Antonio Fagundes remonta em SP comédia inspirada em situações reais do teatro: 'O palco é sagrado'
21/05/2026
(Foto: Reprodução) Elenco da peça "Sete Minutos", dirigida por Antonio Fagundes
Ronaldo Gutierrez
Antonio Fagundes entra no teatro em silêncio, sobe ao palco, senta-se em um sofá que integra o cenário e olha serenamente a correria da produção para a montagem de “Sete Minutos – Uma Comédia no Tempo Certo”. A calma pode ser só aparente, mas o tom de voz e a velocidade da fala indicam que este homem, com 60 anos de carreira nos palcos e telas, tem uma relação diferente com o tempo.
Tempo é um dos assuntos do texto deste espetáculo de autoria do próprio Fagundes. Não é sobre envelhecimento, ou a passagem dos anos, mas sobre quanto de atenção exclusiva as pessoas dedicam a interesses particulares. No caso de Sete Minutos, o teatro.
“Esse aparelhinho que a gente fica passando o dedo”, conta, fazendo o gesto de quem mexe ao celular, “no fim do dia, você tem lá 5 mil informações, e o cérebro não consegue registrar tudo isso. Nesse dedinho tem muita coisa importante que está sendo jogada fora. O fato de a gente não estar conseguindo prestar atenção faz com que a gente deixe de ser bons cidadãos, eleja pessoas erradas, não lute pelas nossas liberdades democráticas, perca o interesse pela vida”.
E olha que o texto original vem de uma época em que os celulares eram bem menos presentes do que hoje. A reflexão de Fagundes procura ecos da peça na vida fora dos teatros.
“O palco é sagrado”
Até agora, Sete Minutos tinha sido encenada apenas uma vez, em 2002, quando o próprio Fagundes interpretava o personagem principal, com direção de Bibi Ferreira. Foram três anos em cartaz e cerca de 300 mil espectadores no Teatro Cultura Artística, no Centro de São Paulo, antes do incêndio que fechou a casa por 16 anos.
A história começa com um ator veterano em cena, irritado com barulhos insistentes da plateia e com um espectador que tira os sapatos e apoia os pés no palco. O protagonista abandona o espetáculo desiludido com a falta de interesse que ele sente do público. “Escrevi Sete Minutos e foi quase como escrever uma autobiografia porque absolutamente tudo o que tem na peça, inclusive as mais loucas, aconteceram comigo. Então eu botei tudo aquilo na peça.”
Vinte e quatro anos se passaram desde a primeira montagem e, nesta quinta-feira, 21, "Sete Minutos – Uma Comédia no Tempo Certo" volta ao palco do Teatro Cultura Artística em nova versão, com o mesmo texto.
Desta vez, Antonio Fagundes não estará em cena, e, sim, dirigindo o espetáculo. A iniciativa partiu da atriz e produtora Natália Beukers.
“Eu criei um projeto que chama Infoteatro e é um guia de peças em São Paulo e no Rio. Por conta dele, comecei a entrevistar atores e diretores e um deles foi o Antonio Fagundes. Quando li o texto, fiquei chocada porque a peça falava exatamente sobre tudo o que eu gostaria de dizer para as pessoas. Ele fala sobre a grandeza do teatro e como ele pode tornar as nossas vidas mais interessantes”, conta. Ela acrescenta rindo: “Só que o Fagundes colocou isso na peça com palavras muito melhores do que as minhas”.
“Comédia rasgada”
O ator Antonio Fagundes
Ronaldo Gutierrez
A primeira cena do espetáculo dá a entender que Sete Minutos se desenrola desfiando uma lista de reclamações de atores e atrizes sobre suas audiências. No entanto, a história evolui para uma discussão do relacionamento entre público e palco onde ambas as partes têm o que dizer e o que ouvir.
No fundo, Antonio Fagundes queria expressar seu amor pelo ofício e seu desencanto com a alienação imposta pela vida moderna. Mais de duas décadas depois de o texto vir ao mundo, ele avalia que tudo piorou, citando uma pesquisa que ele leu à época e que justifica o nome da peça.
“A gente conseguia manter a atenção por 7 minutos, há 20 e tantos anos. Se eu tivesse que mexer em alguma coisa nessa peça, eu teria que começar pelo título. Porque hoje em dia são 7 segundos, né? Eu temo um pouco pelo que possa acontecer daqui a 20 anos. Serão 7 milionésimos de segundos que nós vamos reter nossa atenção por qualquer coisa? Isso aí deveria estar acendendo na nossa cabeça um sinalzinho de alerta. Cuidado, nós estamos perdendo a nossa capacidade de raciocínio.”
