Cemitério mais antigo de Petrolina é 'museu a céu aberto' e guarda memórias, arte e lendas do Sertão

  • 30/10/2026
(Foto: Reprodução)
Cemitério mais antigo de Petrolina guarda história e arte No dia 20 de agosto de 1923, familiares e amigos se despediram de Antônio Melchiades de Souza. Há 103 anos, os restos mortais dele descansam no Cemitério Campo das Flores, o mais antigo de Petrolina, no Sertão de Pernambuco. Repleto de memórias, o primeiro cemitério municipal petrolinense se destaca por abrigar desde desconhecidos a figuras públicas que marcaram o cenário local nas últimas 13 décadas. O espaço também revela aos visitantes resquícios de uma arte tumular que vem se perdendo ao longo do tempo. 📱:Baixe o app do g1 para ver notícias de Petrolina e Região em tempo real e de graça Crânios humanos são deixados expostos em grade do Cemitério Campo das Flores 📲 Clique aqui e entre no grupo do WhatsApp da TV Grande Rio Sepultamentos em igrejas e divisão social Túmulo de Antônio Melchiades de Souza (1923) no cemitério Campo das Flores, em Petrolina Emerson Rocha / g1 Petrolina Anos antes de o corpo de Antônio ser sepultado, o local onde hoje está o Campo das Flores era apenas um terreno descampado, em uma Petrolina que vivia seus primeiros anos de emancipação política. Até 1896, os mortos eram enterrados em outros pontos da cidade. "Antes do Campo das Flores, o sepultamento, por uma questão tradicional que vinha desde a Idade Média, era feito no entorno ou dentro das igrejas, próximo aos altares. Isso remonta a aspectos sociais e históricos da época", explica o historiador Diedson Alves. De acordo com o historiador, o local do sepultamento era definido pela posição social e pelo poder aquisitivo do falecido. "As famílias mais abastadas ficavam mais próximas daquilo que chamamos de cemitérios paroquiais. Já as pessoas com menos recursos eram sepultadas gradativamente em um raio cada vez mais distante da igreja Matriz [onde hoje fica a Petrolina Antiga]", descreve Alves. Naquele período, Petrolina ainda mantinha uma forte característica rural. Por isso, era comum encontrar jazigos em roças e comunidades afastadas, onde as famílias sepultavam seus parentes na própria propriedade. Higiene pública e a criação do cemitério Entrada antiga do Cemitério Campo das Flores, em Petrolina Andressa Silva / g1 Petrolina Com a emancipação política de Petrolina, em 1895, a cidade começou a se urbanizar e a adotar novas práticas sanitárias. Foi nesse contexto de modernização que surgiu a necessidade de um cemitério municipal. O Campo das Flores tornou-se oficial em 1897. A criação atendeu a uma lei provincial da transição do Império para a República, que exigia cemitérios a céu aberto e afastados dos centros urbanos. "Como as casas estavam surgindo muito próximas às paróquias, os sepultamentos nesses locais traziam riscos de contaminação e proliferação de doenças", pontua o historiador. A escolha do terreno para a construção do cemitério foi estratégica: uma área isolada e distante do fluxo de pessoas. Quase 130 anos depois, o cenário mudou completamente. O cemitério, que antes ficava na periferia, hoje é um marco geográfico no bairro Gercino Coelho, localizado na Avenida das Nações, uma das vias mais movimentadas e centralizadas de Petrolina. "Essa região onde hoje está o Campo das Flores não era habitada, era um local distante e considerado apropriado para a época", disse Diedson Alves. Uma enciclopédia e museu a céu aberto Encontrar o primeiro túmulo do Campo das Flores é uma tarefa quase impossível. A escassez de documentação histórica da época, somada à ação do tempo e ao desgaste natural de diversos jazigos antigos, dificulta o trabalho. No entanto, quem se aventura a percorrer os caminhos do cemitério descobre registros valiosos. "O cemitério é um museu histórico a céu aberto, constitui uma verdadeira enciclopédia. Se considerarmos o surgimento da cidade, a emancipação de Petrolina e o cemitério caminham praticamente juntos", destaca Diedson Alves. Em tese, os túmulos mais antigos estão localizados perto da entrada original do cemitério, que fica virada para a Rua Januário Alves. "Ao analisar, principalmente, a entrada dele, damos de frente com grandes túmulos, que possuem mármore importado, esculturas e imagens de anjos. É um museu. Temos aqui grandes personalidades, mas também famílias mais simples sepultadas. Esse espaço tem um valor social e econômico imenso", diz o historiador. Segundo o professor de história da arte na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), Luiz Severino, o cemitério foi ampliado com o passar dos anos e acabou "dividido" em dois momentos históricos. Uma fileira de palmeiras-imperiais centenárias delimita esses dois espaços. "No caso específico