De câmeras soviéticas a aplicativos: o que mudou na rotina dos detetives particulares no interior de SP
30/08/2026
(Foto: Reprodução) De câmeras soviéticas a aplicativos: o que mudou na rotina dos detetives particulares
Os filmes de Hollywood ajudaram a entalhar a imagem de um detetive particular na memória coletiva: sobretudo, chapéu e um olhar atento por trás de um jornal impresso, acompanhando cada passo dos seus alvos. A realidade, porém, é um pouco mais digital do que isso.
Ao longo dos anos, a profissão precisou se adaptar às novidades tecnológicas e às mudanças de comportamento da sociedade. Com o aumento dos casos de feminicídio, por exemplo, o serviço de localizar ex-companheiras após o fim de relacionamentos foi retirado do catálogo.
Todo dia tem mudança. Mudança de comportamento de pessoas, de tecnologia, no psicológico das pessoas, tudo isso altera a cada dia. Se você ficar parado no tempo, sem se atualizar, sem estudar e pesquisar, você fica para trás.
🕵️ Em Campinas (SP), quatro profissionais ouvidos pelo g1 mergulharam em décadas de investigações e revelaram o que mudou no ramo de trabalho. Todos eles adiantaram que, apesar da constante transformação, uma máxima atravessa os anos: o sigilo.
Milton Silveira, detetive particular de Campinas (SP) que atua na área há 38 anos
Reprodução/Instagram
De câmeras soviéticas aos celulares
A mudança principal foi nos equipamentos. Silveira ainda lembra do início da carreira, quando vigiava os alvos usando uma câmera analógica da marca soviética Zenit. O Guia Quatro Rodas ocupava lugar fixo no painel do carro, anos antes de sequer imaginar a chegada dos aplicativos de navegação.
"Outro dia mesmo eu estava fazendo uma verificação de um material e pensei até em montar um museu para os detetives. Nossa, o que tem de coisas ali que eu falei 'Meu Deus, eu usava isso aqui'. Hoje as coisas tomaram um rumo totalmente diferente", relembrou o detetive.
Silveira relata que, em muitos casos, as câmeras profissionais deram lugar aos celulares ou até mesmo a equipamentos mais discretos, escondidos em gravatas ou bonés.
O detetive particular Eugênio Neto trabalha na área há cerca de duas décadas e também sentiu na pele as mudanças trazidas pela tecnologia. Ele ainda lembra de chegar em cidades pequenas e, sem sites de busca em mãos, pedir informações para pedestres ou em postos de combustíveis.
"Chegava em uma cidadezinha pequena e perguntava 'Onde fica a rua tal?'. O cara falava 'Você vai na casa de quem?'. Aí já queimava [a investigação], tinha que inventar uma história", relatou Neto, bem-humorado.
Novos medos, novas demandas
Apesar de as investigações conjugais ainda serem o carro-chefe, as mudanças sociais ao longo dos anos também mudaram as demandas. Neto afirma que depois da pandemia, por exemplo, passou a receber diversos contatos de pessoas com medo de sair de casa porque acreditavam estar sendo seguidas.
"A pessoa acha que está sendo seguida, que o vizinho está escutando a conversa. Acha que vai num lugar e todo mundo ri da cara dele. Quer saber quem é que espalhou [algum boato], diz que vai nos lugares e todo mundo fica apontando, rindo", detalhou.
🔎 O que muitos talvez não saibam é que a atuação de um detetive particular vai além de suspeitas de traição. É comum que esses profissionais sejam acionados para atuar em investigações trabalhistas e até mesmo criminais, ajudando a levar procurados à Justiça.
"Golpistas, pessoas se escondendo da Justiça, tem demais. Você precisa achar a pessoa para citar [no processo] e, se não encontrar, ela pode ficar impune", disse Neto.
"Fiz muito trabalho em parceria com o setor de antissequestro de Campinas. Existem muitas histórias que a gente fica nos bastidores, muita colaboração no setor de narcotráfico também", complementou o detetive Milton Silveira.
'Entra sem ser visto e sai sem ser notado'
Vanessa Pasqual, de Campinas (SP), detetive particular há 15 anos
Vanessa Pasqual/Arquivo pessoal
Para Vanessa Pasqual, detetive particular há 15 anos, uma das motivações para resistir no setor é a possibilidade de ajudar outras mulheres em momentos de angústia nos relacionamentos. "Quando elas vêm, elas vêm com um problema muito grande e emocional", afirmou.
