Entenda por que Piracicaba é a cidade mais afetada pelo novo tarifaço dos EUA: 'corda no pescoço', diz Simespi
06/08/2026
(Foto: Reprodução) Piracicaba é a cidade brasileira mais impactada pelo tarifaço dos EUA, diz Simesp
Piracicaba (SP) deve ser a cidade mais impactada de todo o Brasil pelo novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos (EUA). O Sindicato das Indústrias Metalúrgicas (Simespi), responsável pelo setor metalúrgico, aponta a nova taxação pode atingir 50 empresas em Piracicaba, responsáveis por aproximadamente 10 mil empregos diretos.
O vice-presidente da entidade afirma que toda cadeia produtiva regional é afetada em espécie de efeito cascata: 'Fica difícil trabalhar com essa ameaça o tempo todo. Nós estamos com a corda no pescoço", leia mais, na reportagem, abaixo.
🔎O que prevê o tarifaço? A medida do governo americano, que entrou em vigor em 24 de julho, determinou que diversos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos passarão a pagar uma tarifa de 37,5%, que é resultado da soma de duas cobranças aplicadas pelos Estados Unidos: uma de 25% e outra de 12,5%.
Os dados que colocam Piracicaba no topo das cidades mais afetadas pela taxação são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) e da Câmara Americana de Comércio para o Brasil.
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Piracicaba sedia fábrica de uma multinacional metalúrgica que produz máquinas para construção e exporta pra todo mundo, alcançando índices de mais de 1,2 bilhões de doláres. O vice-presidente do Simespi, Erick Gomes, afirma que a cidade tem uma condição muito específica.
"Temos uma situação que é sui generis. Temos uma empresa multinacional americana que é usada como fornecedora para a sua matriz. Ou seja, ela exporta para a matriz vender nos Estados Unidos. Por isso, que nós temos aquele número gigantesco, de 1 bi 290 milhões de dólares, que é afetado muito por conta de uma única empresa", explicou.
O g1 pediu a lista das empresas afetadas, mas o Simespi informou que não pode divulgá-las.
Interior da usina de etanol em Piracicaba (SP)
Marcelo Brandt/g1
Efeito cascata
O impacto do tarifaço imposto pelos Estados Unidos vai além das multinacionais e ameaça toda a cadeia produtiva local de Piracicaba. Segundo o vice-presidente do Simespi, a paralisação ou retração dessas gigantes atinge diretamente os subfornecedores regionais, criando um efeito em cascata sobre empregos e a economia do município.
"Nós temos uma cadeia de empresas nacionais em Piracicaba que fornecem para essa empresa, ela faz a montagem dos equipamentos e exporta", detalhou. "Para nossos subfornecedores, fica difícil trabalhar com essa ameaça o tempo todo. Nós estamos com a corda no pescoço, o que prejudica o município de Piracicaba, e nós não podemos deixar isso acontecer", concluiu.
Reunião com governo federal
Para tentar reverter a situação e reduzir a dependência do mercado norte-americano, representantes do setor se reúnem com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, para apresentar alternativas de socorro à indústria local.
"Fomos convocados a pedido do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin. No ano passado, solicitamos uma audiência na qual apresentamos algumas propostas; hoje, pretendemos encaminhar novas alternativas voltadas a reduzir a dependência do mercado norte-americano", disse Eric Gomes.
Na manhã de sexta-feira (7), haverá um encontro entre o governo federal e lideranças do setor atingido para discutir possíveis soluções e tentar reduzir os danos econômicos.
O que Piracicaba vai pedir ao governo federal
Segundo a prefeitura, o grupo apresentará uma série de medidas emergenciais ao vice-presidente, incluindo:
ampliar as negociações com os EUA para tentar reduzir as tarifas e aumentar a lista de produtos isentos;
priorizar máquinas, equipamentos e componentes na lista de exceções;
facilitar o acesso das empresas a crédito emergencial e criar medidas tributárias temporárias;
criar uma equipe técnica do governo federal para acompanhar os impactos da tarifa sobre produção e investimentos.
Por que os EUA aplicaram as tarifas?
EUA anunciam sobretaxa de 12,5% para o Brasil
Segundo o governo americano, o Brasil e outros países adotam práticas comerciais consideradas desleais por não fiscalizarem adequadamente a importação de produtos fabricados com trabalho forçado.
A nova tarifa entra em vigor poucos dias depois de outra cobrança, de 25%, começar a ser aplicada aos produtos brasileiros.
Nesse caso, os EUA afirmaram que o Brasil adota medidas que "oneram ou restringem" o comércio com o país. Os problemas envolveriam diferentes áreas da relação comercial com o Brasil. Já o governo brasileiro avaliou que as tarifas têm motivações políticas.
Entre os pontos citados pelos EUA estão:
PIX e serviços de pagamento: o USTR afirmou que o sistema brasileiro favorece o PIX em detrimento de empresas americanas.
Regulação de plataformas digitais: o órgão questionou decisões judiciais brasileiras envolvendo redes sociais e empresas de tecnologia dos EUA.
Acordos comerciais: os americanos criticaram tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil a parceiros como México e Índia.
Desmatamento ilegal: o relatório apontou falhas na fiscalização ambiental.
Mercado de etanol: os EUA alegaram falta de reciprocidade no acesso ao mercado brasileiro, que também produz etanol.
Propriedade intelectual: o documento citou problemas no combate à pirataria e demora na análise de patentes.
Combate à corrupção: o USTR criticou medidas adotadas pelo Brasil e cita decisões relacionadas à Operação Lava Jato.
Resposta brasileira
O governo brasileiro contestou as justificativas e classificou a medida como política e injusta, principalmente por envolver assuntos considerados internos e inegociáveis, como o Pix. A avaliação em Brasília é de que a tarifa tem motivação política.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou aliados a evitar uma reação radical e o governo manteve aberta a possibilidade de negociação.
O governo brasileiro também iniciou os trâmites para utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao país adotar medidas contra nações que imponham barreiras comerciais ao Brasil. Até então, porém, nenhuma retaliação concreta havia sido anunciada.
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