Da cana ao petróleo: como indústria de Pernambuco se transformou e o que falta para setor crescer

  • 31/10/2026
(Foto: Reprodução)
Pesquisador fala sobre queda de participação da indústria na economia de Pernambuco "Motor" que impulsionou o desenvolvimento econômico de Pernambuco desde a época colonial, o cultivo da cana-de-açúcar teve que se modernizar e transformou as paisagens dos antigos engenhos em usinas. Com o passar dos séculos, a indústria pernambucana se tornou mais diversificada e descentralizada, mas enfrenta desafios para crescer e se manter competitiva (veja vídeo acima). Especialistas ouvidos pelo g1 analisam as mudanças no setor. Embora a produção canavieira e a fabricação de alimentos e bebidas ocupem um papel importante até hoje, o estado ainda apresenta problemas estruturais que limitam a abertura de fábricas e a geração de empregos, especialmente nos segmentos de alta complexidade tecnológica, com risco de desindustrialização (saiba mais abaixo). ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE Em 2025, o setor de alimentos, que inclui as usinas de açúcar e álcool, foi responsável por 34.770 admissões na indústria do estado, o equivalente a cerca de 35% do total de 98.290 contratações registradas no período, segundo dados da Secretaria de Desenvolvimento Profissional e Empreendedorismo de Pernambuco (Sedepe). Além da produção açucareira, outros segmentos também se destacaram. O setor de confecção e vestuário registrou 8.563 admissões, seguido pelo de minerais não metálicos, que inclui atividades ligadas à fabricação de cimento, cerâmica e vidro, com 6.587 contratações. Confira o ranking abaixo: Alimentos: 34.770 admissões Confecção e vestuário: 8.563 admissões Minerais não metálicos (cimento, cerâmica, vidro): 6.587 admissões Manutenção e instalação de máquinas: 5.699 admissões Produtos de metal: 5.131 admissões Borracha e plástico: 5.032 admissões Veículos automotores: 4.069 admissões Resíduos e reciclagem: 3.745 admissões Em 2026, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção industrial do estado cresceu 13,9% entre janeiro e agosto. Cerca de 70% desse crescimento foi impulsionado pelas operações da Refinaria Abreu e Lima, de acordo com o governo do estado. Em entrevista ao g1, a secretária de Desenvolvimento Econômico, Danielle Jar Souto, disse que a perspectiva para os próximos anos é investir no setor de biocombustíveis e melhorar a integração entre empresas e instituições de ensino (saiba mais abaixo). Para o professor aposentado do Departamento de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) João Policarpo Lima, o perfil industrial do estado passa por uma transformação. Embora o setor açucareiro tenha ocupado uma posição central durante séculos, outros segmentos ganharam espaço com a implantação de projetos estruturantes a partir das décadas de 2000 e 2010. O setor açucareiro era o setor mais importante da indústria. Passou séculos sendo um setor importante, exportador. Entrou em crise, mas agora ele está estável, mantém a produção com certa estabilidade, de forma que o mix [de indústrias] está mudando. [...] Nos anos 2010 a 2020, teve grandes projetos estruturadores implantados aqui. Alguns deles continuam ativos e outros, como a indústria do consumo naval, perdeu o curso. No caso da indústria naval, de acordo com o professor, a redução das compras de navios pela Petrobras durante os governos de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) impactou a atividade em Pernambuco. "A Petrobras parou de comprar navio, mudou de estratégia e (isso) foi negativo para a indústria do consumo naval. Ela está, aos poucos, retomando isso, mudando o perfil, passando a voltar a comprar navios e plataformas aqui no Brasil. Mas a indústria do consumo naval em Pernambuco não retomou ainda", diz. Por outro lado, a Refinaria Abreu e Lima (Rnest), localizada no Complexo Industrial Portuário de Suape, em Ipojuca, no Grande Recife, é apontada pelo professor como um dos empreendimentos em expansão. Segundo o especialista, o aumento da capacidade de processamento da unidade representa um investimento expressivo e contribui para movimentar a economia industrial do estado. "Mas tem uma indústria, dos outros projetos estruturadores, por exemplo, a refinaria de petróleo, que está em crescimento, duplicando a capacidade de processamento, a refinaria Abreu e Lima. Isso é um investimento muito alto", afirma o professor. Ipojuca (PE), 02/12/2025 - Refinaria Abreu e Lima (RNEST) Ricardo Stuckert/PR Diversificação industrial Outro segmento destacado pelo professor é o automobilístico, representado pelo Polo Automotivo Stellantis, em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. A unidade, anteriormente conhecida como fábrica da Jeep, integra um setor que registrou 4.069 admissões em 2025, ocupando a sétima posição entre os segmentos industriais listados. Goiana também abriga a fábrica da Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás), inaugurada em agosto de 2025, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A unidade foi criada para produzir medicamentos derivados do plasma sanguíneo, os