Flávio Bolsonaro foi cadastrado como 'usuário master' em conta bancária de empresa de advogado investigado
14/10/2026
(Foto: Reprodução) Flávio Bolsonaro (PL)
Vittor Sales
O senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) foi cadastrado como "usuário master" de uma conta bancária pertencente a uma empresa do advogado Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal (PF) por suspeita de lavagem de dinheiro.
Para a PF, o cadastro dava a Flávio "acesso operacional relevante" à conta bancária e "sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa".
Flávio e Willer Tomaz são amigos, mas negam ter negócios juntos. A PF descobriu indícios de que eles dividiram a conta bancária da empresa Alcazar Holdings, de propriedade de Tomaz, ao encontrar e-mails trocados entre uma secretária do advogado e uma funcionária do banco Santander.
O caso foi revelado no sábado (10) pelo UOL e detalhado nesta quarta (14) pela colunista Malu Gaspar, do jornal "O Globo". O g1 também obteve as informações sobre a investigação policial.
A apuração começou no Rio Grande do Sul, onde a PF investigava supostos crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Um dos alvos do inquérito no estado era a casa de apostas Blaze. Com autorização judicial, o sigilo telemático de Willer Tomaz foi quebrado.
Essa investigação subiu para o Supremo Tribunal Federal (STF), para ser distribuída a um dos ministros da corte, porque o nome de Flávio Bolsonaro apareceu em e-mails obtidos com a quebra de sigilo. Como senador, Flávio tem foro especial no STF.
Em outro processo, paralelo a essa investigação criminal, Willer Tomaz processa a Blaze. Ele pede ressarcimento pelo prejuízo de R$ R$ 188,5 milhões que afirma ter tido ao jogar na casa de apostas. Tomaz diz nesse processo, que tramita na Justiça de São Paulo, que foi diagnosticado com ludopatia — transtorno mental caracterizado pela perda de controle sobre o impulso de jogar.
'Usuário master'
Os e-mails obtidos pela PF mostram que uma secretária de Tomaz, Fayla Menezes, escreveu para a agência bancária, em 22 de maio de 2025, pedindo para trocar o "usuário master" da conta da empresa Alcazar Holdings.
"Na oportunidade peço por gentileza no gerenciador do usuário master desassociar as contas abaixo", escreveu a secretária, listando em seguida um número e o nome de Flávio Bolsonaro e uma outra conta de Willer Tomaz.
Pouco depois, o banco respondeu por e-mail: "As contas foram excluídas do contrato, conforme solicitado".
A PF afirmou em relatório, conforme noticiado pelo jornal "O Globo", que, "na documentação relativa à abertura da conta bancária da empresa Alcazar Holdings, verificou-se que Flávio Bolsonaro figurava com perfil de usuário master, condição que, em princípio, lhe conferia nível elevado de acesso e gerenciamento".
Avião de Tomaz e Vorcaro
A empresa Alcazar Holdings é dona de uma das três cotas do jatinho usado por Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz em uma viagem de Fort Lauderdale, na Flórida (EUA), para o Brasil, em janeiro de 2025.
O avião, um Legacy 650 prefixo PP-NLR, tinha três donos na época do voo: Tomaz, por meio da empresa Alcazar Holdings; Laerte Cosentino, dono da Totvs; e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, por meio da empresa Prime You — que também administrava o uso da aeronave de propriedade compartilhada.
No mês passado, quando a revista "piauí" revelou que Flávio havia voado no avião de Vorcaro, o candidato afirmou que a viagem foi a convite de Willer Tomaz, e não do banqueiro.
O que dizem os citados
Ao "Globo", Flávio Bolsonaro afirmou que "nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas".
"Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa. O próprio e-mail apresentado comprova justamente que a vinculação era indevida, tanto que solicita a desvinculação. Ou seja, o pedido só reforça que qualquer possibilidade de associação existente estava errada e precisava ser corrigida", disse o candidato.
"Essas insinuações surgem em pleno período eleitoral e exigem responsabilidade. A divulgação de Fake News é crime eleitoral e os responsáveis deverão responder na forma da lei", completou.
O advogado Willer Tomaz, também em nota, afirmou que "repudia as inverdades reiteradas na reportagem".
"Com o senador Flávio Bolsonaro mantém apenas amizade, sem nenhum vínculo financeiro ou societário. Os dois nunca dividiram conta bancária. O e-mail enviado ao Santander não demonstra o contrário. Extrair desse documento uma "eventual participação econômica ou societária" é ilação", disse.
"Converter conjecturas em denúncias, em plena campanha eleitoral, tem o evidente propósito de interferir no pleito. A exposição de dados sigilosos de seu celular e iCloud integra o vazamento criminoso já investigado pela Polícia Federal, e os autores responderão na Justiça", concluiu.