Caso Nicinha: 10 anos do assassinato que marcou a luta dos atingidos por barragens na Amazônia

  • 12/01/2026
(Foto: Reprodução)
Nicinha em seu barco MAB Desde 2016, o dia 7 de janeiro marca a data em que Nilce de Souza Magalhães, conhecida como Nicinha, pescadora e uma das lideranças do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), foi vista pela última vez. A ativista foi assassinada com um tiro na cabeça e só teve o corpo encontrado cinco meses depois, no fundo de um lago da hidrelétrica de Jirau, amarrado a uma pedra. O crime gerou muitos questionamentos e diversas manifestações na época: primeiro pelo paradeiro da militante e, depois, quando encontrada, pelas circunstâncias de sua morte. Dois homens foram julgados pelo crime: Edione Pessoa da Silva, réu confesso de ter atirado contra a vítima e jogado o corpo no lago, e Leonardo Batista, acusado de furto após o assassinato. O caso, que completa 10 anos em 2026, ganhou repercussão nacional e internacional, tornando-se símbolo de luta contra violência na Amazônia. Nicinha foi uma da 11 pessoas mortas em Rondônia em crimes relacionados a violência no campo em 2016. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias de RO em tempo real e de graça História de Nicinha Nicinha nasceu em Xapuri (AC) e, aos dois anos, mudou-se com a família para Abunã, distrito de Porto Velho (RO). Desde cedo trabalhou como cozinheira em restaurantes e garimpos, mas dedicou grande parte da vida à pesca. Criou três filhas praticamente sozinha após a separação, contando com o apoio da mãe. Ao longo da vida, morou brevemente em São Paulo e no Maranhão, mas permaneceu sobretudo em Abunã, onde viveu seus últimos anos ao lado do companheiro Nei, com quem também militava no MAB. Em Abunã, Nicinha tornou-se uma das principais vozes no ativismo ambiental e, por muitos anos, denunciou violações de direitos provocadas pela implantação de usinas hidrelétricas. Ao lado das famílias impactadas, reivindicava o direito de reassentamento do distrito em um local seguro. Foi ela quem iniciou na comunidade o debate sobre a necessidade de remanejamento, com um projeto que atendesse aos modos de vida das famílias atingidas. Sua atuação firme e comprometida fez dela uma liderança reconhecida, que dedicou sua vida à luta pelos direitos humanos e pela sobrevivência das comunidades tradicionais da região. O crime No dia 7 de janeiro de 2016, Nicinha foi vista pela última vez em uma ilha no interior do reservatório da Usina Hidrelétrica de Jirau, entre o rio Madeira e seu afluente Mutum Paraná, onde morava com o companheiro Nei. Ele, que estava fora do acampamento, ao retornar estranhou o desaparecimento da pescadora e comunicou os familiares. Após dias de buscas e investigações, em 15 de janeiro de 2016, Edione Pessoa da Silva e Leonardo Batista da Silva foram detidos suspeitos de envolvimento no desaparecimento. Durante o depoimento, Edione confessou o assassinato. Cinco meses depois, em junho de 2016, uma ossada foi encontrada no lago da hidrelétrica, amarrada a uma pedra, com sinais de execução. Um exame de DNA confirmou que se tratava de Nicinha. Para a filha de Nicinha, a advogada Divanilce de Sousa Andrade, o assassinato foi uma tentativa de silenciar a luta da mãe. Veja como o corpo de Nicinha foi encontrado: Exame de DNA confirma que ossada encontrada é de Nicinha A condenação Edione foi condenado pelo Júri Popular a 15 anos e seis meses de prisão em regime fechado pelo assassinato de Nicinha. A investigação apontou que ele teria atirado na vítima com uma espingarda, motivado por desentendimentos anteriores, e em seguida lançado o corpo no rio. Já Leonardo foi condenado por furto cometido após o crime. Após anos preso, em dezembro de 2023, Edione foi liberado para o regime semiaberto, mas poucos dias depois foi assassinado em Rio Branco (AC). Para a família de Nicinha, a morte do réu confesso foi uma “queima de arquivo”, dificultando ainda mais a investigação sobre os possíveis mandantes. O julgamento do caso Nicinha durou 15 horas Caso Nicinha: julgamento termina após 15 horas com condenação de acusados Símbolo de resistência Segundo o MAB, o compromisso de Nicinha permanece como inspiração para os atingidos. Dez anos depois, ela segue como símbolo da resistência das populações impactadas por barragens na Amazônia e da luta por justiça em casos de violência contra defensores de direitos humanos. No último dia 7 de janeiro de 2026, o MAB apresentou a familiares, amigos e convidados um trecho da peça "As Marias Somos Nós": um monólogo interpretado pela artista Kaline Leigue, que dá voz às experiências de mulheres aguerridas reunidas na figura simbólica de “Maria”, livremente inspirado na vida e na luta de Nicinha. Apresentação da peça "As Marias Somos Nós" Evelyn Morales “Para mim, é uma honra atravessar sua história, aprender com seu legado e reconhecer a força que isso me dá para afirmar meu lugar como artista e como mulher na defesa dos meus direitos e liberdades”, pontua Kaline. Uma das filhas de Nicinha, Divanilce, após o espetáculo, compartilhou que, apesar do sofrimento pela morte da mãe, hoje convive com um sentimento de gratidão pelo modo como a história de Nicinha ajudou e continua ajudando outras pessoas. “Doer, não para de doer, mas eu me sinto grata sempre que nos procuram para falar sobre ela, sempre que a história dela é lembrada, por cada foto que é postada. Existe um legado que hoje impera”, diz Divanilce. A irmã de Nicinha, Nádia Magalhães, contou que ela e toda a família não compreendiam muito bem de que forma a militante atuava nos movimentos e se surpreenderam com a repercussão do caso quando o desaparecimento veio à tona. “Só depois que ela partiu tive noção do quanto se sacrificava para lutar pelo direito das outras pessoas. Minha irmã me ensinou muito sobre o amor ao próximo: ela dispensava qualquer conforto que tivesse para dar a quem estivesse precisando, não se apegava a bens materiais”, afirmou Nádia. Toda a história da pescadora e ativista pode ser lida através da cartilha escrita pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), através do site. Nicinha em sua rede no acampamento em Velha Mutum, distrito de Porto Velho. MAB/ Divulgação LEIA TAMBÉM: Fotógrafo de RO registra exato momento em que jiboia engole passarinho no meio da rua Carro é levado pela correnteza durante chuva forte em Porto Velho; mãe e filha são resgatadas por moradores

FONTE: https://g1.globo.com/ro/rondonia/noticia/2026/01/12/caso-nicinha-10-anos-do-assassinato-que-marcou-a-luta-dos-atingidos-por-barragens-na-amazonia.ghtml


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