chamados hemoderivados, usados no tratamento de hemofilia tipo A. Com a capacidade de produzir 1,2 bilhão de unidades internacionais (UIs) de hemoderivados, o empreendimento busca reduzir a dependência de produtos importados e ampliar a capacidade de abastecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) para todo o país. "E tem outro projeto que está também indo bem, que é o da fábrica da Fiat, em Goiana, que hoje é a Stellantis. Esse setor está em ascensão. E lá em Goiana, também tem outro setor que está em crescimento, que é o da Hemobrás, que está se expandindo e tem uma probabilidade de continuar crescendo para atender a demora do SUS", diz. Além desses empreendimentos, novos projetos ligados à produção de energia também contribuem para diversificar a atividade industrial pernambucana, especialmente no Complexo de Suape, segundo João Policarpo Lima. "De forma que o mix [de indústrias] está mudando. Tem em Suape alguns projetos novos na área de energia, de hidrogênio, de metanol, e por isso que o mix está mudando", explica o professor. Imagem de arquivo mostra produção de açúcar em usina de Pernambuco Acervo/TV Globo Mercado de trabalho e desindustrialização Apesar do avanço na diversificação em todo o estado, há dificuldades para consolidar atividades de maior intensidade tecnológica, principalmente no Grande Recife. É o que avalia o doutorando Lucas André Penha dos Santos, que analisou os riscos de desindustrialização na Região Metropolitana em sua dissertação de mestrado, publicada em 2022, no Departamento de Geografia da UFPE. As análises do estudo se basearam em dados da segunda metade da década de 1980 até 2019, período marcado pelo avanço de práticas neoliberais na economia brasileira, segundo o pesquisador. De acordo com o especialista, a desindustrialização não significa, necessariamente, o fechamento de fábricas, mas a perda relativa de participação da indústria na geração de riqueza e empregos. Essa perda de ritmo tem acontecido no Brasil como um todo e se intensificou após a pandemia. Ao analisar a atividade industrial da Região Metropolitana durante as décadas de 2000 e 2010, ele identificou oscilações no Valor Adicionado Bruto (VAB) de cinco cidades: Recife, Ipojuca, Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão dos Guararapes e Olinda. 🏭 O VAB corresponde à diferença entre o valor total da produção e o custo do consumo de bens intermediários, como matérias-primas e energia, e mede a quantidade de riqueza gerada por um setor da economia. A soma dos VABs de todos os setores equivale ao Produto Interno Bruto (PIB) de um país. Conforme a pesquisa, esse cenário de instabilidade na geração de riqueza da produção industrial do Grande Recife coincidiu com uma redução no número de empregos formais durante a década passada. Esse quadro diminuiu a capacidade de geração e manutenção de vagas de trabalho, o que levou a dificuldades para atrair e sustentar projetos industriais mais inovadores, especialmente nos segmentos de maior intensidade tecnológica. "Os ramos industriais mais ricos em tecnologia, e que são fundamentais dentro do cenário atual de competitividade, foram os que mais apresentaram um déficit ou uma estagnação. [...] O 'tendão de Aquiles' da indústria da RMR é representado justamente pelas atividades industriais mais dinâmicas e que concentram mais tecnologia. A RMR não tem justamente essas indústrias mais competitivas como foco", diz. Os efeitos da desindustrialização vão além da redução da participação da indústria na economia. Segundo o professor, o enfraquecimento do setor também afeta a estabilidade dos empregos e pode contribuir para o crescimento desordenado do comércio e dos serviços. Entre os principais impactos desse processo, ele destaca que: a redução da capacidade produtiva pode diminuir a geração e a manutenção de postos de trabalho; indústrias mais dinâmicas e tecnologicamente avançadas tendem a oferecer melhores condições para sustentar os empregos; trabalhadores desligados da indústria podem buscar oportunidades nos setores de comércio e serviços, que nem sempre conseguem absorver toda a mão de obra disponível; o excesso de trabalhadores em atividades com baixa remuneração e jornadas exaustivas pode ampliar a instabilidade das relações de trabalho. "As regiões que sofreram ou que sofrem com a desindustrialização possuem um setor de serviços inchado, caracterizado por baixa remuneração e por dinâmicas de trabalho que são, via de regra, exaustivas. [...] Um grande contingente desse pessoal, que é demitido, vai procurar emprego justamente no setor de serviços. Esse movimento forçado vai tornar esse setor desequilibrado, instável, desordenado. Nem sempre ele tem capacidade de absorver todo esse pessoal. Com isso, a gente tem a formação de um ambiente de trabalho precarizado", afirma. Fábrica da Stellantis, no Polo Automotivo de Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco Acervo/TV Globo Ambiente de inovação e política nacional Um dos entraves para reverter esse quadro, na visão do pesquisador Lucas André Penha dos Santos, é o baixo investimento em inovação. De acordo com