De casas de luxo a saques de R$ 100 milhões: polícia descobriu esquema para lavar dinheiro do jogo do bicho oferecido ao crime organizado no RJ
26/08/2026
(Foto: Reprodução) Alessandro (na ponta à esquerda), Filipe (à esquerda), Nathan e a esposa Thaís (à direita) e Jonathan (na ponta à direita) são investigados
Arquivo pessoal
A Polícia Federal concluiu o inquérito contra oito integrantes do grupo suspeito de operar um esquema bilionário de lavagem de dinheiro para ocultar os recursos do jogo do bicho e máquinas de azar, criado em São José do Rio Preto (SP). Agora, cabe ao Ministério Público analisar o relatório e decidir se envia ou não a denúncia à Justiça.
Os investigados foram indiciados pela polícia por organização criminosa e lavagem de dinheiro. As penas para estes crimes variam de três a dez anos. As informações foram obtidas com exclusividade pela produtora de reportagens Janaína de Paula e a repórter Gridância Brait, ambas da TV TEM.
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Um dos principais alvos é o construtor Nathan Malavasi, que mantinha uma empresa em Rio Preto e, nas redes sociais, mostrava obras de alto padrão, projetos arquitetônicos e a entrega de imóveis aos clientes.
Nathan e o pai dele, o empresário Alessandro Marcos Malavasi, são apontados como chefes do grupo, que movimentou mais de R$ 100 milhões em saques em espécie para atender às operações. Eles foram presos em julho, em Rio Preto, junto com dois funcionários da empresa.
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Nas redes sociais, Nathan construía a imagem de um empresário do interior paulista que vendia o sonho de clientes de morar em casas de alto padrão. Vídeos publicados por ele mostravam obras luxuosas, detalhes arquitetônicos e entregas marcadas por discursos emocionados.
As investigações da Polícia Federal e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) mostram que a organização criou empresas de fachada em nome de laranjas e usou máquinas de cartão e sistemas de pagamento por PIX para receber dinheiro em pontos de jogo do bicho e vídeo-bingo.
De acordo com a polícia, os clientes e negociadores dos imóveis construídos pela empresa de Nathan não têm relação com a organização criminosa e não são alvos da investigação.
Alessandro Malavasi (à esquerda) e o filho dele, Natan Malavasi (à direita), foram presos em Rio Preto (SP)
Arquivo pessoal
Como funcionava o esquema
A estrutura foi criada em Rio Preto e depois passou a operar no Rio de Janeiro e outros estados, a partir de 2014. A investigação começou em 2015 focada em Alessandro Malavasi, suspeito de movimentar milhões de reais sem garantia.
Após o indiciamento de Alessandro, o filho Nathan assumiu o protagonismo das operações. Ele expandiu a rede criminosa com novas empresas de fachada e operadores para lavar dinheiro dos jogos de azar: ele escoava os lucros obtidos para organizações criminosas do RJ.
A estratégia, de acordo com o promotor Thiago Dutra Fonseca, surgiu diante da redução do uso de dinheiro em espécie. “Pontos de vídeo-bingo ou jogo do bicho que recebiam pagamentos em espécie necessitavam de pagamento digital, como cartão de crédito, débito e PIX”, explica o promotor.
Para driblar mecanismos de segurança de bancos e empresas de cartão, os criminosos criaram empresas formalmente ligadas a setores como eventos, entretenimento e venda de ingressos.
Essas empresas contratavam credenciadoras de cartões e recebiam maquininhas e sistemas de pagamento. Os equipamentos eram então levados para pontos de jogo do bicho e vídeo-bingo, que funcionavam principalmente à noite e durante a madrugada.
Como as empresas tinham atividades que naturalmente poderiam apresentar variações de faturamento, milhares de transações não necessariamente chamavam a atenção dos sistemas antifraude, segundo os investigadores.
Mecanismo operacional da lavagem:
Máquinas de cartão: o pilar do esquema consiste no fornecimento de máquinas de cartão vinculadas a empresas de fachada para pontos de exploração ilegal de jogo do bicho e vídeobingo no Rio de Janeiro. Os apostadores faziam transações que alimentam as contas do grupo.
Antecipação e saques: os valores recebidos passam por contas de passagem, sofrem antecipação de crédito e grande parte é sacada em espécie (estimado em mais de R$ 100 milhões no período monitorado) para, depois, retornar aos pontos de jogos ou pagar milícias, interrompendo a rastreabilidade bancária.
Confusão patrimonial: empresas como a Construtora Nathan Malavasi foram criadas em Rio Preto para misturar recursos lícitos e ilícitos, simulando legalidade no ramo imobiliário de alto padrão na remuneração de Nathan.