desse cemitério, percebemos que ele sofreu uma expansão. Temos o portão antigo e o portão novo, e notamos que os túmulos mudam de configuração e de edificação de um lado para o outro. As palmeiras centenárias estão ali indicando justamente o início e o fim do antigo cemitério", explica o professor. É justamente na área mais antiga, antes das palmeiras, que estão os restos mortais de personalidades marcantes da história de Petrolina, como o tenente-coronel Manoel Francisco de Souza Júnior, primeiro prefeito da cidade; o médico Pacífico da Luz, que governou o município por três mandatos; e membros da tradicional família Coelho. Antônio Melchiades também descansa do lado histórico do Campo das Flores. Arte tumular: neoclassicismo e a assinatura de Luis Morrone Túmulo de Severo José de Sant’anna (1910) no Cemitério Campo das Flores, em Petrolina Emerson Rocha / g1 Petrolina O túmulo de Severo José de Sant’Anna, falecido em 1910, é um dos poucos que preservam intacta a identidade da arte funerária original do Campo das Flores. Com estética neoclássica, a escultura de um anjo em mármore é um exemplo legítimo da sensibilidade artística do século 19. “Aos pés do anjo, temos um pergaminho desenrolado onde se encontra o epitáfio do monumento, que está cercado por temas florais. É interessante como o escultor conseguiu, de forma realista e figurativa, expressar a imagem do anjo com asas abertas em postura de reza. Era um estilo corriqueiro na época, mas hoje se tornou uma peça rara”, descreve o professor Luiz Severino. Ainda de acordo com Severino, a arte funerária tem forte influência da arte sacra, impulsionada a partir da década de 1830, quando o governo imperial decretou a lei dos cemitérios extramuros. Com isso, as prefeituras passaram a proibir sepultamentos dentro dos templos e criaram os espaços públicos. "Santos e altares já formavam todo um conjunto iconográfico religioso dentro das igrejas. Quando os sepultamentos são transferidos para um cemitério público, as pessoas transpõem para o ambiente externo essa necessidade de homenagear o morto através da produção de arte", detalha o professor. No Campo das Flores, essa transição é marcada por símbolos como anjos, cruzes, obeliscos, capelas e lápides ricamente elaboradas com tipografias em baixo-relevo. Um dos maiores símbolos dessa riqueza cultural é o mausoléu da família Coelho. A estrutura abriga a obra "Cristo no Deserto", uma escultura de bronze com pouco mais de dois metros de altura, assinada pelo renomado artista brasileiro Luis Morrone, autor de monumentos célebres em todo o país. A peça fica centralizada, cercada por imponentes pilastras de mármore e placas com os nomes dos integrantes do clã sepultados no local. Mausoléu da família Coelho, no cemitério Campo das Flores, tem obra de Luis Morrone. Andressa Silva / g1 Petrolina “Esse cemitério oferece uma oportunidade única de discutir a arquitetura tumular e o desenvolvimento da escultura. A presença de obras como a de Morrone representa que tínhamos artistas dedicados a esse tipo de linguagem estética”, afirma Severino. A evolução dos materiais: do ferro forjado ao metalon Cemitério Campo das Flores, em Petrolina Emerson Rocha / g1 Petrolina Caminhar pelo Campo das Flores também permite observar como a própria construção civil e a metalurgia mudaram ao longo do tempo. Nos túmulos, detalhes de acabamento, escolha de materiais e estruturas revelam transformações industriais que atravessaram mais de um século. “Enxergamos cerâmicas e materiais como tubos de perfil quadrado e metalon usados para fazer gradis. Antigamente, esses elementos eram produzidos com ferro forjado, a partir de torções e batidas diretas no metal quente. Hoje, vemos materiais pré-fabricados que já não carregam a característica artística que associamos às belas-artes”, explica Sérgio Bonilha, professor de desenho artístico da Univasf. O próprio túmulo de Severo José de Sant’anna (1910) é apontado pelo professor Sérgio Bonilha como um dos exemplos mais didáticos dessa transição da técnica para a indústria. Nos detalhes da pedra entalhada e do gradil protetor, percebe-se o uso de técnicas manuais que desapareceram da construção civil contemporânea. "Como esse é um túmulo mais antigo, percebe-se um entalhe na pedra mais elaborado. O gradil também chama a atenção porque foi feito com técnica de forja e serralheria artística. Nos túmulos mais recentes, o material comum é o metalon, soldado de forma parecida com a que usamos hoje em portões de residências. Há jazigos intermediários que usam recursos da serralheria, mas sem o trabalho manual do metal martelado", analisa Bonilha. O planejamento do 'Cemitério-Jardim' e a perda do traçado Toda essa riqueza de detalhes arquitetônicos estava inserida em um plano urbanístico sofisticado. O professor Luiz Severino destaca que o Campo das Flores, originalmente, foi planejado para ser um "Cemitério-Jardim", um modelo que surgiu na Europa do século 19 com o objetivo de associar o espaço de luto à natureza, à simetria e à contemplação. No entanto, o crescimento desordenado transformou o local. A perda de espaço é visível principalmente na parte histórica do cemitério. Áreas e alamedas planejadas para servir como caminhos de passagem para os visitantes acabaram sendo comercializadas e transformadas em novas sepulturas. “Com a perda das ruas internas, o projeto paisagístico original se perdeu”, lamenta o professor Luiz Severino. A saturação e o surgimento do 'Campo da Paz' Cemitério Campo da Paz, no bairro Henrique Leite Emerson Rocha Por quase um século, o Campo das Flores foi a única opção para os petrolinenses sepultarem seus mortos. No entanto, na década de 1980, o espaço urbano e a capacidade do local começaram a dar sinais de esgotamento. Durante a gestão do ex-prefeito Augusto Coelho (1983-1988), a administração municipal precisou intervir para solucionar o problema de superlotação do espaço. “Nós recebemos informações de que o cemitério tinha chegado a um estágio de saturação e não havia outra alternativa a não ser a construção de um novo cemitério”, conta o médico e ex-gestor do município. Dessa necessidade nasceu o Cemitério Campo da Paz, localizado no bairro Henrique Leite. A criação do novo espaço acabou, curiosamente, redefinindo a identidade do cemitério mais antigo da cidade. “Para distingui-lo do cemitério municipal, nós o denominamos Campo da Paz. Posteriormente, alguém resolveu que deveria mudar o nome do Cemitério Municipal para Campo das Flores”, relembra Augusto Coelho. Funcionamento atual e desafios de gestão Portão do cemitério Campo das Flores, em Petrolina Andressa Silva / g1 Petrolina Atualmente, o Campo das Flores abriga cerca de 5 mil túmulos e covas. O tempo, porém, apagou parte dos registros oficiais: sem a documentação de parte do século passado, é impossível precisar o número exato de pessoas sepultadas ali desde a fundação. Mesmo centenário e com espaço limitado, o cemitério continua ativo. Segundo dados da Secretaria de Serviços Públicos e Defesa Social de Petrolina (SESPU), são realizados, em média, 240 sepultamentos por ano no local. Para que um novo sepultamento ocorra, a prefeitura exige regras rígidas para otimizar o espaço: É obrigatório comprovar a propriedade do lote (titularidade) ou o parentesco com alguém já sepultado na área. Caso a titularidade seja comprovada, é necessário respeitar um intervalo mínimo de três anos desde o último sepultamento na mesma cova para a realização de um novo. Sem essa comprovação e o cumprimento dos prazos, novos sepultamentos não são autorizados. Gerenciar um cemitério histórico ativo traz desafios complexos. De acordo com a SESPU, a manutenção do Campo das Flores exige atenção constante: "É um grande desafio administrativo, operacional e estrutural. Embora seja considerado um equipamento público essencial, sua finalidade exige cuidados especiais e investimentos permanentes para garantir a conservação do patrimônio, a segurança dos visitantes e trabalhadores, e o respeito à memória dos falecidos", informou a secretaria, em nota. A última grande intervenção estrutural no espaço ocorreu em 2022, quando o município realizou a reforma do escritório administrativo, a requalificação dos portões de entrada, além de reparos e pintura em todo o muro que cerca o patrimônio. Histórias e lendas: o túmulo do 'cidadão desconhecido' O Campo das Flores passou a dividir espaço com os novos cemitérios que surgiram na cidade, mas continuou preservando histórias e lendas dos primeiros anos de Petrolina como município emancipado. Uma das passagens mais curiosas guardadas na memória local envolve o túmulo de um "cidadão desconhecido", história resgatada por Augusto Coelho. O caso ocorreu durante a gestão do antigo prefeito Alcides Padilha (1922-1927). “Um cidadão que chegou aqui na cidade procurou a esposa do prefeito e entregou uma determinada quantia em dinheiro. Ele disse para ela que estava prestes a morrer e que gostaria que ela se encarregasse de mandar construir o túmulo dele. E assim aconteceu”, relata Augusto. O túmulo do homem sem nome permanece no Campo das Flores como um dos muitos mistérios que o cemitério secular abriga, misturando história oficial, arte e a rica tradição oral do Sertão pernambucano. Vídeos: mais assistidos do Sertão de PE

FONTE: https://g1.globo.com/pe/petrolina-regiao/noticia/2026/10/30/cemiterio-mais-antigo-de-petrolina-e-museu-a-ceu-aberto-e-guarda-memorias-arte-e-lendas-do-sertao.ghtml


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