Greve nos trens de SP: conheça histórico e perfil das linhas 11, 12 e 13
05/08/2026
(Foto: Reprodução) Movimento de passageiros na plataforma da Estação da Luz, na região central da cidade de São Paulo, nesta terça-feira, 4 de agosto de 2026. Funcionários das linhas 11-Coral, 12- Safira e 13-Jade atualmente operadas pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), entraram em greve à 0h desta terça-feira, 4, por tempo indeterminado.
Felipe Marques/Estadão Conteúdo
Mais de 800 mil passageiros dependem, em dias úteis, das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade para se deslocar entre a Zona Leste de São Paulo e cidades da Grande São Paulo. Os três ramais estão no centro de uma crise no transporte sobre trilhos: os funcionários estão em greve em meio à recente troca de comando da operação.
🔎 As linhas têm histórias e perfis diferentes. A 11-Coral é a mais antiga e tem origem em um trecho ferroviário inaugurado em 1875. A 12-Safira começou a operar em 1934. Já a 13-Jade é a mais nova, inaugurada em 2018, e foi criada para levar passageiros ao Aeroporto Internacional de São Paulo.
Juntas, elas formam uma rede de 101,8 km e 33 estações e passaram por uma mudança importante neste ano. A operação, antes feita pela CPTM, foi transferida para a concessionária Trivia Trens, que venceu o leilão das três linhas em 2025.
A transição, porém, foi interrompida poucos dias depois de a empresa assumir oficialmente os ramais. Atrasos, plataformas lotadas e a explosão em um trem da Linha 12 marcaram os primeiros dias da nova operação. Em 24 de julho, a CPTM voltou a operar as três linhas por 90 dias, após a Artesp suspender a operação da concessionária. (Leia mais abaixo.)
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Perfil das linhas
As linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade são responsáveis por conectar a Zona Leste da capital a cidades da Grande São Paulo e ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. Segundo dados da CPTM do 1° semestre, os três ramais transportaram mais de 800 mil passageiros em média por dia útil.
Linha 11-Coral
A mais antiga das três linhas tem origem em um trecho ferroviário inaugurado há mais de 150 anos. As obras começaram em 1869, pela Companhia São Paulo e Rio de Janeiro, e o trecho entre São Paulo e Mogi das Cruzes foi inaugurado em 1875.
A ferrovia foi posteriormente incorporada pela Estrada de Ferro Central do Brasil e, no início do século XX, passou a receber trens suburbanos. A CPTM assumiu oficialmente a operação da Linha 11 em 1994.
Hoje, o ramal tem 54,3 km de extensão e 17 estações. A linha parte da Zona Leste de São Paulo e passa por Ferraz de Vasconcelos, Poá e Suzano até chegar a Mogi das Cruzes. Na capital, permite integração com outras linhas de trem e metrô em estações como Luz, Brás, Tatuapé e Corinthians-Itaquera.
Segundo a CPTM, a Linha 11 transportou, em média, 519.422 passageiros por dia útil no primeiro semestre de 2026.
Linha 12-Safira
A Linha 12-Safira foi inaugurada em 1934 como Variante de Poá, pela Estrada de Ferro Central do Brasil. O trecho foi construído com o objetivo de criar um caminho mais reto e rápido entre Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, e Poá, na Grande São Paulo.
Ao longo das décadas, a ferrovia passou a ser utilizada no transporte de passageiros da região e foi incorporada à rede de trens metropolitanos. A CPTM assumiu oficialmente a operação da linha em 1994.
Hoje, o ramal tem 38,8 km de extensão e 13 estações. Liga a Zona Leste de São Paulo a Itaquaquecetuba e Poá e transportou, em média, 254.095 passageiros por dia útil no primeiro semestre de 2026, segundo dados da CPTM.
Linha 13-Jade
A mais nova das três linhas foi inaugurada em 31 de março de 2018 com uma função estratégica: aproximar o transporte ferroviário do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. O ramal foi planejado para facilitar o deslocamento entre a capital e o principal aeroporto do país e se tornou a primeira linha da CPTM a fazer essa ligação.
Com 8,7 km de extensão e três estações, a Linha 13 foi criada para facilitar o acesso ao aeroporto pela rede de trens metropolitanos.
A estação Aeroporto-Guarulhos, porém, não fica diretamente nos terminais. Desde a inauguração da linha, os passageiros precisavam utilizar ônibus gratuitos para fazer o trajeto entre a estação e os terminais do aeroporto.
Em fevereiro de 2026, essa conexão ganhou o Aeromóvel, sistema automatizado que liga a estação da CPTM aos três terminais do aeroporto. O serviço é gratuito começou a atender o público de forma faseada, das 16h à meia-noite.
A linha transportou, em média, 27.739 passageiros por dia útil no primeiro semestre de 2026, segundo a CPTM.
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Maiara Barbosa/TV Diário
Por que funcionários estão em greve?
