rapidamente resolvido." Especialistas locais afirmam que, para ser eficazes, bombardeios à infraestrutura civil de energia, teriam de ocorrer em grande número e por muito tempo, segundo o diplomata. Veras foi nomeado para o posto no dia 6 de junho de 2025, exatos sete dias antes do início da chamada Guerra dos 12 Dias, quando forças norte-americanas e israelenses atingiram instalações nucleares e militares no Irã, e chegou a Teerã antes do final do mês. Dos cerca de 180 brasileiros que havia no país antes de 28 de fevereiro, quando se iniciaram os ataques deste ano, ele calcula que cerca de 60 a 70 tenham deixado o país sem dificuldade por via rodoviária (as fronteiras do Irã com Turquia, Armênia, Azerbaijão, Afeganistão e Paquistão permanecem abertas).

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/16/guerra-nao-e-videogame-embaixador-do-brasil-no-ira-relata-explosoes-tremor-de-paredes-e-mortes-no-conflito.ghtml


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