"Para mim vale muito a pena [ser detetive particular]. [...] Eu já cheguei a levar mulheres ao shopping para comprar roupas, sapatos e maquiagem; eram pessoas totalmente sem vontade de se arrumar, e pude ver a autoestima delas voltar", contou Pasqual.
Karla Alves faz investigações há 30 anos. Nessas três décadas, viu o perfil dos clientes que buscam investigações conjugais mudar drasticamente. "Chegamos a ter 70% de clientes mulheres. Hoje, eu diria que a proporção está em 50/50. Muitos homens estão nos procurando".
"Os maridos, que antes eram os traidores, hoje são também os traídos", ressaltou a detetive.
Alves afirma que conta com sete agentes na equipe. Hoje, ela atua menos nas ruas e se concentra principalmente na área comercial da empresa, além de dar cursos para outros detetives. As "tocaias" ficaram a cargo dos freelancers.
"Os agentes normalmente não têm acesso nenhum ao cliente, não sabem nem o nome dele. Eles só desenvolvem aquele trabalho de campana, de foto, com muito sigilo, com muita discrição. É um agente invisível. Entra sem ser visto e sai sem ser notado", disse.
Karla Alves, detetive particular que atua em Campinas (SP)
Karla Alves/Arquivo pessoal
Quanto custa contratar um detetive
Os quatro detetives que relataram as rotinas à reportagem evitaram revelar quanto cobram pelos serviços. Segundo eles, o preço varia conforme a duração, os deslocamentos, o número de profissionais envolvidos e a complexidade de cada investigação.
Marcelo Carneiro de Souza, vice-presidente da Associação Nacional dos Detetives e Investigadores Privados do Brasil (Anadip) e detetive há 24 anos, deu uma referência. Uma investigação costuma partir de R$ 13 mil a R$ 15 mil. Casos mais longos e complexos podem chegar a R$ 30 mil ou mais.
“O detetive gasta muito. Tem muito custo com equipe, colaboradores, equipamentos. Então, entre R$ 13 mil e R$ 15 mil é uma média inicial. Tem investigações maiores, que levam mais tempo e são de maior complexidade. Esses casos podem chegar a R$ 30 mil ou até mais”, explicou.
Hoje, não é obrigatório ter diploma, curso específico ou registro profissional federal para atuar como detetive particular. A profissão é regulamentada pela Lei nº 13.432/2017.
Pela lei, o detetive deve:
trabalhar com contrato escrito;
preservar o sigilo e a privacidade das pessoas;
entregar ao cliente um relatório da investigação;
recusar serviços que envolvam crime ou discriminação.
A lei define a atividade como a coleta de informações de natureza não criminal. Em uma investigação policial em andamento, o detetive pode colaborar, desde que tenha autorização do contratante e que o delegado responsável aceite essa participação.
Para Souza, a regulamentação trouxe mais reconhecimento para a categoria. “Esses reconhecimentos vêm gerando cada vez mais credibilidade para a profissão, mais tranquilidade para a sociedade no momento da contratação. E os profissionais estão buscando cada vez mais qualificação”, afirmou.
As regras podem mudar. Em maio de 2026, a Comissão de Trabalho da Câmara aprovou uma proposta que cria registro profissional obrigatório no Ministério do Trabalho e Emprego e estabelece outros requisitos para atuar na área. O projeto ainda está em tramitação e não virou lei.
➡️ Como saber, então, se um detetive particular é confiável?
Segundo Souza, o primeiro passo é verificar se o profissional tem endereço de atendimento e, conforme as regras de cada prefeitura, inscrição municipal e alvará.
No caso de empresas, também orienta checar se o CNPJ está ativo.
Fazer parte de uma associação da categoria pode ser outro indicativo de confiança, mas não é obrigatório.
Em Campinas, o número de empresas e autônomos ativos no CNAE 8030-7/00, de atividades de investigação particular, passou de 14, em 2021, para 26, em 2025, segundo a prefeitura.
O número não corresponde necessariamente ao total de detetives na cidade, porque o cadastro contabiliza empresas e profissionais autônomos, e uma mesma empresa pode reunir mais de um investigador.
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