Antes dos cemitérios, mortos eram enterrados em igrejas com divisão por classe social em Itapetininga

  • 02/11/2026
(Foto: Reprodução)
Mortos eram enterrados dentro de igrejas e com divisão por classe social Antes de os cemitérios ocuparem terrenos próprios, quem morria em Itapetininga (SP) era sepultado dentro das igrejas e nas áreas ao redor delas. A prática seguia uma tradição do período colonial e também revelava as desigualdades da sociedade: quanto maior a posição social do falecido, mais próxima do altar ficava sua sepultura. Para marcar o Dia de Finados, nesta segunda-feira (2), o g1 conversou com o pesquisador José Luiz Ayres Holtz, que relata que os primeiros sepultamentos da cidade ocorriam na Igreja Matriz Nossa Senhora dos Prazeres e em seu adro, área externa ao redor do templo. O espaço ficou conhecido como Cemitério da Matriz. 📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp Área do antigo Cemitério da Irmandade do Santissimo, desativado em 1898 e transformado em Jardim na Avenida Peixoto Gomide, região central de Itapetininga (SP) Arquivo Pessoal Na época, a localização das sepulturas seguia uma espécie de divisão social. Pessoas das famílias mais abastadas eram enterradas próximas ao altar-mor, enquanto integrantes das classes médias ocupavam as naves da igreja. Já os escravizados e os mais pobres eram sepultados do lado de fora, no adro. "O seu interior havia uma 'geografia da morte' baseada nas condições socioeconômicas. A elite era sepultada próxima ao altar-mor, as classes médias nas naves, e os escravos e mais pobres ficavam do lado de fora, no adro", conta José. O historiador aponta que a prática fazia parte de uma época em que a proximidade com o espaço sagrado era valorizada nos rituais de despedida. O local do sepultamento, portanto, também expressava a posição ocupada pelo indivíduo na sociedade. "A religiosidade da 'Boa Morte' definia, além dos sacramentos, tradições de salvação, expressos em quantidade e tipo de missa, o modelo de mortalha, às vezes o tipo de caixão, número de padres e músicos durante o cortejo e o local da sepultura", explica Ayres Holtz. Além da Igreja Matriz Nossa Senhora dos Prazeres, havia “campos santos” destinados a sepultamentos em arraiais e bairros rurais de Itapetininga, segundo o pesquisador. F Entre os locais citados estão Porto, em 1771; Alambari, em 1772; e Cabaçais, Pescaria e Aterradinho, em 1780. Também havia espaços para enterros em Capão Alto, Chapada e Capivari. "Esses locais serviam para os menos abastados, já que elite quando percebia, por doença ou idade, o fim próximo, trazia a pessoa para morar na cidade", observa. Epidemias mudaram os costumes Com o crescimento da população de Itapetininga, o espaço disponível na Matriz foi ficando insuficiente. Foi então que os sepultamentos passaram a ocorrer também em outros locais, como nas proximidades da Capela de Santa Cruz, na área onde atualmente fica o Largo do Rosário. A mudança, porém, não aconteceu apenas por falta de espaço. Em meados do século XIX, epidemias de cólera e varíola aumentaram a preocupação das autoridades com as condições sanitárias dos locais de sepultamento. "O Governo Imperial proibiu os sepultamentos dentro das igrejas e determinou que os novos cemitérios não poderiam ficar no centro da cidade, devendo ser localizados em pontos distantes", explica José. Igreja Nossa Senhora do Rosário no início do século XX, com movimentação de terra do antigo cemitério ao redor Arquivo Pessoal Segundo Holtz, havia preocupação com a possibilidade de contaminação da água consumida pela população, que dependia de poços nos quintais das casas. Também era comum a crença de que os gases e os odores produzidos pela decomposição dos corpos poderiam transmitir doenças. Em Itapetininga, a implementação das mudanças levou cerca de 14 anos, conforme o pesquisador. A Irmandade do Santíssimo Sacramento e a Câmara Municipal participaram das providências para a criação de cemitérios que atendessem às novas exigências. Separados por condição social O pesquisador conta que em 1864, a Irmandade do Santíssimo