Escassez hídrica severa e grande projeto de dessalinização: estreante na Copa, Jordânia vive desafios no abastecimento de água

  • 16/06/2026
(Foto: Reprodução)
A escassez de água na Jordânia Se a Jordânia pudesse ser definida em uma palavra, uma boa candidata seria resiliência. E não só pelas nove tentativas frustradas de participar da Copa do Mundo, que se encerram em 2026 com a seleção disputando pela primeira vez a competição. Mas pelos desafios diários relacionados à água. O país é considerado um dos mais áridos do mundo, sendo o segundo em escassez de água de acordo com algumas classificações. De acordo com o Unicef, cada pessoa na Jordânia tem acesso a apenas 61 metros cúbicos de água por ano – cerca de 12% dos 500 metros cúbicos mínimos estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), uma situação se escassez absoluta. Deserto de Wadi Rum, na Jordânia. Vyacheslav Argenberg/Wikimedia Commons Para tentar amenizar o problema, o país conta com um grande projeto de dessalinização, que deve ser finalizado até 2030, e suprir cerca de 40% da necessidade de abastecimento. A megaestrutura coleta água do Mar Vermelho, dessaliniza e bombeia a água tratada até a capital Amã. (entenda mais abaixo) Mas, até a obra ser concluída, a população enfrenta diariamente o desabastecimento e o racionamento constante. 👉Na reportagem abaixo, você entende mais sobre: As causas da escassez severa de água na Jordânia Os impactos para a população Por que o projeto de dessalinização é visto como uma boa opção para a região Causas da falta de água na Jordânia Luis Antonio Bittar, professor titular do Departamento de Geografia da USP e especialista em recursos naturais, explica que as principais causas da escassez de água na Jordânia são climáticas e geográficas: Climáticas Mais de 90% da chuva que cai no país evapora antes de infiltrar e recarregar os aquíferos. Além disso, as mudanças climáticas agravam a situação. "O aumento das temperaturas leva a uma taxa de evaporação ainda maior. Não só da chuva, mas dos próprios reservatórios superficiais", comenta o professor. Geográficas Cerca de 80% do território é composto por terras áridas, desérticas, o que faz com que a taxa de evaporação no país seja altíssima. Outro ponto ressaltado por Bittar, que também é autor do livro "Água no Oriente Médio: o fluxo da paz", é que as disputas geopolíticas agravam a situação de escassez de água no país. ➡️A Jordânia é vizinha de países como Síria, Israel e Líbano, nações alvos de guerras constantes. Mundo entrou em estado de 'falência hídrica', alertam pesquisadores da ONU "Ela [a Jordânia] compartilha, por exemplo, o rio Jordão e o rio Yarmouk com a Síria e Israel, respectivamente, e há um controle militar e político dessas fontes que acaba limitando drasticamente o acesso do país a essas águas", detalha. Além disso, a chegada de refugiados vindos desses países é um outro fator que também pressiona ainda mais o abastecimento de água já comprometido da Jordânia. A nação tem acolhido muitos imigrantes nas últimas décadas, principalmente da Palestina ocupada, do Iraque e, mais recentemente, da Síria. "O crescimento demográfico acaba sobrecarregando muito a infraestrutura hídrica do país, muito rapidamente, o que reduziu ainda mais a disponibilidade de água por habitante", afirma Bittar. As consequências para a população Em um cenário considerado pela ONU de escassez absoluta, os impactos para a população são visíveis e diários. O professor, que já esteve na Jordânia em três ocasiões, lembra que os jordanianos relatam que o racionamento de água é uma realidade muito constante tanto em Amã, capital do país. "Na maioria das áreas urbanas, as casas recebem água canalizada uma vez por semana. E em algumas regiões rurais, a cada duas ou três semanas", conta. Nesse cenário, boa parte das residências possui uma espécie de cisterna para que, no dia do abastecimento, mais água possa ser armazenada. Aqueles que acabam com o volume antes do reabastecimento têm que recorrer a um caminhão-pipa privado, o que pesa consideravelmente no orçamento familiar. Dessalinização como solução Por mais que a Jordânia não seja um país rico como as nações do Golfo Pérsico (Emirados Árabes, Omã, Kuwait, Catar e Bahrein) – que tem muito petróleo e, consequentemente, muito dinheiro para investigar em grandes projetos para contornar a escassez de água – a usina de dessalinização ainda é a saída mais viável. 🫗Isso porque as fontes de água doce naturais, como rios, aquíferos e lençóis, já estão muito aquém da demanda e tendem a diminuir com a aceleração do ritmo de evaporação. "A vantagem da dessalinização é que ela não depende de condições climáticas, nem de disputas geopolíticas por rios transfronteiriços, basta você ter acesso ao mar", expõe Bittar. ➡️Na usina da Jordânia, a água do Mar Vermelho será coletada em Aqba, no sudoeste do país, dessalinizada e bombeada de voltar por mais de 400 km até a capital Amã. Ainda que o custo de operação desse tipo de projeto tenha barateado ao longo dos anos e a necessidade de energia elétrica necessária tenha diminuído, a usina de dessalinização demora para ficar totalmente operacional. A previsão é que as obras seja concluídas em 2030.

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/06/16/escassez-hidrica-severa-e-grande-projeto-de-dessalinizacao-estreante-na-copa-jordania-vive-desafios-no-abastecimento-de-agua.ghtml


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