Argilas brilhantes e rochas antigas: como é a área onde pesquisadores estudam terras raras em Roraima

  • 17/08/2026
(Foto: Reprodução)
Como é a área onde pesquisadores estudam terras raras em Roraima Uma área de mais de 120 mil hectares, com rochas, argilas de aspecto brilhante, e localizada entre duas serras em Caracaraí, município no Sul de Roraima. É nessa estrutura que pesquisadores da Universidade Federal de Roraima (UFRR) estudam terras raras, elementos químicos importantes para a indústria de alta tecnologia. 🔎 As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos usados na fabricação de baterias, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Apesar do nome, elas não são necessariamente escassas, mas são difíceis de separar e processar porque têm propriedades químicas muito parecidas. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 RR no WhatsApp A área também foi selecionada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), que analisam quimicamente as amostras para identificar e separar os elementos encontrados. O trabalho deve envolver uma tecnologia desenvolvida pela universidade e baseada em nanotecnologia, que permite manipular materiais em escala extremamente pequena. As análises da UFRR identificaram 16 dos 17 elementos classificados como terras raras nas amostras coletadas no Complexo Barreira. O único elemento não encontrado foi o promécio. As concentrações registradas são consideradas anômalas, ou seja, estão acima dos níveis esperados para esses elementos. "Estamos nos direcionando na pesquisa para ver quanto de teor tem de terras raras. Como são 16 elementos, um ocorre mais, outro menos, e tem a diferença de concentração de cada um deles. Então, é um trabalho que está no início ainda", explica Vladimir de Souza, doutor em bioestratigrafia da UFRR. Trincheira na pesquisa de terras raras no interior de Roraima. Yara Ramalho/g1 RR Ao todo, mais de 50 trincheiras foram abertas em diferentes pontos da área e, segundo a pesquisa, terras raras foram identificadas em todas elas, inclusive em profundidades de até 15 metros. Nas áreas analisadas até agora, as concentrações variam de cerca de 0,3% a 0,6%, enquanto depósitos desse tipo costumam registrar índices entre 0,01% e 0,3%, segundo os pesquisadores. “Você vê que há uma continuidade dessa estrutura geológica e potencializa muito a ocorrência desses elementos [...] Eu imagino que se pudesse estudar todo esse local, quanta coisa vai se encontrar e o grande potencial que tem da ocorrência desses elementos, que são tão valiosos hoje para a economia mundial", afirma o pesquisador Vladimir de Souza. A pesquisa da UFRR em parceria com a USP está na fase de análise química das amostras. Os pesquisadores também organizam os resultados para criar um banco de dados com as informações obtidas. A próxima etapa será a sondagem, que consiste na perfuração do subsolo para verificar se a ocorrência mineral continua em diferentes profundidades. A perspectiva é quanto mais profunda, maior a concentração. LEIA TAMBÉM: Pesquisadores identificam alta concentração de terras raras no interior de Roraima e estudam existência de jazida Pesquisadores da USP analisam cerca de 100 amostras de argila em área com terras raras em RR História geológica Área com terras raras fica entre duas serras no interior de Roraima. Yara Ramalho/g1 RR A concentração desses elementos está relacionada à formação geológica da região, ao intemperismo — processo de desgaste e alteração das rochas — e às características do relevo, segundo pesquisadores da UFRR. O local fica em um terreno com rochas que têm entre 1,4 bilhão e mais de 2 bilhões de anos. A área fica entre as serras do Baraúna e do Anauá, em uma zona de limite entre dois blocos tectônicos. Segundo Carlos Eduardo Lucas Vieira, doutor em geociências da UFRR e integrante das pesquisas, os movimentos da crosta terrestre nessa região alteraram as rochas ao longo de milhões de anos e contribuíram para a concentração de minerais, incluindo as terras raras. "Esse complexo histórico que envolve essa região, que é justamente uma região limite de dois grandes pontos, apresentou um tectonismo muito ativo ao longo dessa história toda. Isso ajudou a concentrar esses elementos terras raras em específico, mas tem outros [elementos]. Nós temos vários outros minerais aqui também", explicou Carlos Eduardo. Argilas encontradas em área com terras raras em Roraima têm aspecto