Do bem-te-vi ao falcão-peregrino: aves migratórias ganham destaque antes da COP15
09/03/2026
(Foto: Reprodução) Campo Grande na COP-15
Às vésperas da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Selvagens (COP15/CMS), especialistas destacam a importância de Campo Grande para a biodiversidade. Levantamentos apontam que a capital de Mato Grosso do Sul abriga cerca de 400 espécies de aves nas áreas urbana e periurbana, sendo aproximadamente 20% delas migratórias.
Entre os dias 23 e 29 de março de 2026, a cidade será sede de um dos principais eventos ambientais do mundo, promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU).
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp
A expectativa é que entre 2 mil e 3 mil representantes de mais de 130 países participem das discussões sobre estratégias globais de proteção das espécies migratórias.
Refúgio para aves
Campo Grande é reconhecida internacionalmente pela presença de áreas verdes, parques ecológicos, cursos d’água e vegetação espalhada por diversos bairros. Essa combinação transforma a cidade em um importante refúgio para a fauna, especialmente para aves que cruzam continentes e encontram na região locais de descanso, alimentação e até reprodução.
A pesquisadora e educadora ambiental Maristela Benites, do Instituto Mamede de Pesquisa Ambiental e Ecoturismo, explica que a diversidade de aves na cidade é surpreendente.
Segundo ela, o fenômeno da migração faz parte do ciclo natural de diversas espécies.
“A migração é um fenômeno natural e biológico que provoca deslocamentos periódicos de populações animais entre regiões diferentes, geralmente entre áreas de reprodução e locais de alimentação ou descanso”, explica.
Aves que cruzam continentes
Campo Grande é refúgio de aves migratórias
Simone Mamede/ Suzana Arakaki
Diferentes espécies passam por Campo Grande ao longo do ano, seguindo ciclos naturais em busca de alimento, clima favorável ou locais de reprodução.
Entre os grupos que utilizam a região estão as aves migrantes neárticas, que vêm da América do Norte para fugir do inverno rigoroso do hemisfério norte. Elas costumam aparecer com mais frequência entre agosto e abril.
Entre essas espécies estão:
maçaricos
sovi-do-norte
águia-pescadora
falcão-peregrino, considerado o animal mais rápido do planeta, capaz de atingir cerca de 300 km/h.
Também passam pela região as chamadas aves migrantes austrais, que realizam deslocamentos dentro da América do Sul em busca de temperaturas mais amenas. Elas costumam ser vistas entre abril e novembro, como o príncipe e a calhandra-de-três-rabos.
Outro grupo é formado por aves que se reproduzem no sul e sudeste do Brasil e depois seguem para o norte do continente, muitas vezes até a Amazônia. Entre elas estão:
tesourinha
bem-te-vi-rajado
suiriri
Essas espécies costumam ser observadas na cidade entre o final de julho e março ou abril.
Importância das áreas verdes
Segundo especialistas, esses deslocamentos seguem ciclos naturais que se repetem todos os anos. Muitas aves guardam memória dos locais onde encontram alimento, abrigo e condições adequadas para descansar durante suas longas jornadas.
Por isso, a preservação de áreas verdes, árvores e fontes de água é considerada essencial para garantir que Campo Grande continue sendo um ponto seguro nas rotas migratórias.
A gerente de Arborização da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades), Dayane Zanela, explica que a arborização urbana tem papel estratégico.
“Árvores, parques e corredores verdes oferecem abrigo, locais de repouso, suporte alimentar e condições ambientais favoráveis para essas espécies durante seus deslocamentos”, afirma.
Esse conjunto de políticas ambientais ajudou a consolidar o reconhecimento de Campo Grande como Capital do Turismo de Observação de Aves.
A cidade também recebeu seis vezes o título internacional “Tree City of the World”, concedido a municípios que adotam políticas de preservação e gestão urbana voltadas ao meio ambiente.
COP15 deve reunir representantes de mais de 130 países
Durante a COP15, autoridades, cientistas, organizações ambientais e representantes da sociedade civil vão discutir medidas para fortalecer a proteção das espécies migratórias em todo o planeta.
Entre os temas que devem ser debatidos estão:
combate à captura ilegal de animais
criação de planos de conservação para espécies ameaçadas
proteção de corredores ecológicos usados nas rotas migratórias
impactos das mudanças climáticas e da perda de habitat.
Atualmente, cerca de 1.189 espécies migratórias são protegidas pela convenção internacional, incluindo aves, mamíferos, peixes, répteis e até insetos.
Pantanal coloca MS no centro do debate ambiental
A escolha de Mato Grosso do Sul para sediar o evento também está ligada à importância do Pantanal, considerado a maior área alagável do mundo. O bioma funciona como ponto estratégico para diversas espécies migratórias que utilizam a região como local de descanso e alimentação durante longas viagens.
Além da importância ecológica, esses animais também têm impacto direto na vida humana. Eles contribuem, por exemplo, para a polinização de plantas, dispersão de sementes e manutenção dos ecossistemas, além de estimular atividades econômicas sustentáveis, como o ecoturismo.
Para Maristela Benites, sediar um evento desse porte representa um marco para o município e para o estado.
“É um momento histórico para Mato Grosso do Sul. O evento coloca Campo Grande como palco das discussões globais sobre conservação ambiental, além de mostrar nossa biodiversidade, nossos biomas e mobilizar a sociedade para um tema fundamental”, afirma.
Durante a conferência, o Instituto Mamede também participará da programação científica, coordenando uma mesa sobre observação de aves e espécies migratórias, além de lançar o livro Aves do Caminho da Escola, que aborda a relação entre educação ambiental e a observação de aves no cotidiano.
Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: