Cafeteria em Salvador exibe cartas de amor dos anos 1980 e clientes acompanham história de casal 'misterioso'
13/09/2026
(Foto: Reprodução) Cafeteria em Salvador exibe cartas de amor dos anos 80 e clientes acompanham história
O poeta Fernando Pessoa escreveu que todas as cartas de amor são ridículas. Ainda assim, é difícil resistir à curiosidade diante de uma porção de envelopes do século passado. Em uma cafeteria no Centro de Salvador, os clientes são convidados a abrirem correspondências dos anos 1980 e se tornarem espectadores da história de um relacionamento.
Adriano Viana, fotógrafo e dono da cafeteria Café e Câmera, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo, encontrou as cartas por acaso, enquanto fazia compras em um antiquário. Ele se interessou pelo conteúdo, comprou e levou para o estabelecimento.
"Eu tenho certeza que essas cartas estavam no lixo", brincou.
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Caixa de cartas foi garimpada em um antiquário de Salvador
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*Os nomes do remetente e dos destinatários foram modificados na reportagem
Todas as cartas tinham como remetente Arthur, enquanto Laura era a principal destinatária. Ele vivia em Aracaju, capital do estado de Sergipe, enquanto ela morava em um prédio em Salvador. O g1 tenta localizá-los.
Nos registros, acompanhamos o ponto de vista do homem sobre um período do relacionamento, entre os anos de 1983 e 1984.
Trecho da carta: "Não, não chore..."
Ao ler as cartas, fica subentendido que Arthur morava na capital baiana, mas se mudou para Aracaju por questões de trabalho ou estudos. O casal se via com certa frequência e oscilava entre viagens de ônibus para a capital sergipana e para a capital baiana.
As primeiras cartas enviadas são, de fato, cartas de amor. A saudade sentida pelo rapaz é destacada à caneta ou a máquina de escrever, e enfeitada com vários apelidos carinhosos.
"Mais e mais a saudade está chegando... E é você presente, é você na minha lembrança. Isso me faz bem, mas faz mal também, porque eu fico sem condição de libertar a mente", diz um dos trechos.
Também há cartas mais burocráticas, com informações sobre transferências bancárias e até compras de cuecas. Nas entrelinhas, elas mostram um Brasil que não existe mais: a moeda Cruzeiro, as ligações telefônicas caríssimas e discos do cantor espanhol Julio Iglesias.
Com o passar dos meses, fica subentendido que o casal passou a discutir por ciúmes. Arthur admite "safadezas" ao mesmo tempo que afirma que Laura é insubstituível. Em uma das cartas, o homem chega a dizer que "quando tivesse outra", a companheira seria comunicada.
Trecho da carta: "Você pode se convencer que ninguém no mundo pode lhe substituir..."
Assim como muitas outras histórias de amor, a de Arthur e Laura teve um fim. O leitor descobre sobre o término ao ler uma carta de 1984, enviada por Arthur para um homem, que pode ser um familiar ou amigo da namorada. Fica subentendido que ele foi comunicado antes dela que o relacionamento havia terminado.
Logo em seguida, o fim foi comunicado para Laura em uma carta datilografada à máquina de escrever. Ele justifica que, após três anos de relacionamento, não sente mais amor. "Quando se ama, quem quer perder o amor? Eu acho que só um tolo".
"Estou apenas me desligando de você, ou melhor, não mais andaremos juntos; não mais viveremos um para o outro; mas as lembranças do que fomos devem permanecer acesas na mente e no coração, e devemos querer sempre o bem do outro", escreveu.
Além de testemunhar o fim, na correspondência o leitor descobre que o casal estava noivo. Arthur devolve a quantia de 50 mil cruzeiros, que havia sido o presente de um familiar de Laura para o noivado.
Carta de término data março de 1984
Julia Carneiro/ g1 BA
O dono da cafeteria, Adriano, acredita que todas as cartas enviadas por Arthur estavam com Laura. Em algum momento, ela se livrou dos envelopes e eles foram parar no antiquário.
Quem chega no Café e Câmera não encontra os textos logo de cara. O espaço, que faz parte da Igreja da Ordem Primeira do Carmo, chama atenção pela decoração com fotos feitas por Adriano, discos de colecionador e claro, câmeras antigas - por isso o nome.
"Muitas vezes sinto que estava cozinhando quando construí esse espaço. Cozinhando com amor, sabe? Quando você adiciona uma coisinha a mais. E acho que isso suscitou em memórias, assim como acontece na fotografia", contou Adriano.
Disposta sobre uma das mesas, a caixa de cartas só é descoberta entre um cafézinho e outro, e costuma causar reflexões: será que eles voltaram a se ver algum dia? Será que reataram? Ou será que encontraram outros amores?
Essas reflexões inspiraram a professora Bárbara de Carvalho, de 33 anos, a escrever uma série de cartas para a cafeteria. Ela presenteou Adriano com o conteúdo no aniversário de três anos do espaço, em setembro deste ano.
"Penso muito nessa relação que as pessoas tinham com o tempo. Eles dedicavam um tempo para escrever, depois esperavam a resposta chegar. Havia uma dedicação e um sentimento genuíno nesse processo", disse.
As novas cartas agora ficam ao lado das cartas de 40 anos atrás, prontas para serem lidas por pessoas de diferentes idades, cidades e percepções sobre o amor.
Para Adriano e Bárbara, tudo bem não saber o que aconteceu depois do "fim" de Laura e Arthur. No fim das contas, ridículo mesmo é não escrever cartas de amor.
Bárbara de Carvalho, cliente do Café e Câmera
Julia Carneiro/ g1 BA
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