Mais de R$ 100 milhões em saques
Empresários criaram esquema bilionário para lavar dinheiro do jogo do bicho em Rio Preto (SP)
Reprodução/TV TEM
Com a quebra de sigilo bancário autorizada judicialmente para o período de janeiro de 2019 a março de 2026, a Polícia Federal constatou que o grupo movimentou uma cifra aproximada de R$ 2 bilhões.
Um dos indícios que levaram os investigadores a relacionar o esquema ao jogo do bicho foram os saques recorrentes de grandes quantias em dinheiro. Segundo a Polícia Federal, foram identificados saques que ultrapassaram R$ 100 milhões.
A suspeita é de que parte do dinheiro retornava ao circuito do jogo do bicho para pagamento de prêmios e aos responsáveis pelas bancas, além de permitir a retirada dos lucros pelos operadores do esquema.
Em uma das ações, a polícia conseguiu acompanhar um saque e apreendeu mais de R$ 480 mil em dinheiro, além de um veículo de luxo blindado.
“A ideia era que ele voltasse ou para pagar os prêmios dos bicheiros, daí a frequência dos saques em espécie ou dos apostadores, ou para que o contraventor tivesse seu lucro”, reforça o delegado-chefe da Polícia Federal, Alexandre Manoel Gonçalves.
‘Laranjas’ movimentavam milhões
Filipe foi flagrado fazendo saques em dinheiro no Rio de Janeiro
Arquivo pessoal
Um dos investigados apontados pela polícia como integrante do esquema é Filipe de Oliveira Santos. Segundo as investigações, ele era dono da empresa Distribuidora Camarote Carioca, que registrou movimentação financeira de R$ 52 milhões entre 2019 e2025.
Filipe também foi flagrado fazendo saques de dinheiro em espécie. Em duas ocasiões, nos dias 17 de setembro e 10 de novembro de 2025, foram apreendidos aproximadamente R$ 600 mil, além de máquinas de cartão.
Os equipamentos estavam vinculados à empresa Prorio Soluções e Entretenimento, que tem como único proprietário Jonathan da Silva Martiniano, gerente da construtora de Nathan em São José do Rio Preto.
Segundo a investigação, comprovantes de pagamentos feitos com cartão em pontos de jogo do bicho e planilhas com o balanço das operações foram encontrados e passaram a integrar as provas reunidas pela polícia.
Filipe foi ouvido nas duas ocasiões e liberado. Agora, ele é considerado foragido. Segundo a Polícia Federal, ele estava na Colômbia quando a operação foi deflagrada. Imagens publicadas nas redes sociais mostram momentos da viagem.
Ele chegou a fazer check-in no aeroporto de Bogotá para retornar ao Brasil, mas não embarcou no voo e passou a ser procurado.
Luxo e planos de fuga
Investigados de Rio Preto (SP) ostentam vida de luxo
Arquivo pessoal
Segundo a Polícia Federal, depois que os saques de grandes quantias passaram a ser identificados, Nathan também começou a preparar uma possível fuga do país. A investigação aponta que ele deixou de construir imóveis para venda e devolveu a casa que alugava em um condomínio.
Em setembro do ano passado, a mulher dele, Thais Zanolla, se mudou para Miami, nos Estados Unidos. Segundo a polícia, Nathan fez duas viagens ao país e pretendia deixar o Brasil definitivamente. Ele voltou para resolver pendências relacionadas à construtora, mas foi preso antes de conseguir retornar aos Estados Unidos.
A mulher é considerada foragida e, segundo a investigação, teria participado da ocultação de patrimônio do grupo e da preparação da fuga do empresário.
Quem está no topo?
A apuração da polícia e do Ministério Público agora tenta identificar quem estaria no topo da estrutura criminosa e seria o principal beneficiário dos valores movimentados pelo esquema.
Segundo o Gaeco, a organização era formada por várias camadas de empresas, terceiros e pessoas usadas como laranjas, que dificultavam a identificação dos verdadeiros responsáveis pelo dinheiro.
O que dizem as defesas?
A defesa de Jonathan da Silva Martiniano, apontado nas investigações como gerente da construtora de Nathan, informou que apresentou um pedido de revogação da prisão preventiva e aguarda a análise da Justiça. O advogado afirmou ainda que a defesa está analisando as provas reunidas no processo para definir a estratégia a ser adotada.
Em nota, os advogados Eugênio Carlo Balliano Malavasi e Patrick Raasch Cardoso, que recentemente assumiram a defesa de Nathan Malavasi e Thais Zanolla, afirmaram que confiam na Justiça e no devido processo legal.
Segundo os advogados, a defesa acompanha todos os atos processuais para garantir os direitos dos investigados. A defesa também afirmou que as informações divulgadas até o momento representam uma versão preliminar e unilateral dos fatos.
A TV TEM não localizou a defesa de Alessandro e Filipe.
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