Dos vestidos longos à estética clean: como a moda mudou em Sorocaba dos anos 1950 aos 2000

  • 21/08/2026
(Foto: Reprodução)
Conheça tendências que marcaram a moda sorocabana durante as décadas de 1950 até hoje Que Sorocaba (SP) é marcada pela forte presença da indústria têxtil, muita gente já sabe. O que nem sempre vem aos holofotes é como a moda acompanhou as transformações da cidade ao longo das décadas, passando dos vestidos longos às calças boca de sino e à estética minimalista. Nesta sexta-feira (21), Dia Internacional da Moda, o g1 conversou com especialistas em moda, design, comunicação e cultura para entender como a moda mudou na cidade entre as décadas de 1950 e 2000 e quais particularidades marcaram as roupas usadas ao longo desse período. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp De acordo com a professora da Faculdade Belas Artes, Camila Alves Cruz Ortega, podemos começar a debater moda a partir do termo em alemão "zeitgeist", que pode ser traduzido como "espírito do tempo". Este termo serve para esclarecer que a moda é influenciada por tudo que está acontecendo ao seu redor, seja em questões políticas, econômicas, sociais, ambientais, tecnológicas ou culturais. Mulheres andando pelo Boulevard Braguinha, em julho de 1975, em Sorocaba (SP) Redes Sociais/Projeto Memória Jornal Cruzeiro do Sul “Cada cidade, por mais que siga tendências e independentemente do tamanho que seja, traz também as suas particularidades locais. Isso é o que enriquece a moda e faz com que a tendência seja mais autêntica em regiões distintas”, pontua. LEIA TAMBÉM Nossa Senhora da Ponte: conheça a antiga fábrica têxtil que 'teceu' a Revolução Industrial em Sorocaba Quais são os 'Sete Totens' de Sorocaba? Conheça parques, mirantes e cartões-postais da cidade Da tradição oral à virtual: grupos e perfis nas redes sociais mantêm vivas histórias de bairros e personagens de Sorocaba Já Luana Crispim Duarte, que é designer de moda, mestre em design e professora na Universidade de Sorocaba (Uniso), afirma que as décadas de 1950 a 1990 sofreram transformações muito intensas na moda. "Temos ditadura, abertura do mercado brasileiro nos anos de 1990, até então, as roupas brasileiras não eram importadas, globalização da comunicação, movimento de discussão dos direitos das mulheres, que também que alterou muito o guarda-roupa", declarou. Moda em Sorocaba e a indústria têxtil Camila afirma que, no recorte temporal escolhido pelo g1, Sorocaba foi influenciada pela moda mundial, mas também manteve características bem particulares da região, priorizando estampas e bordados. "Considerando São Paulo, que tende a trazer uma moda um pouco mais fria, um pouco mais sóbria, o interior de São Paulo já traz, de forma geral, um pouco mais de cores, elementos estampados ou bordados. Então, existe, sim, muitas vezes, uma diferença marcante entre as regiões e, principalmente, comparando com a capital do estado", disse. Já a professora Luana fez uma reflexão sobre a possível existência de uma oposição entre "moda da capital" e "moda do interior". Para a especialista, Sorocaba não estava isolada e tinha comércio, circulação de pessoas, indústria, jornais, revistas, cinema, televisão e um contato intenso com São Paulo. "As tendências chegavam, mas eram apropriadas localmente. Uma mesma tendência podia aparecer de maneira diferente dependendo da idade, da profissão, da classe social e dos espaços frequentados. E isso é importante: a moda nunca chega pronta a um território", disse Luana. Panfleto com anúncios de peças de roupa em Sorocaba (SP) na década de 1970 Jornal Cruzeiro do Sul/Reprodução "Sem considerar que a cidade em si traz esse histórico industrial têxtil, então eventualmente o uso de alguns materiais, tecidos específicos que eram produzidos em maior quantidade na região, ou então alguns elementos que são herança de pessoas que foram ficando na cidade e vieram de outros lugares", acrescentou Camila. A especialista ainda reforça o papel das costureiras em Sorocaba, pois estas profissionais tinham a função de "traduzir" roupas de modelos de revistas ou até de influência do exterior em peças para os moradores locais. Outro fator importante para a influência nos looks sorocabanos está nas vitrines, segundo a professora Luana. Antes de existir Instagram, a vitrine era uma espécie de "mídia". A pessoa caminhava pelo centro, observava as lojas, via o que os manequins estavam usando e construía seu repertório visual. "As roupas revelam muito mais do que aquilo que estava na moda. Elas mostram como as pessoas ocupavam a cidade, quais eram os códigos de comportamento e quais valores estavam associados a cada espaço", esclarece a professora Luana. Maquiagem e penteados Além das roupas, os cuidados com a beleza e os acessórios também acompanharam as grandes viradas sociais e culturais de cada época. Segundo a