(Foto: Reprodução) Em meio ao cenário urbano de Cascavel, no Oeste do Paraná, a Horta Comunitária do bairro Neva se destaca como um espaço de produção de alimentos, convivência e transformação social. Com 8 mil metros quadrados cedidos pela Prefeitura, o local funciona como uma cooperativa gerida pela associação de moradores e envolve atualmente três famílias na produção de hortaliças, temperos e plantas medicinais.
Cada canteiro cultivado carrega histórias de dedicação e cuidado, e cada semente plantada também representa uma forma de pertencimento à comunidade.
Hortas comunitárias têm ganhado espaço por reunir diferentes benefícios. Além de contribuírem para a segurança alimentar, oferecem oportunidades de geração de renda para quem se dedica ao cultivo. Esses espaços ampliam o acesso a produtos frescos, incentivam hábitos de vida mais saudáveis e aproximam o cotidiano urbano da natureza.
No bairro Neva, a horta traduz esses efeitos. Mais do que produzir alimentos, proporciona aos moradores acesso a ingredientes frescos e de qualidade, além de aprendizado e convivência. Embora a Prefeitura tenha cedido o terreno, a gestão diária e a produção estão nas mãos das famílias participantes, que atuam de maneira colaborativa.
As sementes plantadas carregam a esperança de uma comunidade integrada, e parte das colheitas também se transforma em gestos de solidariedade.
Alfaces em crescimento nos canteiros da horta comunitária.
Maria Heloísa Nunes/Divulgação.
Um sonho que virou realidade
Os participantes que se dedicam à horta desempenham papel central no cultivo das plantas. Entre regas, mudas e conversas nos canteiros, eles encontram momentos de lazer, terapia e convivência. Nesse cotidiano de terra e folhas, constroem vínculos, compartilham saberes e fortalecem uma rede de apoio que se estende para além dos produtos cultivados.
Idealizada por Antônio Marcos Gomes Nogueira, a horta nasceu de um sonho antigo de revitalizar um espaço que por anos esteve abandonado. “Quando eu ainda era criança tinha uma horta aqui que pertencia à Pastoral da Criança. Depois, quem cuidava saiu, e a horta acabou. Ficou cerca de oito anos abandonada, virou mato, um problema para o bairro, pois terrenos baldios atraem lixo, insetos e trazem insegurança”, relembra.
A vontade de mudar aquela realidade fez nascer a ideia de reativar o local. Antônio compartilha que, no início, o plantio de milho e mandioca foi essencial para arrecadar fundos e melhorar a estrutura e as condições de trabalho pouco a pouco. O espaço já tem cerca de nove anos de funcionamento.
Produção com foco na comunidade
Hoje, o local funciona como uma cooperativa de trabalho. “Aqui é uma horta comunitária, mas no sentido de ter um preço popular, sem visar lucro. A renda serve para manter as famílias que trabalham. A gente não vende para grandes comércios, o foco é atender a comunidade”, elucida Antônio.
O idealizador ressalta que o trabalho no campo exige dedicação diária. “É preciso estar presente todos os dias, inclusive feriados e finais de semana. [...] Nos dias muito frios ou de chuva, também é necessário vir cuidar e colher. As dificuldades são grandes, principalmente no inverno, que exige mais atenção e cuidado”, reforça.
Grande parte dos que se envolvem no projeto são aposentados, que encontram ali mais do que uma forma de complementar a renda: um espaço de convivência e bem-estar.
Atualmente, entretanto, quem cuida da horta é José Mandrick, aposentado, que coordena o cultivo e conta com o apoio de mais duas famílias. Entre elas está a de Carla Cordeiro da Rosa, que começou a trabalhar na horta há poucos meses, após ser convidada pelo próprio José.
“Eu vim uma vez conhecer, porque não sou daqui, sou de Dois Vizinhos. Gostei muito e logo surgiu a oportunidade de vir trabalhar. O seu José estava sozinho e chamou eu e meu esposo para ajudar”, explica Carla.
Mãos colhem alfaces diretamente dos canteiros da horta comunitária.
Maria Heloísa Nunes/Divulgação.
No dia a dia, Carla se divide entre o atendimento e o auxílio no cultivo. “Cuido mais da parte de atendimento, colho o que é preciso, e, quando dá tempo, ajudo lá embaixo na horta, carpindo, adubando. O seu José colhe de manhã e, depois, eu preparo os maços de cebolinha e tempero verde”, detalha.
Alimento fresco e preço acessível
O impacto da horta se espalha por toda a comunidade. O espaço oferece acesso a hortaliças frescas, gera renda para as famílias envolvidas e parte da produção excedente é destinada a pessoas em situação de vulnerabilidade, reforçando o caráter solidário do projeto.
Como resume Antônio: “A gente vive para o outro, então servir é uma alegria”.
Cebolinhas cultivadas nos canteiros da horta comunitária do bairro Neva.
Maria Heloísa Nunes/Divulgação.
As vendas seguem uma tabela acessível: cada pé de verdura é comercializado a R$4. Já três pés saem por R$10. O preço popular permite que moradores do bairro tenham acesso a alimentos frescos produzidos perto de casa.
Entre as hortaliças mais procuradas estão as de ciclo rápido, como a alface, que leva cerca de 30 dias para ser colhida. “A alface é o que mais sai, porque o pessoal gosta bastante. E a gente não usa defensivos, o que deixa o produto mais natural”, diz Antônio.
Durante o inverno, o cultivo se adapta às temperaturas mais baixas, priorizando verduras mais resistentes e procuradas, como chicória, almeirão, brócolis e couve-flor. Já no verão, predominam folhas como alface americana, crespa, mimosa, frisée e romana.
Todo o trabalho é feito manualmente, desde o preparo do solo até a colheita.
Canteiro de beterrabas da Horta Comunitária do bairro Neva.
Maria Heloísa Nunes/Divulgação.
Entre os clientes está Cleonice Moraes, que trabalha próximo à horta e é uma visitante assídua. “Conheci a horta há um tempo, mas comecei a comprar com frequência recentemente. Gosto muito de vir aqui porque os produtos são frescos e naturais, e sei de onde vêm. A proximidade do meu trabalho ajuda, pois saio na hora do almoço e já passo para pegar verduras para a semana”, conta.
Verduras frescas colhidas nos canteiros da horta comunitária.
Maria Heloísa Nunes/Divulgação.
Um espaço que cultiva vínculos
O espaço não se limita à produção agrícola. Nos canteiros, nas mudas cultivadas e nas entregas de alimentos estão histórias de dedicação e esforço coletivo. Em cada encontro entre os participantes e moradores, aparece o reflexo de um projeto que reúne natureza e comunidade.
A Horta Comunitária do bairro Neva vai além de um terreno cultivado. É ponto de encontro, espaço de cooperação e fonte de alimentos, renda e convivência.
Mesmo em meio à cidade, o projeto mostra que é possível plantar futuro, colher transformação e fortalecer os vínculos entre as pessoas.
Plantação de couve na Horta Comunitária do Neva.
Maria Heloísa Nunes/Divulgação.
Texto produzido por Maria Heloísa Nunes, acadêmica do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, sob orientação da professora Julliane Brita, para a 24ª edição da Revista Verbo, veiculada na 5ª edição do City Farm FAG.