brilhante causado pela presença de minerais. Yara Ramalho/g1 RR O processo de alteração das rochas também formou o material encontrado hoje na superfície e no subsolo. Em alguns pontos, a camada de solo tem no máximo 50 centímetros. Abaixo dela, há rocha em estágio avançado de intemperismo, chamada de saprolito, material formado a partir da alteração da rocha, mas que ainda mantém parte de sua estrutura original. Em um dos pontos analisados, esse material chega a quase cinco metros de profundidade e tem mais de 30% de argila iônica, onde parte dos elementos ficam retidos. A quantidade é considerada incomum pelo agrônomo José Frutuoso do Vale Júnior, da UFRR, doutor em Solos e Nutrição de Plantas. "A gente pode dizer que é uma anomalia. Não é comum a gente ter, em quase cinco metros de profundidade, mais de 30% de argila. Material saprolitizado na Amazônia também não é comum. E isso está intimamente ligado à geologia e ao relevo. Nós estamos entre duas serras", afirmou o pesquisador. Argilas ajudam a reter terras raras As argilas formadas pelo intemperismo das rochas também ajudam a concentrar os elementos. No Complexo Barreira, foram identificadas argilas com alta capacidade de troca de cátions (CTC), uma característica que permite que elas atraiam e retenham partículas com carga positiva. Essas argilas possuem cargas negativas na superfície, enquanto os elementos terras raras têm carga positiva. Essa diferença faz com que os elementos fiquem retidos nas partículas de argila e permaneçam no material. "Como os elementos terras raras são cátions, eles ficam adsorvidos nas argilas, evitando que sejam lixiviados e perdidos, ficando na massa do solo. Então, os elementos terras raras estão também em grande concentração na massa do solo devido à presença dessas argilas iônicas de alta CTC", disse Frutuoso. Terras raras em Roraima são estudadas por pesquisadores da UFRR e da USP. Yara Ramalho/g1 RR A geóloga Lorena Malta, doutora em geoquímica, explica que a presença das micas também ajuda a entender o brilho observado nas argilas da região. A biotita, um tipo de mica, tem um aspecto brilhoso que reflete o sol e aparece associada a terras raras nas análises realizadas em laboratório. "Nela está agregado, ou está inserido dentro desse mineral, terras raras, que a gente também já encontrou no laboratório por meio de microscópio eletrônico de varredura, e confirmado com a geoquímica", explicou Lorena. Expectativas para o futuro O complexo pertence ao empresário Lusérgio Barreira desde 2019 e fica na zona rural de Caracaraí, a cerca de 140 km de Boa Vista. As primeiras pesquisas privadas começaram naquele ano, depois que uma argila encontrada durante a construção da casa da família chamou a atenção de um pedreiro À época, Lusérgio estava em tratamento médico em São Paulo e, por meio da esposa, enviou o material para análise fora de Roraima. Os primeiros resultados indicaram a presença de terras raras. "Minha esposa coletou essa argila e mandou para mim em São Paulo. Lá, eu peguei, mandei para um laboratório e fiz a análise. Até então, nem sabia o que eram terras raras. O laboratório me ligou, o que não é nada comum, para perguntar sobre aquelas argilas, de onde eram, o local e tudo", relembrou. Lusérgio Barreira, um dos proprietários da área onde pesquisadores estudam terras raras em Roraima. Yara Ramalho/g1 RR A partir daí, Lusérgio passou a investigar a região. Como ainda não tinha autorização para fazer perfurações, coletava amostras em formigueiros, buracos de tatu e leitos de igarapés e enviava o material para análise. Com o tempo, requereu outros terrenos, que hoje somam mais de 120 mil hectares. "Hoje é um projeto que eu vivo em função disso. Eu até falo: eu só sei falar em terras raras. Então, eu vivo em função disso o tempo todo e a minha pesquisa é o tempo todo só terras raras". A expectativa é que, com a continuidade dos estudos e caso a extração se mostre economicamente viável, o Complexo Barreira transforme a realidade não apenas de Caracaraí e de Roraima, mas também do Brasil. Pesquisadores da UFRR estudam terras raras em Caracaraí, no Sul de Roraima. Yara Ramalho/g1 RR Leia outras notícias do estado no g1 Roraima.

FONTE: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2026/08/17/argilas-brilhantes-e-rochas-antigas-como-e-a-area-onde-pesquisadores-estudam-terras-raras-em-roraima.ghtml


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