'Guardiã da memória' de Presidente Prudente tem nome de 1ª mulher no espaço e história que chegou à Embaixada Russa

  • 13/09/2026
(Foto: Reprodução)
‘Guardiã da memória’ de Presidente Prudente tem nome de 1ª mulher no espaço Na história de Presidente Prudente (SP) existem diversos personagens marcantes que escrevem, a cada dia, um novo capítulo da cidade. Para visitar o passado, basta atravessar as portas do Museu e Arquivo Histórico Municipal, onde documentos, fotografias, objetos e relatos ajudam a preservar a memória prudentina. É justamente nesse lugar, entre histórias de outras pessoas, que está uma mulher que também carrega uma história única e é considerada a “Guardiã da memória”: Valentina Tereshkova Trugilo Romeiro Flores. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Natural de Presidente Prudente (SP), ela recebeu o nome em homenagem a Valentina Tereshkova, a primeira mulher a viajar ao espaço. A escolha foi feita pelo pai, que, anos depois, enviou uma carta à Embaixada Russa no Brasil contando a história por trás do nome da filha. A carta não pedia presentes, favores ou qualquer benefício. Segundo Valentina, o pai apenas queria contar que havia escolhido para a filha o nome de uma mulher que considerava importante para a história mundial. ‘Guardiã da memória’ de Presidente Prudente, Valentina Romeiro, tem nome em homenagem a primeira mulher que viajou ao espaço Reprodução A resposta, porém, transformou aquela homenagem em uma lembrança que ela guarda até hoje. Em 1977, quando Valentina tinha dois anos, uma comitiva da Embaixada Russa foi até a casa da família, em Presidente Prudente. Entre os presentes destinados à menina estava um colar de âmbar do Mar Báltico, além de bonecas, outros objetos, uma fotografia autografada por Valentina Tereshkova e uma bolsa de estudos condicionada ao aprendizado da língua russa. O colar continua guardado pela prudentina. “Eu guardo o colar até hoje. Já usei em algumas ocasiões, mas ele é um colar de âmbar do Mar Báltico, o segundo no Brasil, e é uma relíquia para mim, porque não só por ele ser o segundo no Brasil, mas por ele, pela representação do momento”, explicou Valentina. LEIA TAMBÉM: Presidente Prudente começa programação especial pelo aniversário de 109 anos nesta quinta-feira; confira Concurso fotográfico 'Árvores da Cidade' abre inscrições em Presidente Prudente; confira como participar Funcionários da Caixa entram em greve no Oeste Paulista; veja como ficam os atendimentos Mais do que o objeto, o que permanece para Valentina é a memória daquele momento e da relação com o pai. “A Embaixada Russa veio à minha casa em 1975, ainda estávamos na ditadura. Eles vieram aqui no interior do estado de São Paulo. Então, além da questão histórica, tem a questão afetiva. Porque foi um momento meu, um momento em que eu estava com meu pai, e que vou guardar para sempre. Ele não tem um valor financeiro, ele tem um valor emocional para mim”, contou. O pai morreu em 1998. Para Valentina, porém, a história iniciada por ele continuou influenciando a maneira como ela enxerga o mundo. ‘Guardiã da memória’ de Presidente Prudente, Valentina Romeiro, tem nome em homenagem a primeira mulher que viajou ao espaço Valentina Romeiro/Arquivo Pessoal Ditadura A história começa antes mesmo do nascimento de Valentina. Quando a mãe engravidou, o pai ainda não sabia se teria um menino ou uma menina. O primeiro filho do casal havia recebido o nome de Emiliano Zapata, em referência ao revolucionário mexicano. Para a segunda criança, ele apresentou à esposa algumas opções. Se fosse menina, poderia se chamar Valentina Tereshkova, em homenagem à cosmonauta russa; Maria Flores de Zapata, nome da esposa de Emiliano Zapata; ou Dolores Ibárruri, referência à revolucionária espanhola. A mãe acabou escolhendo Valentina. Para o pai, porém, os nomes não eram apenas escolhas pessoais. Faziam parte de uma visão de mundo construída em um período de forte tensão política. Ele havia ido para Presidente Prudente para trabalhar nos Correios, como