A greve dos ferroviários ocorre em meio à transição da operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, que eram administradas pela CPTM e foram concedidas à iniciativa privada.
Os empregados da CPTM em greve reivindicam a reestatização definitiva das linhas, a garantia de todos os empregos na CPTM e a aprovação do Projeto de Lei (PL) nº 730/2025 na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), com o apoio do governo.
Antes do processo de privatização da malha ferroviária paulista, iniciado na gestão do ex-governador João Doria (ex-PSDB), a CPTM era responsável por sete linhas de trem na Grande São Paulo. Agora, a estatal administra apenas a Linha 10-Turquesa.
Com a redução da operação, a CPTM também passou por um plano de demissão voluntária (PDV), que permite o desligamento de funcionários em comum acordo com a empresa.
As três linhas passaram a ser operadas pela Trivia Trens. Segundo a concessionária, a empresa tem cerca de 2.400 colaboradores, sendo aproximadamente 2.100 diretamente envolvidos na operação e manutenção dos ramais. Desse grupo, cerca de 230 são profissionais que vieram da CPTM — o equivalente a 11% do total.
Ainda de acordo com a empresa, cerca de 90% dos profissionais que atuam na operação e manutenção das linhas 11, 12 e 13 são novos. Esses funcionários receberam mais de 1.300 horas de treinamento prático e teórico antes de assumir as funções.
Greve de trens da CPTM em São Paulo nesta terça-feira (4).
Reprodução/TV Globo
Concessão das linhas
Após mais de 30 anos sob administração da CPTM, as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade foram concedidas à iniciativa privada em março de 2025. O Grupo Comporte Participações S.A., dono da Trivia Trens e da TIC Trens, venceu o leilão realizado na B3 e assumiu a operação dos três ramais por 25 anos.
Controlado pela família de Nenê Constantino, fundador da companhia aérea Gol, o grupo superou a ViaMobilidade na disputa. A concessão prevê R$ 14,3 bilhões em investimentos ao longo do contrato e também inclui a operação do Expresso Aeroporto.
Para evitar problemas registrados na transição das linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, que passaram da CPTM para a ViaMobilidade em 2022, o governo de São Paulo afirmou que a transferência das linhas 11, 12 e 13 seria feita de forma gradual e que o processo completo levaria ao menos dois anos.
Em maio de 2026, teve início a operação assistida das três linhas. Nessa etapa, a transferência da CPTM para a Trivia Trens passou a ocorrer gradualmente.
Na primeira fase, funcionários da CPTM continuaram responsáveis pela operação enquanto equipes da concessionária acompanhavam os procedimentos. Depois, a Trivia Trens passou a operar os ramais sob supervisão dos profissionais da estatal.
Falhas, explosão e investigação do MP
Trem fica carbonizado por dentro depois de explosão registrada na Linha 12-Safira da Trivia Trens nesta quinta-feira (23).
Reprodução/TV Globo
A transição para a nova concessionária começou com problemas. A Trivia Trens assumiu oficialmente a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade à 0h de 21 de julho de 2026, encerrando a participação da CPTM na operação comercial dos três ramais.
Já no dia seguinte, passageiros relataram atrasos nas linhas 11 e 12, enfrentando plataformas lotadas e escadas rolantes paradas.
Na manhã de 23 de julho, um trem da Linha 12-Safira também apresentou uma explosão entre as estações Brás e Tatuapé. Imagens registradas por passageiros mostraram uma chama do lado de fora do trem e a correria dentro da composição. Um dos vagões chegou a ficar carbonizado, mas ninguém se feriu.
Segundo Paulo Ferreira, diretor de operações da Trivia Trens, um possível curto-circuito em um dos trens provocou o desligamento das subestações de energia e afetou a circulação dos ramais.
Os problemas fizeram o governo de São Paulo e a Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp) determinarem o retorno da CPTM à operação dos três ramais por 90 dias. A medida começou em 24 de julho, três dias depois de a Trivia assumir o serviço. A Artesp também suspendeu a operação da concessionária.
Foi a primeira vez que o governo paulista reassumiu a operação de linhas que já estavam sob administração privada. Segundo o governo, a medida estava prevista no contrato de concessão, que estabelece etapas para a transição operacional e mecanismos de monitoramento e acompanhamento.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que a concessionária poderia perder a concessão caso não cumprisse as obrigações previstas no contrato.
A Trivia Trens afirmou que se preparou para assumir a operação com mais de 2.300 colaboradores e um ciclo de treinamentos. A empresa também disse ter assumido um sistema complexo, com histórico de gargalos estruturais, e que mantinha diálogo com o poder público para melhorar o serviço.
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também instaurou um inquérito civil para investigar as falhas registradas nos primeiros dias de operação da Trivia Trens.
O procedimento deverá apurar se houve falhas na prestação do serviço público, na fiscalização da concessão e eventual responsabilidade pelos prejuízos causados aos passageiros. A investigação também analisa a atuação da CPTM, da Artesp e do governo estadual na fiscalização e na prestação do serviço.
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