Mesmo com reflexões tão sérias, Sete Minutos é uma comédia acelerada em que as consequências do abandono do palco vão se acumulando sobre o protagonista. A produtora não se conforma com a atitude do ator, a espectadora atrasada quer tirar satisfações, e a polícia aparece para conter a revolta do público.
Nesta nova encarnação do texto, o papel que já foi de Fagundes cabe a Norival Rizzo, outro veterano de quase 50 anos de teatro, televisão e cinema.
“Eu me reconheço em todos os momentos do espetáculo. Já parei o espetáculo por causa de telefone celular. O telefone tocou, tocou, e o cara resolveu atender!”, ele conta dando risadas. Mas Rizzo se apressa para destacar: “A gente saca quando a pessoa realmente tem um problema. São coisas diferentes. A gente está falando da pessoa que incomoda. Da atitude de um indivíduo que está atrapalhando o público. É uma comédia rasgada.”
E acrescenta, elogiando o colega de profissão: “É uma frase batida, mas é verdade. O Fagundes é um operário do teatro. Ele impulsiona as pessoas para que gostem disso. A paixão é tão grande que a pessoa fala “Pô, deve ser legal isso mesmo”.
Natália conclui: “A peça fala exatamente sobre a tristeza de a gente não conseguir mais estar totalmente presente naquele momento. Então, se a pessoa está no teatro, aproveite essa oportunidade para se desligar realmente do mundo externo”.
Confira abaixo a íntegra da entrevista com Antonio Fagundes. O ator também fala sobre sua volta às novelas depois de sete anos e, curiosamente, sobre como faz sucesso nas redes sociais com suas leituras, mesmo tão crítico das novas tecnologias.
g1: De onde veio a ideia para Sete Minutos?
Antonio Fagundes: Eu encomendei esse texto para um monte de autores amigos meus. Eu pedi a eles porque eu queria uma peça que falasse sobre nossa paixão pelo teatro, nosso respeito pelo público, pelo nosso ofício, por essa comunhão que é uma coisa tão bonita e que só o teatro propicia. Essa coisa viva que o teatro tem. Encomendei para um monte de gente. Comediantes, dramaturgos, poetas. Todos tinham dificuldade em abordar o assunto porque eu já tinha as coisas mais ou menos na minha cabeça. Até que um deles disse: “Fagundes, você já tem isso na sua cabeça. Por que você não escreve?” Eu já tinha escrito algumas coisas, já tinha estudado dramaturgia, e eu resolvi escrever. Na época, eu não escrevi para mim como ator. O personagem que eu escrevi era para um ator de uma geração acima da minha, achava que ele tinha que ter mais peso. Aí, um dia relendo a peça, depois que eu tinha escrito, eu disse: “Esse personagem sou eu”. Esse personagem fez as peças que eu fiz, passou pelas coisas que eu passei, e eu acabei montando. Foi um grande sucesso. É uma comédia muito engraçada realmente, o público ri muito com as coisas que acontecem em cena.
g1: Como foi retornar ao texto tanto tempo depois? Você sente que algo mudou no comportamento das pessoas?
AF: Basicamente as questões são as mesmas, né? O celular continua tocando, as pessoas continuam levantando no meio do espetáculo, as pessoas continuam chegando atrasadas e reclamando quando a gente não deixa entrar. As pessoas continuam comendo balinha, deixando garrafa cair, fazendo barulho, conversando em voz alta. Tudo o que a gente acha que pode afligir os atores, mas que, na verdade, nos aflige indiretamente porque a gente sabe que está afligindo a plateia. As pessoas que estão envolvidas, carregadas por aquela mágica que sai daquela caixinha brilhante ali, o resto no escuro, no silêncio, você esquece que conhece aqueles atores, você está se identificando com aquela situação e... “pipipipi!”. Ah, isso atrapalha, né? A gente sabe disso. É nesse sentido que nos incomoda.
g1: Isso não faz parte de algo que o ator aceita ao se propor a se apresentar para centenas de pessoas?
AF: É, você sabe, o teatro mantém um diálogo com a plateia. O cinema não mantém? O cinema mantém, mas é diferente. O ator não pode responder. No teatro, o ator pode responder, e o público, mesmo que esteja em silêncio, está participando desse diálogo porque ele está reagindo ao que está sendo dito. É uma proposta que o teatro faz às pessoas. Então, para haver esse diálogo tem uma série de pequenas convenções. São poucas, não são muitas! A gente não exige muito, não. A gente exige só interesse. Se você tem interesse, o mundo muda.
