De vítima de tráfico humano a liderança comunitária: quem foi Dona Carmem, fundadora da Comunidade Menino Chorão

  • 28/08/2026
(Foto: Reprodução)
Líder e fundadora da 'Comunidade Menino Chorão', Maria do Carmo Pereira, ou Carmen, como era chamada Maria do Carmo Pereira/Reprodução/Redes sociais Maria do Carmo de Sousa, a Dona Carmem, morreu nesta quinta-feira (27), aos 56 anos, em Campinas (SP). Com uma vida marcada por dificuldades, violência e sucessivos recomeços, ela transformou a própria trajetória em luta social ao fundar a Comunidade Feminista Menino Chorão. No local, centenas de famílias em situação de vulnerabilidade encontraram moradia, acolhimento e uma rede de apoio liderada exclusivamente por mulheres. Cearense, nascida em 3 de abril de 1970, Carmem contou em entrevista ao g1, em 2023, que chegou ao interior de São Paulo após ser vítima de tráfico humano. Ela relatou que conseguiu fugir do local onde era mantida com outras quatro amigas após 40 dias. As mulheres buscaram ajuda e foram acolhidas pelo Centro de Promoção para um Mundo Melhor (Cepromm) e pelo SOS Mulher. Mesmo com a possibilidade de retornar ao Ceará, Carmem decidiu permanecer em Campinas para reconstruir a vida e ajudar os cinco filhos que haviam ficado em Fortaleza. "Eu não quis voltar porque senti que aqui eu tinha uma nova chance. Fortaleza era uma cidade machista, racista e homofóbica, e não tem emprego para mulher lá, é só para limpar chão ou para cozinha, mais nada. Hoje mudou, mas na época, em 2004, era muito difícil". ARQUIVO: fundadora de comunidade feminista em Campinas conta como ocupação se organiza Na nova cidade, ela abriu um salão de beleza na Vila Aeroporto e passou a viver com um companheiro. A aparente estabilidade, no entanto, foi interrompida por uma tragédia e um golpe. Após viajar para Fortaleza para o velório de um dos filhos, Carmem voltou e descobriu que o parceiro havia furtado todos os seus bens. "Ele tinha me roubado tudo, ele tinha sumido com as minhas coisas. Eu só não fiquei na rua porque o aluguel era no meu nome. Eu não tinha nenhum pano para dormir, não tinha uma tesoura para cortar cabelo." Sem recursos, Carmem se mudou para uma ocupação no Jardim São Domingos, em 2008. Após uma reintegração de posse, passou uma semana vivendo nas ruas ao lado de outras mulheres. O grupo seguiu para uma ocupação no Jardim Marisa, mas, segundo ela, enfrentou extorsões e ameaças de agressão por parte dos homens que comandavam o local. "A gente ficou bem chateada porque eles tiraram dinheiro nosso, e depois nos deixaram 'na mão'. Eram homens que queriam bater por qualquer coisinha. Todo dia tinha um negócio de tirar dinheiro. A gente deu o que tinha e o que não tinha." Posteriormente, as mulheres também foram despejadas dali. Sem destino, encontraram um terreno vazio na região do Campo Belo. Foi naquele espaço que surgiria a Comunidade Feminista Menino Chorão. Comunidade construída por mulheres Comunidade Feminista Menino Chorão, em Campinas (SP) Acervo pessoal/Maria do Carmo Pereira A ocupação começou com cerca de 50 mulheres e uma decisão tomada coletivamente: a liderança seria feminina. "Quando a gente entrou aqui, se reuniu e falou: 'Não vamos aceitar homens aqui dentro mandando na nossa comunidade, quem vai mandar somos nós mesmas'." Ao longo dos anos, a comunidade cresceu e passou a abrigar 381 famílias. O local se tornou referência em acolhimento a mulheres e famílias vulneráveis, com iniciativas como horta comunitária, oficinas de costura e artesanato, reforço escolar e a chamada "Cozinha das Pretas". Durante a pandemia de Covid-19, a mobilização liderada por Carmem garantiu alimentação para moradores que enfrentavam dificuldades financeiras. A cozinha comunitária chegou a distribuir cerca de 160 marmitas por dia e 300 sopas aos fins de semana. O nome da comunidade é uma homenagem ao cantor Alexandre Magno Abrão, o Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr. Segundo Carmem, ele foi um dos primeiros apoiadores da ocupação, ajudando com alimentos, medicamentos, materiais de construção e melhorias na infraestrutura do local. Tratamento de câncer Em setembro de 2022, a líder comunitária recebeu o diagnóstico de câncer de mama. O tratamento a afastou temporariamente das atividades da comunidade, mas não interrompeu sua atuação na defesa das mulheres e do direito à moradia. Dona Carmem morreu nesta quinta-feira deixando um legado construído a partir da própria experiência de exclusão, violência e pobreza. A trajetória que começou com a busca por um lugar para recomeçar acabou transformando a vida de centenas de outras mulheres. Nas redes sociais, a Comunidade Feminista Menino Chorão resumiu a despedida em uma mensagem de gratidão: "Dona Carmem deixa um legado de amor, resistência e transformação que jamais será esquecido. Sua voz seguirá ecoando em cada conquista da nossa luta." O corpo de Dona Carmem foi sepultado nesta sexta-feira (28), no Cemitério dos Amarais, em Campinas. VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias da região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/08/28/de-vitima-de-trafico-humano-a-lideranca-comunitaria-quem-foi-dona-carmem-fundadora-da-comunidade-menino-chorao.ghtml


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