‘Dor sem tamanho’, diz pai de adolescente que morreu após descarga elétrica em igarapé no Acre
07/04/2026
(Foto: Reprodução) ‘Dor sem tamanho’, diz pai de adolescente que morreu eletrocutado em igarapé no AC
"É uma dor sem tamanho. Eu não estou me controlando."
Este é o relato do agricultor Osamir Braga da Silva, pai de Osanir Gomes da Silva, de 15 anos, um dos adolescentes que morreram após uma descarga elétrica em um igarapé na tarde da última segunda-feira (6), no Ramal do Manã, zona rural de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre.
Em entrevista à Rede Amazônica, Osamir contou que foi avisado do acidente por outro adolescente que estava com o grupo no momento. Segundo ele, os jovens haviam estudado pela manhã e se preparavam para retornar à escola à tarde quando decidiram ir ao igarapé.
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👉 Contexto: Osanir morreu junto com Miquéias Oliveira da Silva, de 13 anos, e Uallen Souza Rodrigues, de 14, enquanto os três tomavam banho no local após saírem da escola. A família acredita que eles foram atingidos pela descarga de um peixe-elétrico, conhecido popularmente como poraquê, dentro do igarapé, e descartam a hipótese de ter sido causado por fiação elétrica.
“A gente conhece o lugar. Não tem fio dentro do igarapé. A fiação passa longe, é alta. Também não foi afogamento, porque eles sabiam nadar, brincavam ali. Na região tem muito poraquê, principalmente nessa época do ano quando eles sobem para áreas mais rasas”, disse.
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Segundo o agricultor, apesar da presença do animal em pontos próximos, nunca havia sido registrado um caso semelhante a este no trecho do igarapé, que fica perto da casa da família e tem cerca de um metro de profundidade. Abalado, Osemir também relatou que a família ainda tenta lidar com a perda.
“Lá mais para baixo já vimos poraquê grande, de mais de um metro. Mas o que fez isso com eles foi um menor. A Polícia Militar esteve lá comigo e viu que não tem fiação elétrica. Para a gente, foi o peixe mesmo”, afirmou.
Osanir, Miquéias e Uallen foram ao igarapé após aula de educação física
Arquivo pessoal
Atendimento e resgate
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado por meio de mensagens, já que a área é de difícil acesso. Segundo o diretor clínico, Caio Magalhães, o chamado inicial indicava apenas uma vítima, mas depois foi atualizado para três adolescentes.
Moradores da região levaram os jovens até um ponto de acesso na estrada, onde as equipes conseguiram chegar. O primeiro atendimento foi feito por uma equipe da comunidade Santa Luzia, e, em seguida, houve a interceptação com uma unidade avançada.
Quando os socorristas encontraram as vítimas, Miquéias e Uallen já haviam ido a óbito. Osanir ainda apresentava sinais de vida, mas evoluiu para parada cardiorrespiratória dentro da ambulância.
“As equipes fizeram todas as manobras de reanimação possíveis, inclusive com intubação, e prolongaram o atendimento além do tempo habitual por se tratar de uma criança, mas infelizmente não houve resposta”, informou Caio.
Adolescentes morreram quando tomavam banho em igarapé
Arquivo pessoal
Ainda de acordo com o Samu, os três apresentavam sinais de afogamento, como presença de líquido nos pulmões e espuma pela boca, o que indica que perderam a consciência dentro da água.
Apesar do relato da família sobre a presença de um peixe-elétrico, o diretor Caio Magalhães destacou que ainda não é possível confirmar a origem da descarga elétrica.
“Os populares e familiares falam que foi o peixe elétrico, mas a gente não acredita tanto nessa alternativa, a não ser que eles três estivessem de mão dadas e em contato direto, porque o choque do poraquê é por contato”, explicou.
Diferentemente da família, a equipe considera a possibilidade de contato com fiação elétrica que possa ter atingido a água.
“Pode ter sido uma área alagada onde a água acabou encostando em um fio que normalmente ficaria fora, e isso ter provocado a descarga elétrica. Esse choque pode fazer com que a pessoa perca a consciência e acabe se afogando”, completou.
Peixe-elétrico
Os poraquês (Electrophorus electricus) são os peixes-elétricos conhecidos pelo tamanho (podem chegar a até 2,5 metros) e, principalmente, pela capacidade de emitir descargas elétricas de até 860 volts, capazes de paralisar presas e causar dores fortes em humanos.
De acordo com o biólogo, mestre e doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar, Lisandro Juno Soares Vieira, os choques são produzidos por células especializadas presentes no corpo do animal.
“O corpo do peixe tem células chamadas eletrócitos, que geram uma diferença de potencial elétrico. Essas células são organizadas ao longo do corpo e, quando ativadas, produzem a descarga”, explicou.
Segundo o especialista, o poraquê não ataca pessoas de forma intencional, mas reage quando se sente ameaçado.
“É um mecanismo de defesa. O peixe não ataca, se defende. Quando acionado, o sistema nervoso gera essa descarga elétrica, que pode ser bastante forte”, disse.
Poraquê é o conhecido peixe-elétrico que habita os rios da Amazônia
Reprodução
Lisandro destacou que o choque costuma ocorrer por contato direto, mas pessoas muito próximas também podem ser atingidas pelo campo elétrico gerado na água.
O biólogo também alertou para cuidados, principalmente em áreas de água turva ou rasa, onde o animal costuma subir à superfície para respirar.
“É importante evitar entrar diretamente na água sem observar o local. Em regiões onde há ocorrência do peixe, o ideal é redobrar a atenção, principalmente com crianças e idosos. Pescadores também devem evitar o contato direto e usar proteção”, orientou.
VÍDEO: g1