ele, a maior parte dos recursos analisados tem sido direcionada à compra de máquinas e equipamentos, em vez de processos de pesquisa e desenvolvimento. Historicamente, o setor de transformação, o setor industrial da RMR (Região Metropolitana do Recife), compreendeu, em sua grande maioria, a presença de indústrias de baixa ou de média concentração tecnológica. Justamente por conta disso, vem a dificuldade que a RMR tem de absorver, e não só absorver, mas como também de concentrar e sustentar projetos industriais mais dinâmicos, mais inovativos. Para o especialista, ampliar a capacidade de inovação, investir na qualificação tecnológica dos trabalhadores e fortalecer as atividades de pesquisa são medidas importantes para aumentar a competitividade da indústria pernambucana. "A gente tem que buscar saídas que englobem mais coisas, que se relacionem com vários conjuntos da nossa economia. A resposta não está apenas em um processo. Se não só a RMR, mas também Pernambuco como todo, construir uma conjuntura, um contexto industrial mais dinâmico, seja por meio de programas estratégicos, seja através de uma maior aproximação das instituições de pesquisa com a indústria, certamente nós veremos um início de um cenário mais competitivo no nosso setor de transformação", avalia. Mas, para que isso aconteça, seria necessária uma maior integração entre as políticas nacional e estadual de desenvolvimento industrial. "Essa política deve ser pautada em práticas e atividades que sejam mais do que inovativas, que possam ser adaptadas às especificidades econômicas e sociais da RMR e do estado de Pernambuco. Não adianta, por exemplo, a gente não importar técnicas e práticas inovativas sem antes a gente refletir antes se essas técnicas e essas práticas vão ter uma aplicabilidade de acordo com o cenário, com o contexto social e econômico do nosso estado", analisa o professor Lucas André Penha dos Santos. Trabalhadores na fábrica de hemoderivados da Hemobrás, em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco Acervo/TV Globo O que diz o governo do estado Para os próximos anos, ao menos até o fim da década de 2020, as transformações da indústria em Pernambuco devem seguir na direção da transição energética, de acordo com a secretária de Desenvolvimento Econômico, Danielle Jar Souto. A gestora conta que, até o fim de 2026, será lançado o estudo "Roda de Pernambuco de Combustíveis Sustentáveis", que analisa as possibilidades de ampliação e estruturação das indústrias para a cadeia produtiva de biomassa em todo o território do estado. A pesquisa é coordenada pelo estado em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (ICS). A outra grande aposta, segundo ela, são as ampliações da Refinaria Abreu e Lima, que deve mais que dobrar a capacidade de produção de barris de petróleo a partir de 2029, e do Porto de Suape. "Só a refinaria tem a perspectiva de investimento de R$ 12 bilhões a R$ 13,5 bilhões. De 70 mil barris e vai passar para 260 mil barris [por ano]. O Porto de Suape está fazendo uma série de investimentos que vão viabilizar, receber e processar o escoamento desse aumento de produção. Além desse foco na refinaria, o estado tem investido de forma considerável em infraestrutura rodoviária de aeroportos, o que estimula o escoamento da produção. E isso, consequentemente, possibilita também a criação de atividades industriais", afirma. Questionada sobre a necessidade de investimentos em inovação tecnológica para evitar a desindustrialização e aumentar a competitividade, a secretária diz que instituiu, há seis meses, um Comitê de Simplificação e Melhoria do Ambiente de Negócios do Estado, que reúne, todo mês, associações e entidades empresariais. "Identificamos a necessidade da conexão da academia com análises mais aprofundadas para que a gente consiga direcionar nossas políticas públicas [...]. Isso não está fechado, mas tivemos uma reunião com a UPE (Universidade de Pernambuco), para firmar um termo de cooperação para que a UPE consiga conectar essas cadeias, colaborando com a identificação dos talentos e proporcionando para as empresas esse serviço de qualidade, ou na conexão com os talentos especializados ou na perspectiva de vários tipos de programa que vão ser desenvolvidos à medida da necessidade de cada uma dessas empresas para a formação do profissional que elas precisam", informa. Ainda de acordo com Danielle Jar Souto, o comitê tem ajudado a definir as prioridades da política industrial adotada no estado. "Nós estamos de portas abertas para escutar o empreendedor, entendendo que nós podemos melhorar os nossos processos de viabilização de negócios, assim como encontrar soluções que estão além dessa capacidade de abertura e licenciamento das empresas, como é o caso de encontrar soluções para identificação de mão de obra qualificada, ou de verificar que tipo de infraestrutura é necessária para cada tipo de produção e priorizar isso junto com a Secretaria de Mobilidade", explica. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2026/10/31/como-industria-de-pernambuco-se-transformou.ghtml


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