designer Luana Duarte, as transformações no visual feminino e masculino foram marcantes ao longo das décadas. "Passamos de penteados elaborados para cabelos soltos ou presos rapidamente. A maquiagem era leve e ultrafeminina nos anos de 1950; nos anos 60, 70 e 80, se torna mais ousada, desenhada e cheia de cores. O mesmo com acessórios: de delicados, passamos para o exagero, para retornar aos delicados", explica Luana. Maquiagens das décadas de 1950, 1970 com David Bowie e anos 2000 com Britney Spears Pixabay/Redes Sociais/Reprodução Essa mudança na forma de cuidar dos cabelos e na escolha dos penteados não ocorreu por acaso. Ela refletia diretamente a entrada e o fortalecimento das mulheres no mercado de trabalho e a consequente aceleração da rotina diária. "Sobre os cabelos, é interessante pensar que, quanto mais a mulher se insere no mercado de trabalho e nosso tempo de produtividade acelera, menos é dedicado o tempo dos penteados. Os penteados precisam ser práticos", ressalta a professora. Carnaval de 1977 com apresentação da banda de Sargentelli e suas Mulatas, em Sorocaba (SP) Reprodução Nesse cenário de transformações, os salões de beleza ganharam um papel estratégico que ia muito além da estética, funcionando como pontos de encontro socioculturais com cabelos que não exigiam muito tempo de "modelagem". "O salão de beleza, inclusive, é um espaço importante para pensar a difusão da moda. Não era apenas onde se cortava o cabelo: era também um lugar de conversa, troca de referências e atualização", completa. Anos 1950 até 1970 Durante boa parte dos anos 50, Camila explica que a aparência feminina estava principalmente relacionada a determinados códigos de feminilidade e respeitabilidade. Já Luana destaca que, entre os homens, a moda do período era mais ligada à formalidade. “Para as mulheres, a entrada mais intensa no mercado de trabalho, as transformações sociais e os movimentos de emancipação também alteraram a relação com o corpo e com a roupa”, pontua Camila. Fotografia tirada em 1952, na inauguração da iluminação do Estádio Severino Pereira da Silva, em Sorocaba (SP) Antônio Fiorotto Filho “Cintura marcada, saias amplas, vestidos e estampas delicadas. Tecidos como algodão eram maioria, já que quase não existiam tecidos sintéticos. A moda masculina era mais formal, mas, mesmo assim, leve. Nada de estampas e muitas cores claras”, acrescenta Luana. De acordo com Camila, nesse período, a roupa deixou de ser apenas um elemento de indicação de posição social ou de adequação a determinado ambiente. “Cada vez mais, passou a comunicar pertencimento, gosto, música, grupo, comportamento e identidade”, diz. Fotografia tirada em 1950, na Estação Ferroviária de Sorocaba (SP) Redes Sociais/Gal Moreira Dini Pulando para os anos 60, a professora reforça que não existe uma ruptura temporal abrupta nos estilos de roupa. Segundo ela, as transformações na moda acontecem de forma gradual, acompanhando as mudanças sociais e culturais de cada período. “Por exemplo, quando a gente fala da diferença entre a moda dos anos 50 e dos anos 60, não é como se os anos 50 tivessem acabado e, automaticamente, tudo tivesse mudado nos anos 60”, explica. No entanto, Luana pontua que, ao longo dos anos 60, a juventude ganhou protagonismo na moda feminina, marcada pela popularização da minissaia, dos vestidos mais curtos e das estampas geométricas. Fotografia tirada em 1966, na Árvore do Padre Enforcada localizada na Vila Fiori, em Sorocaba (SP) Redes Sociais/Selma Ribeiro “As referências da cultura pop e a influência da moda internacional alteraram profundamente a silhueta das mulheres. Mas o guarda-roupa masculino continuou quase igual”, diz. Já na década de 70, a designer explica que as referências da contracultura ganharam força. Calças boca de sino, estampas, tecidos naturais e franjas estão entre os elementos que marcaram a moda do período. 🔎 Contracultura é um movimento social e de comportamento que rejeita os valores, as regras e os padrões da cultura dominante. “Saias longas, peças artesanais e uma aparência mais descontraída. A roupa masculina ganha cor e estampa, e até calças boca de sino passam a ser usadas. Os cabelos femininos ficaram volumosos e os acessórios, grandes”, conclui. Fotografia tirada na década de 70, na Rua Camargo Fleury, em Sorocaba (SP) Redes Sociais/Marina de Fátima Mondin Souza Anos 80 até a atualidade Saltando para os anos 80, o período foi marcado pelo exagero em diversos aspectos. Segundo Luana, volumes, cores fortes, jeans, leggings e peças esportivas estavam entre os principais elementos da moda da década. “Esse período também ficou muito marcado pela grande valorização da imagem. Nas fotos, é legal ver como fica muito descontraído, com homens usando regatas e tudo mais”, diz. "O maximalismo também era muito presente nos anos 80. Mistura de estampas, cores mais vibrantes. Brilhos, acessórios, maxi acessórios, modelagens mais amplas, ombreiras, mangas bufantes", complementa Camila. Pedro Salomão com a Miss Recreativo em 1986, em Sorocaba (SP) Reprodução Na década de 90, algumas referências dos anos 80 ainda estavam presentes, enquanto novas estéticas também ganhavam espaço. Segundo a designer, essas tendências foram influenciadas pelos diferentes movimentos culturais e comportamentais da época. “Há um retorno mais evidente do jeans, cintura baixa, baby tees, minissaias, slip dresses, tênis, sobreposições, estética minimalista e referências grunge. Mas existe uma questão interessante: quando uma tendência retorna, ela nunca retorna exatamente igual. Ela é reinterpretada pelo presente”, explica. "As tecnologias, novos tecidos, algum tipo de inovação em modelagem ou mesmo em processos podem impactar essas novas peças, o desenvolvimento e o conforto final dessas peças", acrescenta Camila. Fotografia tirada entre os anos 80-90, no Boulevard Braguinha, em Sorocaba (SP) Redes Sociais/Memórias Sorocabanas Na virada para os anos 2000, a moda passou a explorar novas formas de mostrar o corpo, com peças que deixavam a barriga à mostra e valorizavam uma silhueta mais magra. Segundo Camila, o período também foi marcado por uma forte pressão estética sobre jovens e adolescentes. “Nessa época, a magreza extrema estava sendo muito valorizada. Então foi um momento preocupante com relação à autoestima de jovens e adolescentes, porque as calças tinham cintura mais baixa e o hábito de mostrar a barriga estava em alta”, explica. A professora também cita a influência das celebridades na popularização dessas tendências. Entre os elementos que marcaram o período estão os piercings no umbigo, os tops curtos e as sobreposições de peças. Fotografia tirada em 2010, em Sorocaba (SP) Redes Sociais/Thairine Cordeiro “A sobreposição de legging com minissaia, usando calça e saia ao mesmo tempo, era uma tendência. O moletom de veludo também foi popularizado pelas celebridades, assim como alguns bodies metalizados e de tecidos que ficavam bem ajustados ao corpo”, acrescenta. Além das roupas, os cabelos e acessórios também ganharam características próprias, segundo Camila. Os fios mais lisos e compridos eram acompanhados por presilhas coloridas, enquanto brincos grandes de argola e colares justos ao pescoço apareciam entre os acessórios mais usados. “As presilhas bombaram nessa época. O cabelo era preso com várias delas, geralmente coloridas. Também eram comuns os colares bem justos ao pescoço”, relembra. Calça cintura baixa era tendência nos anos 2000 Thairine Cordeiro Em relação aos dias atuais, Camila explica que a moda passou a misturar referências de diferentes épocas, resgatando, por exemplo, calças pantalonas, de boca larga e o modelo balloon. Ao mesmo tempo, a estética "clean girl" ganhou espaço nos penteados, na maquiagem e na preferência por produções mais minimalistas, de acordo com a professora. 🔎 "Clean girl" (ou garota limpa) é uma tendência de moda e beleza baseada em um visual minimalista, natural e sem esforço aparente. "Isso também se deve a um impacto de um crescimento no conservadorismo de forma geral, não só no Brasil, mas a nível mundial. Então, a moda também tem sido impactada por esse minimalismo e essa ideia da mulher, nesse caso, a clean girl, ou mesmo os homens se vestirem de uma forma mais neutra”, explica. Influenciadora digital Laura Seraphim, que mora em Sorocaba (SP), é um dos exemplos da moda atual Redes Sociais/Reprodução Segundo ela, a mudança também acompanha a rotina cada vez mais movimentada das mulheres, que conciliam trabalho, estudos e tarefas domésticas. “Quer queira ou não, o cuidado do lar ainda está muito relacionado ao papel da mulher. E aí a gente tem esse impacto na moda. O vestuário feminino se adaptou nesses últimos tempos e, hoje, ele se torna muito mais ergonômico, mais confortável para a mulher no mercado de trabalho”, pontua. Para Camila, a busca por conforto também aparece na combinação entre peças de diferentes estilos e na adaptação de roupas tradicionalmente formais. “O uso de tênis, a adaptação das roupas de alfaiataria para tecidos mais confortáveis e os caimentos não tão justos permitem uma movimentação maior. Além disso, com a globalização e as microtendências, eventualmente podemos ver pelas ruas peças e combinações mais inusitadas e temporárias, que trazem tendências muito passageiras e cores que são totalmente atemporais”, finaliza. Especialista em moda, comunicação e cultura, professora Camila Alves Cruz Ortega Arquivo pessoal Luana Crispim Duarte, designer de moda e mestre em design Arquivo pessoal *Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/08/21/dos-vestidos-longos-a-estetica-clean-como-a-moda-mudou-em-sorocaba-dos-anos-1950-aos-2000.ghtml


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