O teatro foi escolhido para que você fique confortável porque ele tem ar condicionado, tem estacionamento perto, um saguão de entrada confortável. Quando você entra, a luz se apaga para você ficar realmente voltado para aquela caixinha mágica. Faz-se um silêncio, e os atores começam a falar com você. Esse é o pequeno contrato que a gente assina quando propõe fazer uma peça de teatro. E é tão simples cumprir que a gente não entende por que algumas pessoas se recusam ainda.
g1: Como foi retornar a este texto como diretor?
AF: Eu me diverti tanto fazendo. Eu nunca tinha pensado em remontar essa peça. Quando eu soube que a Natália ia remontar, a Infoteatro ia produzir, eu fiquei muito feliz porque está na hora realmente de voltar a discutir as coisas que a gente discute e conversar divertidamente, porque a peça é uma comédia, uma comédia bastante divertida sobre todos esses problemas e a nossa paixão que nós, aqui nesse tablado sagrado, temos pelo público e pela plateia que tem interesse em ver o que nós estamos preparando para eles.
g1: Tudo isso em um teatro marcante para você.
AF: Eu fiquei aqui nesse endereço, a gente diz endereço porque o teatro é outro, né? O teatro pegou fogo, reconstruíram em outras bases, a plateia com uma confirmação diferente, antigamente nós tínhamos um palco muito grande. Por isso que a gente brinca que é no mesmo endereço. Mas eu fiquei nesse endereço aqui mais de 13 anos. O caminho para cá me desperta lindas lembranças.
g1: Essas questões que a peça trata, neste microcosmo de uma sala de teatro, valem para fora dela também?
AF: Sim, é um sintoma do quanto a gente está desatento, do quanto a gente está perdendo o foco. Do quanto a gente não está mais conseguindo raciocinar. Esse aparelhinho que a gente fica passando o dedo todo dia, no fim do dia, você tem lá 5 mil informações, e o cérebro não consegue registrar tudo isso. Então, é natural que o cérebro se defenda jogando tudo isso fora. Mas nesse dedinho tem muita coisa importante que está sendo jogada fora. Então o fato de a gente não estar conseguindo prestar atenção faz com que a gente deixe de ser bons cidadãos, eleja pessoas erradas, não lute pelas nossas liberdades democráticas, perca o interesse pela vida.
g1: Você acaba de completar seis décadas de carreira e, depois de sete anos, voltou a fazer novela. Como foi?
AF: O número sete está me perseguindo… estou com 77 anos, fazia sete anos que eu não fazia novela, a peça chama Sete Minutos. Só falta ficar sete anos em cartaz. Eu estava com saudade daqueles encontros. Porque a televisão tem uma coisa interessante. A televisão reúne 150, 200 numa novela. Então, você gravar uma novela é você rever aqueles amigos que às vezes você está há anos sem ver. Isso foi muito bom, muito gostoso, um elenco querido, realmente carinhoso, com a Amora [Mautner, diretora de “Quem Ama, Cuida”] que eu já tinha feito alguma coisa com ela. O Walcyr Carrasco é um autor em quem eu confio muito e que sabe escrever novela como ninguém. Era tudo de bom. Mas melhor ainda que eu consegui encaixar dentro das minhas agendas que são sempre muito corridas. Consegui encaixar esses dois ou três meses porque o personagem era pequeno, né? Se fosse um personagem maior, talvez eu não conseguisse fazer. Matei um pouco a saudade, mas fiquei com um gostinho de quero mais. Quem sabe?
g1: Você fala do uso dos celulares, mas encontrou equilíbrio e sucesso nas redes sociais.
AF: É, mas eu acho que eu uso diferente. Uso numa outra velocidade. Uso pedindo paras pessoas pararem para ouvir um poema. Hoje em dia você não faz isso. Uma mensagem que tem um minuto é longa. De repente, as pessoas estão parando pra ouvir um minuto por semana. Mas eu estou conseguindo isso falando de literatura, teatro, cinema, arte, cultura. Eu me surpreendi, confesso que me surpreendi. Acabei ficando com mais de 2 milhões de seguidores, então é uma coisa surpreendente para um conteúdo como esse, que não é voltado para o escândalo.
SERVIÇO:
📅Quando? De 21 de maio a 1º de agosto
📍Onde? Teatro Cultura Artística | Rua Nestor Pestana, 196, Consolação, Centro
💲Quanto? R$ 120
➡️Mais informações