'Achou que eu era uma pessoa que não tinha mais valor': homem conta como sofreu abandono afetivo pela mãe após descobrir doença genética
10/04/2026
(Foto: Reprodução) Abandono Afetivo: uma lei recente permite que filhos peçam indenização a pais omissos.
Aos 9 anos, a vida de um homem, atualmente com de Belo Horizonte começou a mudar de forma irreversível. Foi nessa idade que surgiram os primeiros sinais de uma doença rara nos ossos. Mas, além do diagnóstico, ele enfrentaria outra dor — a ausência da própria mãe.
“Foi a partir de uns 9 anos de idade que apareceu essa deformação nos ossos, displasia fibrosa”, relembra.
A condição exigiu um longo e delicado tratamento. Ao todo, ele passou por 14 cirurgias e ficou internado por cerca de um ano e meio. Durante esse período, a presença materna, que poderia representar apoio, foi limitada.
“(Ela) Ia em horário de visita”, conta.
Segundo ele, a relação com a mãe foi marcada por distanciamento desde o início da doença. A percepção que ficou foi de rejeição. “Para mim passou isso, né? Achou que era uma pessoa que não tinha mais valor, uma pessoa que foi ficando deficiente.”
Especialistas explicam que o abandono afetivo não se resume à ausência física, mas à falta de cuidado e envolvimento emocional, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade.
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Homem com displasia fibrosa diz que foi abandonado pela mãe depois do diagnóstico.
Reprodução/TV Globo/Fantástico
“A gente trabalha com perícia psicológica e ouvindo as partes envolvidas”, afirma a psicóloga clínica e forense Andréia Calçada, ao destacar que cada caso precisa ser analisado individualmente.
No caso dele, o que mais fez falta não foi apenas a presença, mas o afeto. “Foi o carinho de mãe, de preocupação com a pessoa especial, que a maioria das mães tem. Eu vejo mãe carregando filho, carregando a cadeira de rodas, pegando ônibus, na chuva...”
Em casa, o suporte veio do pai, já separado da mãe. Mesmo com limitações, ele esteve presente até o fim da vida. “Ele veio se despedir de mim e eu vi que já estava muito doente e eu falei: ‘Vai em paz, vai, tá tudo bem’.”
O homem chegou a entrar na Justiça por abandono afetivo, mas o processo não foi acolhido porque o caso prescreveu antes de ser analisado. Segundo a lei, só é possível entrar com processo na justiça até os 21 anos de idade. Depois disso, o caso prescreve. Um dos objetivos é transformar o tema imprescritível.
As consequências emocionais desse tipo de abandono podem ser duradouras. De acordo com a psicóloga Glícia Brasil, situações assim podem gerar “medo da rejeição, ansiedade e dificuldade de acreditar que pode ser amado”.
Apesar das marcas, ele afirma ter conseguido reconstruir a própria trajetória. Hoje, é pai de três filhas e faz questão de estar presente na vida delas. “Continuo trabalhando, sendo pai de três filhas maravilhosas, que eu tenho um grande orgulho.”
Mesmo após tudo o que viveu, diz que não guarda ressentimento. Se tivesse a chance de reencontrar a mãe, a reação seria de acolhimento — e de superação.
“Ia abraçar ela e dizer: ‘Eu venci’. Apesar de tudo, eu venci com meus próprios méritos e esforço.”
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