A força da não escolha: 1 em cada 4 eleitores de Uberaba deixou de votar para presidente em 2022

  • 07/08/2026
(Foto: Reprodução)
Nas eleições de 2022, 55 mil eleitores de Uberaba deixaram de escolher um candidato a presidente ao somar abstenções, votos brancos e votos nulos. Tânia Rêgo/Agência Brasil As pessoas que não comparecem às urnas no dia da eleição e se abstém de votar. Os que votam em branco. E os eleitores que digitam números inexistentes e anulam o voto. Se formassem um grupo político, seriam uma das maiores forças eleitorais de Uberaba. Nas eleições de 2022, 55.073 eleitores da cidade deixaram de escolher um candidato a presidente ao somar abstenções, votos brancos e votos nulos. O contingente representa 23,6% do eleitorado apto a votar naquele ano, conforme os dados disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número chama atenção porque supera a população de muitos municípios mineiros e levanta uma questão importante para as eleições de 2026: qual impacto esse eleitorado poderia ter se participasse efetivamente das escolhas políticas? ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Embora os votos brancos e nulos não sejam contabilizados como votos válidos e as abstenções não alterem diretamente o resultado da eleição, o volume de eleitores que deixam de participar revela um desafio para a democracia. Em Uberaba, os mais de 55 mil registros de ausência, branco e nulo em 2022 mostram que existe um contingente expressivo da população que, por desinteresse, protesto ou descrença, optou por não ajudar a escolher os rumos políticos do país. 2022: 1 a cada 4 eleitores ficaram fora da escolha dos governantes Os dados do TSE mostram que a soma de abstenções, votos brancos e votos nulos permanece elevada em Uberaba há pelo menos três eleições presidenciais consecutivas. No primeiro turno para presidente: 2014: 61.466 eleitores (28%) 2018: 50.601 eleitores (23,25%) 2022: 55.073 eleitores (23,6%) Mesmo com oscilações, o percentual permanece próximo de um em cada quatro eleitores. O mesmo acontece no recorte para eleição de governador. Porém, com uma taxa ainda mais alta. No primeiro turno para governador: 2014: 81.465 eleitores (37,2%) 2018: 68.743 eleitores (31,6%) 2022: 74.858 eleitores (32,1%) Apesar desses números, o professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Moacir de Freitas Júnior afirma que os índices de abstenção estão estáveis ao longo das últimas eleições. "Não obstante seja um índice grande, não está muito além do que historicamente sempre foi. E devemos lembrar que o voto branco e nulo é computado como voto - e não como abstenção - e, em si, encerra uma decisão política de não querer nenhuma das opções." O fenômeno é ainda mais forte em cargos menos conhecidos Brancos e nulos por cargos nas últimas eleições em Uberaba Os números mostram que o desengajamento cresce em algumas disputas específicas. Contudo, os votos nulos e brancos frequentemente alcançam patamares ainda mais elevados para a cadeira de senador, indicando uma dificuldade maior da população em identificar o papel desses cargos. Segundo a socióloga e cientista política Alecilda Oliveira, a figura do senador costuma parecer mais distante do cotidiano dos eleitores. "Muita gente não sabe exatamente o que um senador faz. É uma figura que se relaciona menos diretamente com o eleitor e isso acaba aumentando a distância entre a população e o cargo", explicou. Essa distância se amplia quando considerada a regra de renovação das cadeiras do Senado, que ocorre a cada oito anos. Diferentemente dos demais cargos eletivos, renovados a cada quatro anos. "Quando a eleição é nacional, o eleitor se concentra mais no voto para presidente e nem sempre dá a mesma importância para o voto ao Senado, que de fato é um posto mais distante da população. Quanto mais próximo de nós (como o deputado, o vereador) ou mais presente em nossas perspectivas políticas (o presidente, o prefeito e, em menor escala, o governador), maior a chance de manter o voto. Mas isso não é uma regra", afirmou o professor Moacir de Freitas Júnior. O que está por trás das abstenções? Para a pesquisadora Alecilda Oliveira, os números podem refletir um fenômeno mais amplo de descrença na política. "Existe um sentimento antipolítica que vem crescendo há anos. Isso ajuda a explicar por que parte das pessoas deixa de enxergar valor na participação eleitoral", afirmou Alecilda Oliveira. A especialista avalia que o Brasil ainda mantém índices relativamente controlados de ausência graças ao voto obrigatório. Mesmo assim, o crescimento das abstenções é visto como um sinal de alerta para a democracia. "Esse dado mostra uma democracia participativa em erosão. É um processo que precisa ser observado com atenção." De acordo com Moacir de Freitas Júnior, a perda de perspectiva em mudanças, desesperança com o futuro, problemas de ordem material e outros fatores distanciam o eleitor da ideia de que o voto tem o poder de transformar a vida e a sociedade. "Outras circunstâncias eleitorais específicas (polarização, possibilidade do candidato que não gosto sair vitorioso sem chance de reversão, não gostar de nenhuma das opções, entre outros) também são relevantes para a abstenção e para a opção por branco ou nulo", afirmou. Segundo ele, também é preciso apresentar propostas sobre os temas mais importantes para ajudaria a mobilizar eleitores a votar. "Mas, o que temos visto é o oposto: discursos de ódio, desmobilização, violência política invadindo até os espaços familiares. Enfim, um movimento contrário que afasta o eleitor da política." Quem deixa de votar influencia as campanhas Segundo Alecilda Oliveira, existe uma consequência prática para esse comportamento: grupos que participam menos tendem a receber menos atenção dos candidatos. Ela cita especialmente os eleitores jovens, que costumam apresentar índices menores de engajamento eleitoral. "Quanto menos os jovens votam, menos as campanhas vão se importar com eles. Isso gera um ciclo de desmobilização ainda maior." Na avaliação dela, o problema não está apenas na eleição atual, mas nos reflexos de longo prazo para a cultura política do país. Os candidatos estão tentando recuperar esses eleitores? Apesar do tamanho desse contingente, Alecilda afirma não enxergar campanhas específicas voltadas para convencer quem deixou de votar, anulou ou votou em branco nas eleições anteriores. Quem tem promovido ações de conscientização é, principalmente, a Justiça Eleitoral, por meio de campanhas que buscam reforçar a importância do voto e esclarecer dúvidas sobre o processo eleitoral. "Precisamos entender quem é essa população e por que ela não está indo às urnas. É uma questão significativa e que merece atenção." VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas

FONTE: https://g1.globo.com/mg/triangulo-mineiro/noticia/2026/08/07/a-forca-da-nao-escolha-1-em-cada-4-eleitores-de-uberaba-deixou-de-votar-para-presidente-em-2022.ghtml


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