A última vez que os EUA tentaram — e conseguiram — fazer uma mudança de regime no Irã

  • 16/03/2026
(Foto: Reprodução)
Manifestantes monarquistas marcham no centro de Teerã em 26 de agosto de 1953, após o golpe de Estado que restaurou a monarquia no país. Getty Images via BBC Os iranianos conhecem esse dia como 28 Mordad, data em que um golpe de Estado marcou um ponto de virada na história do país. Era 19 de agosto de 1953 quando uma operação orquestrada pelas agências de inteligência dos Estados Unidos (CIA) e do Reino Unido (MI6) depôs o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, que havia sido eleito democraticamente. O golpe, apoiado pelos americanos e britânicos, não apenas redefiniu o destino do povo iraniano, como também se provou um dos eventos mais cruciais da história moderna do Oriente Médio: ele lançou as bases para a adoção de uma política externa antiocidental no Irã e alterou fundamentalmente a geopolítica regional. "O golpe moldou profundamente a política iraniana moderna, e a queda de Mosaddegh deixou um legado duradouro de raiva em relação aos Estados Unidos em particular e ao Ocidente em geral", destaca a professora Simin Fadaee, catedrática de Sociologia na Universidade de Manchester, na Inglaterra. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Uma missão no início da Guerra Fria Hoje sabemos o que aconteceu em 19 de agosto de 1953 porque, em 2013, 60 anos após os eventos, a CIA admitiu pela primeira vez o seu envolvimento no golpe contra Mohammad Mossadegh. Em uma série de documentos que deixaram de ser confidenciais e foram publicados pelo Departamento de Estado americano, é possível conhecer os detalhes sobre a operação que a CIA chamou de Operação Ajax, e o MI6, de Operação Boot. "O golpe militar que derrubou Mossadegh e seu gabinete da Frente Nacional foi realizado sob a direção da CIA como um ato de política externa dos EUA, concebido e aprovado nos mais altos escalões do governo", afirmou um dos documentos divulgados recentemente. A operação foi dirigida pelo oficial de alta patente da CIA, Kermit Roosevelt (neto do ex-presidente Theodore Roosevelt). Após conduzir um estudo, intitulado Fatores Envolvidos na Derrubada de Mossadegh, Roosevelt concluiu: "Um golpe no Irã é possível." O primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh discursa para uma multidão em Teerã, em 2 de outubro de 1951. Getty Images via BBC Após a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria estava em curso e, na década de 1950, o Irã era estrategicamente crucial para o Ocidente. Primeiro, o país se localiza em uma área geográfica e politicamente crucial para impedir o acesso soviético ao Golfo Pérsico e a disseminação do comunismo na região. Segundo, as lucrativas reservas de petróleo do Irã, descobertas em 1909, eram efetivamente controladas pela Companhia Britânica Anglo-Iraniana de Petróleo (AIOC), posteriormente conhecida como British Petroleum, e agora como BP. A AIOC administrava a produção sob um acordo de concessão, com direitos exclusivos e lucrativos para explorar e extrair petróleo em grande parte do Irã. Essas prioridades, no entanto, foram ameaçadas quando Mohammad Mossadegh foi eleito primeiro-ministro em 1951, de forma democrática. Mohammad Mossadegh e a nacionalização do petróleo Embora o Irã permanecesse uma monarquia constitucional, com o xá Reza Pahlavi como chefe de Estado, a eleição de Mossadegh marcou um passo significativo na evolução democrática do país. Mossadegh era um político moderado de esquerda cujo principal objetivo no poder era nacionalizar a indústria petrolífera iraniana. A medida foi extremamente popular no Irã, mas provocou grande consternação no Ocidente, particularmente no Reino Unido, quanto ao futuro daquela que era então sua maior e mais lucrativa empresa no mundo. "O Reino Unido tentou reverter essa nacionalização, que ameaçava sua influência econômica e estratégica no Irã, especialmente após a perda da colônia indiana", explica Simin Fadaee. "E os Estados Unidos temiam que Mossadegh abrisse as portas para uma maior influência soviética, especialmente dada a presença de um significativo movimento comunista e socialista no país." Os britânicos tentaram negociar com Mossadegh, mas o primeiro-ministro rejeitou qualquer envolvimento estrangeiro na indústria petrolífera iraniana. O Reino Unido então buscou a ajuda dos Estados Unidos, argumentando que Mossadegh representava uma ameaça à luta contra o comunismo. E assim começou a conspiração para derrubar o primeiro-ministro iraniano. O plano britânico era substituir Mossadegh pelo general Fazlollah Zahedi — que eles consideravam um aliado mais flexível — para agir sob as ordens do xá, que simpatizava com os interesses ocidentais e era firmemente anticomunista. Documentos americanos divulgados revelam que Kermit Roosevelt chegou ao Irã em julho de 1953. Ele imediatamente se encontrou com agentes iranianos, organizou o apoio de oficiais do Exército e buscou aliados entre o clero islâmico. Roosevelt também se comunicou com o xá Reza Pahlavi, que havia fugido recentemente do país após uma tentativa anterior de derrubar o primeiro-ministro ter fracassado. Mohammed Mossadegh em reunião com seu gabinete em 1951 para discutir a nacionalização da indústria petrolífera do Irã. Getty Images via BBC Como explica Simin Fadaee, a operação da CIA e do MI6 foi "cuidadosamente planejada". "Ela combinou