construiu um cemitério na região da atual Avenida Peixoto Gomide, destinado às famílias mais abastadas. O espaço também abrigava sepulturas de integrantes da irmandade e de padres que não tinham parentes na região. LEIA TAMBÉM: Loira desconhecida, Maria Piloto, 'Santinha de Sorocaba' e menino José: conheça 'santos de cemitério' que recebem devoção pelo interior de SP Igreja centenária guarda fragmentos do corpo de Santa Teresinha do Menino Jesus: ‘Grande missionária’, diz padre 'Médico da pobreza': profissional que atendia de graça na zona rural de moto marcou a medicina em Tatuí Jazigo no Cemitério Municipal Santíssimo Sacramento, em Itapetininga (SP) Arquivo Pessoal Já o Cemitério Municipal foi instalado na área onde atualmente fica o Largo da Santa Casa, entre a a Igreja das Estrelas e o hospital. "O ermo local recebia, em 1867, indigentes, a população mais pobre e as vítimas das doenças contagiosas", de acordo com Holtz. A separação entre os espaços de sepultamento mostra como as diferenças sociais continuavam presentes mesmo depois da morte. Com a expansão urbana, porém, a região da Avenida Peixoto Gomide deixou de ser considerada distante do centro. A falta de espaço também contribuiu para uma nova mudança. "Em 1898, ambos os cemitérios foram definitivamente transferidos para a Vila Rio Branco, dividindo um grande terreno em partes iguais: o Cemitério Municipal São João Batista e o Cemitério da Irmandade do Santíssimo", aponta o pesquisador. O cemitério municipal de Itapetininga (SP) fica localizado na Rua do Santíssimo, Vila Hungria Pâmela Beker/g1 José também relata que, ao longo da história de Itapetininga, existiram cemitérios destinados a grupos específicos, como pessoas com hanseníase, vítimas de varíola e religiosos. Cemitério dos Leprosos Devido ao extremo isolamento exigido pela doença na época, o cemitério ficava afastado dos demais, localizado onde hoje está a Escola Estadual Prof. Elisiário de Melo, na Vila Rio Branco. Cemitérios dos bexiguentos Esses cemitérios eram localizados em locais distantes da área urbana, especialmente em áreas de matas, em valas comuns ou pequenos campos improvisados. Os mortos eram enterrados por seus próprios familiares o mais rápido possível após a morte. Cemitério dos Padres Em tempos mais recentes, na década de 1950, após aprovação pela Câmara Municipal, se estabeleceu um Cemitério Privado para os padres e irmãos Missionários do Sagrado Coração localizado ao lado do Seminário, onde atualmente funciona uma escola particular na região de central de Itapetininga. Local de sepultamento dos Padres na Igreja Nossa Senhora dos Prazeres, em Itapetininga (SP) Arquivo Pessoal Memória da cidade Além de abrigar os restos mortais de milhares de pessoas, os cemitérios também preservam histórias de moradores que marcaram a trajetória de uma cidade. Segundo a Prefeitura de Itapetininga, o município tem nove cemitérios municipais, sendo dois urbanos e sete rurais, que somam aproximadamente 15 mil jazigos familiares. Inaugurado em 1898, o Cemitério Municipal São João Batista concentra cerca de 12 mil jazigos. Embora seja uma das unidades históricas da cidade, a prefeitura informa que não há documentação suficiente para confirmar que seja o cemitério mais antigo de todo o município. O mais recente de que há registro é o do bairro Rio Acima. O São João Batista também abriga os túmulos de personalidades ligadas à política e à cultura, como: Fernando Prestes de Albuquerque: político que exerceu importantes cargos públicos, incluindo o governo do Estado de São Paulo. Júlio Prestes de Albuquerque: eleito presidente da República em 1930, mas não empossado. Teddy Vieira: compositor sertanejo, conhecido por obras como “O Menino da Porteira”. Édison de Abreu Souza: conhecido como Poeta do Monte Santo. Mário Lima: cantor ligado à história cultural da cidade. Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/itapetininga-regiao/noticia/2026/11/02/antes-dos-cemiterios-mortos-eram-enterrados-em-igrejas-com-divisao-por-classe-social-em-itapetininga.ghtml


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