rádio telegrafista, e participou da fundação do Partido Comunista na cidade. Em 1968, durante a ditadura militar, foi preso e posteriormente exilado. Quando voltou à capital do Oeste Paulista, em meio àquele contexto político, nasceu a filha que receberia o nome da primeira mulher no espaço. "Ele coloca, então, o nome de uma mulher, e ele sempre dizia que teria que ter um nome forte, um nome representativo, uma homenagem a quem representava a luta, a história", relatou Valentina. ‘Guardiã da memória’ de Presidente Prudente, Valentina Romeiro, tem nome em homenagem a primeira mulher que viajou ao espaço Valentina Romeiro/Arquivo Pessoal Depois do nascimento, ele pegou uma cópia do registro da filha e enviou à Embaixada Russa no Brasil. "Ele só mandou uma carta, que eu nunca vi pessoalmente. Mas depois, quando eu fiquei mais velha, ele me contou que ele nunca pediu nada, ele só escreveu a carta dizendo que tinha homenageado uma mulher importante para a história do país, do mundo… não só do país dela, mas do mundo, e que ele queria que a filha dele tivesse um nome forte, de representatividade para a história do mundo", disse. A carta chegou até Valentina Tereshkova. Dois anos depois, a homenagem ganhou uma dimensão que a família não esperava. A comitiva da Embaixada foi até a casa da família e entregou os presentes. O pai, no entanto, não recebeu o colar: "Na verdade, meu pai não ganhou nada. Os presentes foram todos para mim". Trajetória A história familiar ajudou a moldar a maneira como Valentina passou a enxergar conhecimento, memória e participação social. Ela conta que não atribui essa influência somente ao próprio nome, mas também à forma como foi criada pelo pai. "Se não tivesse uma influência grande do meu pai na minha formação, talvez teria só um nome", contou. Para ela, a educação recebida em casa teve papel fundamental: "Mas a formação de ajuda ao próximo, de manter uma casa sempre aberta para quem precisasse, de dar voz às mulheres… isso é muito importante". Essa trajetória acabaria se encontrando com outra paixão: a história de Presidente Prudente. ‘Guardiã da memória’ de Presidente Prudente, Valentina Romeiro, tem nome em homenagem a primeira mulher que viajou ao espaço Valentina Romeiro/Arquivo Pessoal Valentina é professora e, atualmente, ocupa o cargo de coordenadora do Museu e Arquivo Histórico Municipal. A relação com o museu começou em 2007, quando conheceu o professor e então diretor Ronaldo Macedo. O convite para trabalhar no local veio depois de um curso ministrado por ele. "Por essa busca em conhecimento, em ser apaixonada por história e também pela formação acadêmica, eu acabo chegando no museu, conhecendo o professor e grande mestre Ronaldo Macedo, que era o diretor do museu, e a gente acaba se conhecendo através de um curso que ele estava dando… aí vem o convite para vir trabalhar no museu", relembrou. Desde então, passou a trabalhar diretamente com a documentação e a memória do município. O trabalho inclui receber pesquisadores, auxiliar estudos de mestrado e doutorado, atender estudantes e apresentar a história de Presidente Prudente para crianças e visitantes. Também envolve a preservação e organização do acervo. "E além do papel da ação educativa, quando eu passo a ser coordenadora das ações educativas, então passo a coordenar todo o complexo, a salvaguarda dos bens, a salvaguarda do arquivo, o acervo, catalogar esse acervo, digitalizar esse acervo, buscar parcerias para que o museu cresça, para que o museu se modernize", relatou Valentina. ‘Guardiã da memória’ de Presidente Prudente, Valentina Romeiro, tem nome em homenagem a primeira mulher que viajou ao espaço Valentina Romeiro/Arquivo Pessoal História Trabalhar diariamente com documentos antigos mudou também a forma como Valentina olha para a história da cidade. Para ela, existe uma série de personagens e acontecimentos que ainda recebem pouca atenção. Entre eles estão os povos originários e as mulheres. "Eu não tenho uma história específica que eu amo contar, porque