manipulação política, guerra psicológica e tumultos de rua. Eles financiaram e organizaram figuras e grupos de oposição entre políticos influentes, militares e clérigos, e realizaram campanhas de propaganda em larga escala para retratar Mossadegh como uma ameaça à estabilidade", detalha ele. Também foram orquestrados protestos e tumultos de rua, que rapidamente semearam o caos e desestabilizaram o país. Em meio ao tumulto, o general Zahedi mobilizou o Exército para restaurar a ordem e, por meio da força militar, derrubou o governo e prendeu o primeiro-ministro. Os documentos mostram que vários clérigos estiveram envolvidos no golpe, incluindo o proeminente aiatolá Abol Gashem Kashani, que desempenhou um papel fundamental. Mossadegh foi julgado por traição e condenado a três anos de prisão. Posteriormente, foi colocado em prisão domiciliar e passou o resto da vida nessa condição até sua morte, em 1967. O retorno do xá e a revolução de 1979 Reza Pahlavi retornou ao poder em 1953 como monarca do Irã. Ele assumiu poder absoluto e inaugurou uma era de repressão e violações dos direitos humanos. "O golpe lançou as bases para um longo período de autoritarismo, cujas consequências ainda vemos hoje", afirma o professor Fadaee. "Reza Pahlavi rapidamente consolidou seu controle criando, com a ajuda da CIA, a infame agência de inteligência Sazman-e Ettel'at va Amniyat-e Keshvar (Savak). Ele proibiu todos os partidos de oposição e silenciou e prendeu ativistas envolvidos no movimento pela nacionalização do petróleo, entre outros." O xá governou por mais de duas décadas, um período que coincidiu com um rápido crescimento econômico — para alguns iranianos —, o que tornou o Irã um dos países mais desiguais do mundo. O xá Mohammad Reza Pahlavi recebido por soldados no aeroporto de Teerã em 23 de agosto de 1953, quando retornou do exílio. Getty Images via BBC Assim, a queda de Mossadegh e a consolidação do poder do xá lançaram as bases para a ascensão do fervor nacionalista iraniano que levou à revolução de 1979, que derrubou a monarquia persa de 2,5 mil anos e a substituiu por uma república islâmica. Liderado pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, o novo regime teocrático instituiu uma lei religiosa rigorosa e severas restrições sociais, reverteu políticas pró-ocidentais e adotou uma política externa ideológica que alterou radicalmente a geopolítica regional. Como explica Simin Fadaee, "logo após a revolução, a república islâmica estabeleceu rapidamente sua própria polícia secreta, a Sazman-e Ettelaat Va Amniat Meli Iran (Savama), que utilizava muitos dos mesmos métodos brutais da Savak". As consequências da revolução Após a revolução de 1979, as hostilidades começaram nas relações entre os Estados Unidos e o Irã. Em novembro daquele ano, um grupo de manifestantes invadiu a embaixada dos EUA em Teerã, e fez reféns diplomatas e outros cidadãos americanos. O sequestro durou 444 dias. Durante esse período, em abril de 1980, os Estados Unidos romperam relações diplomáticas com o Irã, algo que permanece até os dias de hoje. Em resposta ao ataque à embaixada e ao sequestro de cidadãos americanos, Washington impôs severas sanções econômicas contra o Irã. Além disso, os EUA apoiaram o Iraque durante a guerra de oito anos que aquele país travou contra o Irã na década de 1980, um conflito que tirou a vida de centenas de milhares de iranianos e prejudicou gravemente os esforços de reconstrução política e econômica do país. Por décadas, as sanções americanas tiveram um impacto enorme na economia iraniana, que nos últimos anos tem sido assolada por uma inflação galopante e a desvalorização da moeda, o que tem pressionado severamente os orçamentos familiares. Em março de 2025, o Banco Mundial estimou que entre 35% e 40% dos iranianos viviam abaixo da linha da pobreza. Simin Fadaee, professora da Universidade de Manchester, afirma que, todos os anos, no aniversário do golpe de 1953, ela e muitos outros iranianos se perguntam qual teria sido o destino do país se os EUA e o Reino Unido não tivessem conspirado para derrubar a incipiente democracia do país. Os iranianos ainda estariam lutando por seus direitos básicos? As relações entre o Irã e o Ocidente seriam melhores? Os atuais ataques dos EUA e de Israel contra o Irã teriam sido evitados? "Não é fácil especular em retrospectiva sobre o que poderia ter acontecido, mas acredito que, internacionalmente, o golpe de 1953 abriu caminho para uma série de intervenções imperialistas e a derrubada de governos democraticamente eleitos em todo o Sul Global", diz Fadaee. "Talvez os Estados Unidos tivessem pensado duas vezes antes de planejar golpes de Estado na Guatemala em 1954, no Congo em 1961 ou no Chile em 1973 se não tivessem conseguido derrubar Mohammad Mosaddegh no Irã." "Internamente, acredito que o caminho do Irã rumo à democracia e à justiça social teria sido muito mais tranquilo, embora certamente não necessariamente fácil", afirma ela. "Mas hoje, enquanto lutam por um futuro melhor, muitos iranianos conseguem perceber claramente como, 70 anos após o golpe que pôs fim à democracia, os conflitos internos ainda são influenciados por potências estrangeiras", conclui a professora.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/03/16/a-ultima-vez-que-os-eua-tentaram-e-conseguiram-fazer-uma-mudanca-de-regime-no-ira.ghtml


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