Acidente de moto e ataque de formigas é principal hipótese para morte de indígena em Roraima
20/03/2026
(Foto: Reprodução) Polícia Civil faz reconstituição da morte do líder indígena encontrado morto em Roraima
Um acidente de trânsito seguido de um ataque de formigas e desorientação na mata é a principal hipótese da Polícia Civil (PC) para a morte do líder indígena Gabriel Ferreira Rodrigues, de 28 anos. A conclusão pericial aponta este cenário como predominante, embora a possibilidade de homicídio ainda siga em investigação.
A dinâmica do caso foi apresentada nesta sexta-feira (20) pela PC a lideranças do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
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Gabriel foi encontrado morto no dia 10 de fevereiro, em estado avançado de decomposição, próximo à rodovia RR-203, no município de Amajari, no Norte do estado, após nove dias desaparecido.
Dinâmica do acidente
De acordo com a reconstrução técnica da perícia, Gabriel saiu de uma comunidade na madrugada do dia 1º de fevereiro e pilotava uma motocicleta na RR-203. Na altura do quilômetro 26, há indícios de que ele sofreu uma queda.
Após o acidente, a Gabriel teria caído sobre um ninho de formigas tucandeiras, conhecidas por terem uma ferroada extremamente dolorosa. Isso, segundo a perícia, teria provocado dor intensa, pânico e desorientação no líder indígena.
“Em razão da dor, do desespero e do pânico, [Gabriel] acabou se desorientando e adentrando a mata, mesmo estando próximo da rodovia", detalhou o perito criminal Sttefani Ribeiro.
"Há indicativos de que ele caminhou para o local onde tinha uma árvore frondosa, com sombra, a única que existia nas proximidades, onde posteriormente foi localizado”, concluiu.
Liderança indígena Gabriel Ferreira Rodrigues, de 28 anos, desapareceu no dia 1º de fevereiro
CIR/Divulgação
Causa da morte
O corpo de Gabriel foi localizado quase 10 dias após o desaparecimento, por isso, a identificação foi feita por meio da arcada dentária. A causa da morte foi classificada como indeterminada, pois não foram encontradas fraturas no corpo, segundo o médico-legista Deyne Morais.
Duas lesões no pescoço do líder chegaram a levantar suspeitas de ação criminosa, mas a perícia descartou a hipótese ao constatar que os ferimentos ocorreram somente após a morte, causados por animais da região.
Celular não indicou ameaças
Além da ausência de lesões fatais, a análise do celular do jovem não apontou indícios de crimes. O chefe do Núcleo de Inteligência da PCRR, Ricardo Pedrosa, confirmou que não havia histórico de conflitos.
“Não foram identificados mensagens, registros ou qualquer conteúdo que indicasse que a vítima estivesse sofrendo ameaças. Também não há boletins de ocorrência relacionados a esse tipo de situação”, informou Pedrosa.
CIR pede cautela
Em nota, CIR afirmou que o histórico do caso exige cautela e ressaltou que a hipótese de ação de terceiros não foi completamente afastada. A organização destacou circunstâncias que ainda causam "profunda preocupação" às comunidades.
Segundo o CIR, a motocicleta, o celular e as roupas de Gabriel foram encontrados a cerca de 250 metros de distância de onde o corpo estava. O jovem foi localizado sem camisa, calça ou calçados, vestindo apenas cueca e meia. Para a entidade, essas dúvidas impedem o encerramento do caso.
O CIR informou que vai buscar especialistas independentes para analisar os laudos e que pedirá novas diligências periciais, além de acionar a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF).
A justiça pelo jovem, segundo o conselho, é uma demanda coletiva em meio a um cenário de insegurança nos territórios. "O CIR seguirá acompanhando o caso até que não reste dúvida razoável sobre as circunstâncias da morte", declarou a organização.
Procurado, o MPF informou que a investigação do caso é acompanhada pelo Ministério Público de Roraima. No entanto, o órgão federal instaurou um procedimento para monitorar a segurança e a proteção dos direitos coletivos das comunidades indígenas da região de Amajari.
O MPF também afirmou que solicitará à Polícia Civil uma cópia do inquérito sobre a morte de Gabriel. O objetivo é analisar o documento e adotar providências que couberem dentro da esfera federal.
Apresentação dos laudos
O encontro desta sexta-feira ocorreu para atualizar as comunidades sobre o caso. Em fevereiro, uma mobilização que cobrou justiça pela morte do jovem líder indígena foi realizada na RR-203. O ato teve como lema "Quem matou Gabriel?".
O tuxaua-geral do CIR, Amarildo Macuxi, considerou o compartilhamento das informações positivo, mas ressaltou que as comunidades indígenas continuarão vigilantes.
“Primeiro, a gente agradece a Polícia Civil e os peritos, que fizeram todo esse laudo sobre o caso Gabriel. A gente reconhece como um ponto positivo essa ação, o trabalho que foi feito no local e nas investigações”, disse a liderança.
Lideranças indígenas de Roraima acompanham a apresentação dos laudos periciais da morte de Gabriel Ferreira Rodrigues.
Divulgação/Polícia Civil
O delegado-geral da Polícia Civil, Luciano Silvestre, destacou o foco na transparência das investigações. Os laudos agora serão encaminhados para a análise da procuradoria da Funai, segundo a coordenadora regional do órgão, Marizete de Souza.
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