são várias histórias. Mas tem algumas que marcam muito, como é a história do apagamento dos povos originários da cidade. Você ouve falar muito pouco, nós tínhamos diversas tribos aqui em Presidente Prudente. A gente esquece, a gente mantém o foco muito nos coronéis, mas esquece das mulheres fantásticas que trabalharam muito para que essa cidade se tornasse o que ela é hoje", defendeu. O acervo do museu, segundo ela, permite confrontar versões e buscar evidências documentais sobre acontecimentos do passado. "É importante frisar que o museu tem mais de 100 mil documentos, inclusive escritos à mão. Mais de 5 mil mapas e plantas, desde a Fazenda Pirapó-Santo Anastácio. Então, isso é uma riqueza muito grande, e poder trabalhar com isso presencialmente… eu sempre falo que eu fui privilegiada de poder ver e contar essas histórias hoje", relatou. Essa busca também fez com que Valentina passasse a questionar o espaço ocupado por determinados personagens na narrativa sobre Presidente Prudente. Ela cita, especialmente, o apagamento das mulheres. "A gente sempre se refere às mulheres como a esposa de alguém, a mulher de alguém, mas nunca o qual é o feito dela. Então, a gente teve aqui mulheres grandes, artistas, esportistas, que lutaram pelo voto feminino, que nesse momento estão querendo tirar", pontuou Valentina. Para ela, essa percepção surgiu também do contato cotidiano com a documentação histórica. ‘Guardiã da memória’ de Presidente Prudente, Valentina Romeiro, tem nome em homenagem a primeira mulher que viajou ao espaço Valentina Romeiro/Arquivo Pessoal Presidente Prudente Valentina nasceu e vive em Presidente Prudente. Diante disso, a relação com a cidade não se limita ao trabalho no museu. Ela guarda lembranças da infância, entre elas viagens de trem com a família e momentos na Praça 9 de Julho. Hoje, ao pesquisar os documentos do museu, ela também reencontra lugares e personagens que fizeram parte dessas lembranças. E, para contar a história de Presidente Prudente, existe um ponto de partida que considera essencial: a ferrovia. "Eu falo que não deveria perder nenhuma história. Eu falo que enquanto o museu estiver funcionando, o museu estiver preservado, ele será sempre o guardião dessas histórias”, disse. Para ela, conhecer a própria história é também uma forma de preservar a identidade da cidade: "O cidadão precisa conhecer a sua própria história, sua própria origem". Fora do museu Quando deixa o trabalho, a pesquisadora de histórias continua sendo uma pessoa curiosa. Ela é casada há 27 anos com Marcelo Flores, não tem filhos e conta que gosta de animais, exercícios, viagens e, principalmente, livros. "Nas horas vagas eu também gosto de fazer pesquisa. Em um mundo de inteligência artificial, eu ainda gosto de ler”, brincou. E a curiosidade, que começou dentro do acervo, não parece ter prazo para terminar: "A cada dia que você abre uma caixa de documentos do museu, a probabilidade de você encontrar alguma história diferente e nova é muito grande". É nesse trabalho detalhado, entre caixas, documentos, mapas e histórias, que Valentina encontrou uma maneira de continuar aquilo que começou muito antes de ela entender o significado do próprio nome: carregar uma história e dar voz a ela. Hoje, o colar recebido da Embaixada Russa permanece guardado. O pai já não está presente para vê-lo, mas a filha continua carregando o significado daquele gesto. "Eu só agradeço a ele, eu tenho muito orgulho de quem ele foi, do que ele fez e pelo nome que ele me deu. Tenho muito orgulho de carregar esse nome”, concluiu. ‘Guardiã da memória’ de Presidente Prudente, Valentina Romeiro, tem nome em homenagem a primeira mulher que viajou ao espaço Prefeitura de Presidente Prudente/Divulgação *Colaborou sob supervisão de Stephanie Fonseca. Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2026/09/13/guardia-da-memoria-de-presidente-prudente-tem-nome-de-1a-mulher-no-espaco-e-historia-que-chegou-a-embaixada-russa.ghtml


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